“Hoje fui entregar pôsteres para um amigo na Young & Rubicam. Fazia ANOS que não pisava numa agência de grande porte. Quando entrei na recepção, o cheiro… aquele cheiro que só agência grande tem. As pequenas não tem, as médias não tem, só as grandes. Chamei de ‘cheiro de mostrar pasta’”, conta Tim.

“Fiquei até atônito, uma nostalgia de algo que eu detestava”, diz. O Tim vendia coxinha no isopor quando ela ainda não era um petisco gourmet. Em uma mistura de espírito auto-didata e disposição para empreender, trabalhou em padaria, vendeu camisetas grafitadas pros amigos e construiu uma carreira em agência sem ter cursado as descoladas faculdades paulistanas.

Nos últimos dois anos encheu o saco e resolveu investir no próprio projeto, o Tint’e'Papel, e em uma vida mais próxima do filho Pedro. Do apartamento / estúdio com vista para o Bixiga (de onde ele ostenta copos americanos de cerveja gelada), ele compartilha algumas experiências e conta como a maldição do blues lhe tirou uma dezena de pôsteres.

Malaguetas: Conta como começou sua relação com arte.
Luiz Ernani: Bem, eu nem queria ser artista. Na verdade eu nem pensava em muita coisa sobre isso, sobre o que ser quando crescer, essas coisas. Mas sempre gostei de desenhar. Nessa, acabei indo parar em propaganda, ser diretor de arte. Acho que depois de um tempão trampando em propaganda, todo diretor de arte, ou a maioria deles, têm dois caminhos a seguir: ou o de ser diretor, ou o de arte…e eu não tenho a menor vocação pra ser diretor.

Eu queria sair de agência, ser dono do meu próprio nariz, empreender, e não sabia fazer mais nada da vida, então fui estudar e treinar serigrafia… Mais treinar, estudei pouco. Tudo o que eu sei de arte e propaganda é empírico. Além do Tint’e'papel, tô criando uma marca de roupa também, Original Motherfucker. O lance é empreender, vou tocar esses dois projetos agora. Mas o Tint’e'papel é o que tá mais adiantado.

Malaguetas: E como tem sido? Você já tinha experiência como autônomo?
Luiz Ernani: Quando meu filho nasceu, a primeira coisa que eu pensei foi: “preciso parar de trabalhar”. Quando fiquei sabendo que a mãe dele estava grávida, estava desempregado e pensava “preciso arrumar um trampo”. Quando ele nasceu, pensei “preciso parar de trabalhar”. Trabalhei mais um ano em agência depois que ele nasceu e quando saí prometi pra mim mesmo que não voltava mais. Isso foi em 2012, e desde então tenho sido autônomo. Mas sempre gostei de empreender. Quando era moleque, com uns 12 saia com caixa de isopor vendendo coxinha. Comecei a trabalhar cedo, com 13 meu primeiro emprego oficial foi balconista de padaria. Mas sempre gostei de camiseta, com 16 eu grafitava camiseta pra vender. Com stencil, vendia camiseta pra academia de karatê, na época tinha locadora de games… vendia pra eles.

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Malaguetas: Você empreende pela necessidade, pela falta de saco de ter um chefe ou pelo frio na barriga de ter algo seu?
Luiz Ernani:
Tudo um pouco… Tive chefes legais, chefes babacas… Frio na barriga dá uma adrenalina, mas o lance é a necessidade de ter controle. E eu nem sou do tipo controlador, pelo contrário, quero mais é agregar gente. Mas fazer as coisas do jeito que eu acho que tem que ser feitas. Por exemplo, tenho dois mil pôsteres aqui que não coloco pra vender. Tem que estar do jeito que imaginei, senão não sai daqui. E nem sei se pode ser chamado de perfeccionismo, é mais o bode de ter chefe há anos. Chefe metendo a mão no trabalho e errando feio, e você avisando que vai dar errado, enfim… cansei. O legal da serigrafia é que, dentro do padrão que você estipula, certos erros e falhas são aceitáveis e desejáveis. Mas dentro do padrão.

