Você já ouviu falar em chip music? Gênero musical criado no auge dos consoles da década de 80, a música é produzida usando videogames antigos como Gameboy e Atari e portáteis chineses como o Dingoo. Com uma cena tímida no Brasil, a música atrai gamers, nerds e curiosos principalmente por causa da forma como é feita. Em entrevista ao Gamecult, Filipe Rizzo, criador do selo Chippanzé e entusiasta do estilo no Brasil, explica como fazer e o que é mais bacana em se criar esse tipo de música.

Gamecult: Quando começou a criar chip music?

Filipe Rizzo: Foi de um estalo mesmo. Eu já era músico, já fazia algumas coisas caseiras, e então procurei saber se existia a remota possibilidade de fazer música usando videogames. Aí eu descobri que dava, fui aprendendo a mexer e já são aí quase 5 anos. Meu projeto é o Subway Sonicbeat, eu uso Gameboy e um outro portátil chinês chamado Dingoo. Eu me inspiro bastante em Kraftwerk, bandas de New Wave oitentistas, pós-punk, house e acid… Uso os programas LSDJ e LGPT.filipe_rizzo

Como é a cena no Brasil?

A cena no Brasil é limitada. No Chippanze, que é o selo brasileiro de chipmusic, somos eu, o André Pagnossim (Pulselooper) e o Eduardo Melo (Droid-on) fazendo música, e o Rafael Nascimento (Escaphandro) fazendo os visuais. Existem outros músicos que fazem ou fizeram chipmusic no Brasil, mas somente nós nos propomos a criar um selo que fosse referência e como incentivo pra que mais gente se juntasse pra se aventurar na chipmusic.

Quem pode gostar desse tipo de música?

A real é que quem se interessa por esse tipo de som não necessariamente tem que ser um “nerd”. Tem muita gente que é gamer, mas curte música eletrônica e acaba gostando do som. Tem gente que lembra da infância, tem gente que gosta de dançar, mas no fim das contas, quem gosta é quem tem a mente aberta pra novidades, mesmo porque tem desde chip progressivo (a la Yes), metal chip, coisas influenciadas por thrash metal e até pop rock. É mais uma coisa aberta pela possibilidade de não ser um gênero musical propriamente dito e sim um termo pra abranger quem faz música usando games. Aí fica muito mais simples de entender que se pode expandir, criar coisas diferentes usando esses sons crus dos videogames.

Como as músicas são criadas?

Nós usamos programas chamados trackers. Existem sequenciadores (como o Nanoloop pro GB) mas o grosso de editores musicais pra computadores/videogames antigos é de trackers. E a partir daí é só ir montando a música.

Qual a diferença do gameboy para as placas de jogos atuais. Porque não dá pra fazer num Xbox, por exemplo? Dá pra fazer com quais aparelhos eletrônicos?

A diferença é que inventaram um reprodutor de som de CD. Quando veio a geração de 64bits, os sons eram reproduzidos com qualidade de CD, a partir dos mesmos. Até a geração de 16bits, como o SNES e o Mega Drive, os videogames tinham chips que geravam os sons. E como não era um padrão, os chips com características diferentes uns dos outros. O NES tem um som diferente do SNES, que por sua vez não tem nada a ver com o som do Gameboy, e são videogames da mesma empresa. Não é que não dê pra fazer música com os videogames mais novos, mas o apelo da chipmusic são os timbres dos videogames/computadores antigos.

Quais são as dificuldades de criar esse tipo de música?

As limitações. Por exemplo, o Gameboy possui apenas 4 canais, super limitados em questão de som. São dois canais de ondas quadradas, um canal que consegue modular algumas frequências de som e samples, e um canal de ruído branco. O NES tem um chip bem parecido com isso, que se limita a dois de ondas quadradas, um de triangulo, um de ruído e um especial para samples (de exemplo, a trilha Sonora de Ninja Gaiden). Essas limitações fazem com que você tenha que se virar pra caber tudo o que você imagina pra música e tenha que aprender truques pra deixar seu som mais completo.

Como é cena em outros países?

Existem muitos músicos, principalmente nos EUA e Europa. Porém também existem cenas relativamente grandes na Austrália e Indonésia. Até ano passado acontecia o Blip Festival, que desde 2006 era “o festival” de chipmusic mundial. Era tão grande que já foram feitas versões na Europa, Japão e Austrália, porem entrou em hiato após a ultima festa realizada no Japão.

DJ do Blip Festival mostra sua guitarra feita com Atari

Curtiu? Quer aprender a fazer? Aqui vão algumas dicas:

- TUTORIAIS DO CHIPPANZE: Com dicas links e passo a passo de como fazer

- SELOS E ARTISTAS PARA CONHECER MAIS SOBRE O ASSUNTO:

http://iimusic.net/ – Pause, uma netlabel de chipmusic com influências de prog rock

http://www.8bitpeoples.com/ – a mais famosa netlabel, eram os organizadores do Blip Festival

http://www.56kbpsrecords.org/ – netlabel Mexicana, parceira do Chippanze

http://hexawe.net/ – netlabel especializada em um programa específico, que se chama LGPT, que é um programa multiplataforma que utiliza samples pra compor músicas.

Matéria publicada em Gamecult.