Um app que permite pichações em lugares impossíveis, como a Muralha da China, a Casa Branca ou um quadro de Picasso. Arte nos muros que viram animações no Youtube e murais que ganham vida em GIF. O futuro do grafite é agora, com artistas de rua e grafiteiros reinventando a forma como a arte é levada dos becos para a internet.

Esse é o tema abordado pelo blogueiro RJ Rushmore no livro “Viral Art – How Internet Has Shaped Street Art and Graffiti”, que é lançado gratuitamente nesta segunda (16) e você já pode baixar. Responsável pelas bem traçadas linhas do Vandalog, Rushmore respira, compartilha, faz a curadoria e facilita criações de trabalhos nas ruas desde 2008, quando se apaixonou por esse tipo de arte andando pelas ruas de Londres com o pai.

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Quadrinho de Lush para especial no Vandalog

Com cerca de 50 artistas entrevistados e uma pesquisa de dois anos sobre o assunto, “Viral Art” propõe um debate sobre a criação do grafite e a arte de rua na era digital e como serão no futuro. Um dos personagens é o nova-iorquino Katsu, que se auto-batiza hacker, vândalo e artista, e que explica no livro como decidiu editar pichações com After Effects em vídeos virais que já confundiram muita gente no Youtube.

“Dei uma olhada no espelho e aceitei que eu faço tudo online. Vejo arte, crime, notícias e todos os tipos de histórias. Não poderia mentir para mim mesmo e dizer: ‘a Internet é uma merda, tudo é falso e não substancial’. Uma coisa que notei foi o jeito estranho que os acontecimentos se credenciavam. Ver um grafite na web faz com que aquele artista ou aquela obra seja ‘validada’ por ser publicada digitalmente”, considera.

Em entrevista ao Malaguetas, Rushmore diz que além da validação, “muitas pessoas que costumavam ignorar grafite ou arte de rua, que achavam um lixo para a cidade, conhecem online e se apaixonam”. “E você ainda pode ser inspirado por uma pessoa que está do outro lado do mundo. Um artista do interior no Brasil pode inspirar um artista em Berlim. Isso é poderoso e emocionante”, comenta o autor. Para Katsu, que nos últimos anos têm ganhado fama com vídeos fake pichando espaços proibidos entre correria e adrenalina, a tensão atrai as pessoas. “Por que você acha que vídeos com as pessoas lutando e se machucando são tão populares? As pessoas usam a internet para experimentar coisas que elas sentem falta na vida real.”

Rushmore acredita que, assim como em outros cenários artísticos, a internet também trouxe seus desgastes à cena. “Os dois pontos negativos foram indiscutivelmente, o desaparecimento de estilos locais de grafite e street art. E o segundo, cara que aparece no Instagram como se estivesse pintando trabalhos impressionantes e ilegais, mas na verdade apenas faz pinturas no quintal dos amigos sobre assuntos não muito prolíficos.”

Com murais graficamente megalomaníacos ganhando cada vez mais aprovação dos cidadãos e sendo apropriados pela publicidade, tem sido difícil escrever sobre o tema. “Criar um equilíbrio entre o compartilhamento de fotos e vídeos que as pessoas querem ver e a arte de rua em si é o desafio. Pelo menos nos EUA e na Europa, a arte de rua vêm deste lugar ilegal e rebelde, mas hoje muitos artistas preferem focar em murais, trabalhos legais e comerciais. Raramente eu recebo um e-mail dizendo: ‘Aqui está minha última peça ilegal de arte de rua’. Mas eu recebo e-mails todos os dias com belas pinturas. Escrever sobre coisas ilegais dá mais trabalho. Então, tenho que lembrar de manter a preocupação em escrever sobre mais do que apenas murais bacanas.”

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Gif do INSA

Katsu acredita que é possível manter o lado vândalo das criações mesmo online.

“Existem dois modos de fazer isso. Primeiro, você pode fazer o upload e compartilhar conteúdo que represente sua pichação ou que realmente enfatize o lado criminoso do seu ato. Ter um pixo online, onde as pessoas podem ver, é vandalismo pra mim. Se ele é um símbolo de vandalismo, se é um posicionamento, é algo semelhante a desfigurar propriedade. O segundo é a desfiguração do espaço digital. Sonho com o dia que vou poder pixar a página do Google por 0,15 segundos. Basta pensar no número de pessoas no mundo todo que veria meu pixo lá, em cima do logo do Google. Marcas d’água, spam e hackers são a ponte do grafite físico para o mundo digital. Hackers e pichadores pensam de forma semelhante. O ato de hackear será o grafite do futuro.”

“Hackers e pichadores pensam de forma semelhante. O ato de hackear será o grafite do futuro”, Katsu

Fã do brasileiro Nunca, Rushmore indica outros artistas que você encontrará em “Viral Art”. “O INSA está fazendo um ótimo trabalho misturando GIFs animados e grafite (foto acima). Também admiro todos no FAT Lab, especialmente Evan Roth e KATSU. Eles estão realmente trabalhando para integrar o grafite cada vez mais a internet.”

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Mulher posa com balão de Banksy no Brooklyn, em Nova York (foto de Andrew Burton/Getty Images)

E como fica Banksy nessa?

“Acho o Banksy brilhante, mas não que ele esteja usando a internet melhor do que a maioria dos artistas de rua. Ele já tinha uma audiência enorme. Isso significa que ele teve um site por muito mais tempo do que a maioria, e tenho certeza que isso o ajudou. Os trabalhos do Banksy parecem bons online, mas são ainda melhores ao vivo. Como o balão que ele pintou em Nova York, em outubro. É a peça perfeita para alguém ir até lá e tirar uma foto perto. Sim, você pode olhar para essa foto no Facebook, mas alguém tem que realmente ir lá e posar com ela.”

Sobre a escolha do tema e dos artistas, RJ acredita que esse é um jeito de fazer uma curadoria do bem. “As pessoas gostam de usar o termo curador pra blogueiro hoje, mas a raiz da palavra significa ‘preservar’. Não acho que os blogs sejam um lugar para isso. Os textos são populares por um instante e, em seguida, desaparecem rapidamente no esquecimento. Para mim, isso não é preservação. Eu amo o Vandalog, mas é algo diferente do que fazer curadoria de verdade. No livro, selecionei artistas que representam algo único sobre a arte de rua, como um momento histórico ou uma técnica. Aí foi curadoria, e no livro espero que as seleções ajudem a preservar um momento relacionado a arte de rua e a história do grafite.”

Busque conhecimento: 

Entrevista com Katsu publicada na íntegra na revista Complex, onde o artista comenta mais sobre seu trabalho na rede e explica a diferença entre grafite e arte de rua.

Rushmore indica: v1xRun.com, site com artes variadas a preços justos.

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