“Quando tenho uma ideia, penso que ela é legal porque acho legal e tenho fé que vai vender. Se não vender… não vendeu, foda-se, não tenho que dar satisfação. Essa é a parte boa de não ter chefe”

Malaguetas: E como funciona seu processo de criação? Você se prende à venda? 
Luiz Ernani: É inevitável criar não pensando na venda, mas estou me desvencilhando cada vez mais. Claro que quero que a minha arte venda, mas não quero me pautar só por isso, senão abriria uma agência de propaganda e seria um chefe controlador. Mas cada vez mais quando tenho uma ideia, penso que ela é legal porque eu acho legal, e tenho fé que vai vender. Se não vender… não vendeu, foda-se, não tenho que dar satisfação. Essa é a parte boa de não ter chefe. Sou autodidata por excelência, vou errando até dar certo. É como diz a frase: “Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor.”

Malaguetas: É, tem que tomar cuidado pra não virar o próprio carrasco… Me conta sobre os pôsteres Let’s Get Stoned e o do John Coltrane?
Luiz Ernani: O Let’s Go Get Stoned foi uma das primeiras estampas de camiseta que fiz. Era pra ser uma estampa da marca que está ali engavetada por enquanto, aguardando o tempo dela de ir pra rua. Quando pensei que seria legal fazer pôster serigrafado, resgatei ela, mexi e mexi de novo, e fiz os primeiros. Só tinta preta estampada no papel, e aí com o tempo achei que seria legal fazer uma série colorida. Fui pesquisar a melhor maneira de pintar à mão, daí saiu a idéia de fazer 60 peças. Meio que do nada e aleatório, “ahh, sei lá… vou fazer umas 60″, e é isso. Mas esse poster em si é meio que “assombrado”, hahaha.johncoltrane

Fiz a primeira tela, enorme, 66x96cm, a tela entupiu, eu nem manjava nada. Foi a primeira. Diminui o tamanho, fiz de novo, e dessa vez perdi o fotolito e a tela rasgou. Refiz novamente o fotolito e a tela, e quando tinha impresso uns 30 pôsters, vi que estava faltando um pedaço da ilustração, uns detalhes do lado direito do terno dele. E era o fotolito mesmo que saiu errado porque mandei a arte errado. Agora vou refazer pela quarta vez. Dessa série de 60, coloquei 20 pra vender e errei uns 90 hahahha. Mas é legal errar.

Malaguetas: Maldições do blues…
Luiz Ernani: É, maldições do blues. Já a do Coltrane foi mais fácil e foi a primeira que fiz com duas cores. E também foi a primeira ilustração que fiz com uma pen tablet, uma Wacom dessas aí. Cheguei em casa era mais ou menos uma da tarde, lá pelas 16h já estava pronta.

Malaguetas: Lembro que você tinha um blog de crônicas super legal, o No Blog do Tim Não. Podemos esperar misturas interessantes com os pôsteres?
Luiz Ernani: Ah sim, textos. Não gosto de fotografar, coloca uma máquina de fotografia na minha mão e em dois minutos tô puto. Acho que por conta da profissão, via fotografia o dia inteiro, vasculhava banco de imagem o dia inteiro, depois vou ter por hobby fotografar? Nem fodendo! Detesto. Adoro fotografia, admiro os artistas, meu irmão fotografa e vive tentando me ensinar, eu já começo a ficar injuriado, não quero nem começar, hahaha. Mas sempre gostei de escrever, sempre fui bom em redação e sempre falei pra caralho, era natural. E depois… parei. De vez em quando volto a escrever, escrevo uns textos grandes… mas só quando vem, não forço.

“Aluguel atrasado, correria pra pagar contas, pensão, ficar sem grana pra tomar uma breja, sair… nada me abalou muito. O que importava era acompanhar o crescimento do Pedro”

Malaguetas: Nos ajude a fracassar melhor. Tem alguma experiência que deu errado na sua carreira de freelancer?
Luiz Ernani:
Hmmm… que deu errado… tanta coisa deu errado, é que eu não ligo muito pra erro não. Mas ser organizado, finanças, toda essa parte burocrática. Gerenciar tempo… isso tudo é um saco, é difícil, parece ser meio anti-natural pra mim. Na real, o que eu queria era acompanhar o desenvolvimento do meu filho, então tudo que poderia dar errado, pra mim, vinha seguido da frase “mas o que você se propôs a fazer dar certo, está dando certo, então tá tudo ok.” Aluguel atrasado, correria pra pagar contas, pensão, ficar sem grana pra tomar uma breja, sair… nada me abalou muito. O que importava era acompanhar o crescimento do Pedro, e nisso sou vitorioso, eu vi tudo! E sigo vendo, vejo ele todo dia, todo dia é uma coisa nova. No final das contas, a soma dos meus erros está na conta do acerto.

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