Não é preciso de uma lente apurada para perceber que a representação da mulher na música é desproporcional. Se você buscar imagens de mulher guitarrista, baixista, baterista ou Dj no Google, vai se deparar com um estereótipo de banco de imagem que reúne um leque infindável de clichês sexistas. Se buscar matérias com produtoras, vai encontrá-las vez ou outra, sendo questionadas por dicas de beleza. Roadies? Iluminadoras? Onde elas estão?

A jornalista / entusiasta musical Claudia Assef e a produtora cultural / advogada Monique Dardenne atuam no cenário brasileiro há mais de uma década e decidiram que era hora de fazer parte da união das minas que estão ajudando a dar mais diversidade para o cenário. A plataforma, batizada de Women’s Music Event, nasceu para dar voz (e palco) para mulheres que atuam em diferentes áreas do entretenimento, entre o backstage e a produção de eventos.

O WME engrossa o caldo de um movimento recente que começou a crescer na cena independente brasileira. Em cada final de semana, cada show, cada festa, reunião de bar, elas se juntam em coletivos como Sê-la, festas de rua como Mamba Negra (SP) e Disritmia (Rio), construindo uma cena mais igualitária. Existem ainda projetos como a SIM, da Fabiana Batistela, que colocou mais minas na programação do evento para falar sobre música e negócios. Isso sem contar artistas como Erica Alves, Amanda Mussi, que estão virando a noite da cidade de cabeça pra baixo.

Batemos um papo com Claudia sobre a primeira edição do WME, que acontece neste final de semana no Centro Cultural SP. E na sequência, você encontra a programação com alguma dessas minas compartilhando ideias e experiências.

Qual a importância do feminismo culturalmente?

Clau: O feminismo não é, ao contrário do que muitos podem presumir, o antagonismo do machismo. O feminismo é a busca pela igualdade de direitos. Não precisamos nem dizer o quão estamos atrás em termos de direitos, não é? A começar pelos salários, que são comprovadamente inferiores para mulheres, que ainda sofrem um preconceito apenas por serem vistas como “ameaçadoras” pois podem a qualquer momento ficar grávidas! Eu e a Monique já passamos por momentos delicados por conta de gestações.

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Ellen Allien e seus beats esvoaçantes à frente da BPitch Control

 

O feminismo é importante para equilibrar o PH deste planeta. Sem direitos iguais entre gêneros, não vejo como conviver pacificamente sem que haja culpa, raiva ou ressentimento. Nosso papel é tentar acelerar esse equilíbrio através de uma operação que começa na indústria da música, onde há uma desigualdade muito grande no protagonismo dos negócios e também artisticamente.

O primeiro festival de cultura feminista no Brasil aconteceu no início da década de 80, depois disso o assunto ficou morno. Você enxerga um gap entre gerações de mulheres?

Clau: Acho que este assunto voltou à pauta há alguns anos, especialmente com meninas de universidades como a USP. Trabalhei em uma redação que tinha várias meninas de 20 e 23 anos que estudavam jornalismo e estavam mergulhadas em questões feministas, muito mais do que nós na época! Acho que o assunto se tornou tão urgente que o inconsciente coletivo dessa geração de meninas que estão na fase dos 20 anos está com esse tema fervilhando em suas cabeças e corações. Que maravilha poder aproveitar dessa energia para vivenciarmos um momento de real mudança para a sociedade.

Nosso papel é tentar acelerar esse equilíbrio através de uma operação que começa na indústria da música, onde há uma desigualdade muito grande no protagonismo dos negócios e também artisticamente

Como é feita a curadoria dessas artistas? Existe espaço para enviar trabalhos?

Clau: Temos um canal aberto do Facebook e já temos recebido bastante material. Teremos muitos eventos pela frente, então, sim, meninas, apareçam! A princípio, eu e a Monique estamos cuidando da curadoria, mas queremos ter mais adiante um grupo de mulheres da música para nos ajudar, trazer novidades, apontar caminhos!

Para vocês, quais foram as mulheres que revolucionaram a música?

Clau: Sister Rosetta Tharpe (o Music Non Stop fez um post mara sobre ela) sem dúvida, Annette Peacock, Helena Meirelles, Rita Lee, Patti Smith, Elza Soares, Wendy Carlos, Laurie Anderson, Siouxsie Soux, Daphne Oram, Carmem Miranda, Nara Leão, Ellen Allien, Sonia Abreu… são muitas, mas acho que as que citamos são muito representativas.

Além de formação (workshops, eventos), como vocês pretendem ajudar artistas já estabelecidas a buscarem melhores cachês ou uma inclusão mais igualitária nos festivais? 

Clau: Quem trabalha no meio da música sabe o quanto o machismo é ainda vigente, não apenas por parte dos homens, mas de muitas mulheres também. A mulher na música tem que seguir um script que é: ser bonita, cantar bem, rebolar (mas não muito), ser magra, malhar, estar sempre de bom humor e maquiada… ou seja, o que se espera das mulheres no meio da música é que se comportem como manda o figurino! Mas, cadê o espaço para que as mulheres se desenvolvam em outros papéis nesse universo? Como managers, bookers, engenheiras de áudio, iluminadoras, CEO’s, etc.

Queremos mudar o mindset da indústria, mostrar que existem mulheres talentosas que podem provar com o trabalho que cumprem funções a priori delegadas aos homens

Esse espaço a gente vê preenchido pouco por mulheres, assim como em meios mais dominados por homens, como o da música eletrônica, os line-ups ainda são muito pouco abertos a talento femininos. Queremos mudar o mindset da indústria, mostrar que existem muitas mulheres talentosas que podem provar com o trabalho que podem cumprir funções a priori delegadas aos homens. Viemos para acelerar um movimento que já vem se desenhando, mas que está longe de estar em um cenário de igualdade.

Sabemos que isso ocorre em muitos campos, como nós duas temos uma longa estrada na música, resolvemos focar neste universo para atuar com uma plataforma que fosse capaz de catalizar essa mudança. Queremos que, daqui a algum tempo, a gente nem precise pedir por essa igualdade de espaço, mas até lá… tem muito trabalho a ser feito.

((Faça parte da mudança))

WME Sessions #1 – Tássia Reis

Nesta quinta estreia nossa plataforma digital. Antecipamos aqui em primeira mão um cheirinho do que será o nosso primeiro programa, WME Sessions. Feito especialmente para o site, o WME Sessions mostrará artistas consagrados e novos talentos da música num formato intimista, mesclado versões exclusivas de suas músicas com entrevista. A estreia é com a maravilhosa Tássia Reis. Sente o peso.

Programa completo na quinta, no www.womensmusicevent.com.br

Publicado por Women’s Music Event em Terça, 13 de dezembro de 2016

 

Conhece alguma garota com um set incrível ou que está atuando no backstage da indústria? Envie o link para cadastro na plataforma de profissionais ou convide para o próximo evento. Nessa semana, rola o primeiro encontro da plataforma nos dias 17 e 18 de março no Centro Cultural São Paulo. O line-up tá aí, junto com essa primeira session lindona com a Tássia Reis.

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