Unhas combinando com o controlador, capas de EPs decoradas com flores e um macaco fofo desenhado em uma fita K7 cor de rosa. Girlie, produtora de música eletrônica e agora dona de um selo independente, a americana Kate Ellwanger, de 22 anos, quer incentivar mulheres e amigas a compartilharem suas tracks.

“Por que a lista de DJs mais bem pagos da ‘Forbes’ é formada só por produtores homens?”, questiona Ellwanger, conhecida por suas misturas de dream pop e hip hop no projeto Dot. Formada recentemente em música pela Chapman University’s Conservatory of Music, em Orange County, na Califórnia, a jovem produtora se especializou em ópera e piano, mas se apaixonou pela música eletrônica nos últimos anos da faculdade e desde então adicionou o Ableton e alguns controladores ao seus instrumentos de composição.

Kate-Ellwanger

Antes que você possa se questionar sobre a ideia, Kate antecipa: para ela, música não deve ser rotulada por gêneros. “Estou sendo criticada por muitos por criar uma label só de mulheres quando o gênero não importa na música. Estou ciente de que ser rotulada uma “DJ mulher” é um assunto muito sensível para alguns (e com razão), porque nós simplesmente queremos ser julgadas pela qualidade da nossa música e não por nossa aparência física. Simpatizo com muitas mulheres na indústria que evitam ser rotuladas por gênero.”

Em um desabafo publicado na página da gravadora, ela justifica a proposta: “meu objetivo é simplesmente expressar a minha experiência nesta terra através da minha música e outros trabalhos criativos. Ser uma mulher na sociedade de hoje é uma grande parte dessa experiência, por isso parece sem sentido para mim tentar negar o fato de que o meu gênero influencia profundamente a minha arte. A verdade é que nada na indústria da música (ou a sociedade) vai mudar se não tivermos a coragem de falar.”

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Fitas cassete lançadas na primeira coletânea da Unspeakable Records

Sobre a curadoria da coletânea, que reúne catorze artistas (você pode ouvir aí embaixo), Kate diz que “no fim do dia, a qualidade das tracks lançadas pela Unspeakable Records é de extrema importância, mas a ideia é mais profunda”. Para ela, “existem muitas artistas talentosas do sexo feminino no negócio que merecem muito mais respeito do que está sendo dado. Esta plataforma serve para mulheres compartilharem a sua música com o mundo. É minha esperança que a label tenha um impacto positivo na indústria, e com sorte até inspire mais mulheres a partilhar as suas vozes através da música.”


Outro argumento de Kate, é que apesar de existirem muito mais DJs e produtoras hoje, os festivais ainda têm uma “enorme discrepância” nos line-ups. “Está mudando, com certeza. Há muito mais artistas do sexo feminino na cena, cada vez mais envolvidas com a música. Mas ainda há essa discrepância. No ano passado, dez por cento dos artistas em festivais de música eram do sexo feminino, o que é estranho para mim. Não sei o motivo. Talvez seja porque a tecnologia tem sido rotulada algo do gênero masculino durante todo o século 20.”

Eu concordo que música não deve ter divisão de gênero, é como ler um livro só pela capa. O espaço nas gravadoras e palcos está aberto e sempre encontramos boas opções de artistas mulheres em festivais e festas, mas concordo que a discrepância ainda é grande, e o melhor jeito de superar isso é celebrar ideias que enriqueçam as playlists e incentivem iniciativas de artistas que você curte ouvir, tenham elas os EPs decorados com capas psicodélicas, geométricas, floridas ou de oncinha.

Se você quer conhecer mais o trabalho da Kate e se aprofundar na discussão, pode encontrar mais informações no site da Unspeakable, inclusive ler a carta completa. Para descobrir mais músicas de Dot o caminho é o LovelyDot.com. Também vale a pena dar uma lida na entrevista dela na Rookie, onde tá rolando um debate sobre o assunto.

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Montagem com a capa de “Sunday Morning”, EP da Dot