“Após a queda do Muro de Berlim, a euforia tomou conta da cidade de uma forma muito poderosa. Foi um período especial de descoberta”, relembra Dimitri Hegemann, um dos fundadores do Tresor. O clube alemão, criado em um prédio abandonado no bairro Mitte, ajudou a alavancar a cena eletrônica da cidade e captar a energia cultural que floresceu com a unificação.

Ele explica que no pós novembro de 89, muitos alemães migraram do lado oriental, onde eram governados pela GDR (a German Democratic Republic) para o ocidente, onde a América espalhava Mc Donald’s e vendia liberdade de consumo e empregos melhores (o que não necessariamente se cumpriu, com migrantes vivendo em péssimas condições de trabalho).

DimitriHegemann

Dimitri Hegemann

A mudança da maioria em busca de uma vida melhor deixou os bairros que faziam fronteira com o muro em ruínas, ocupados por coletivos que se aproveitavam da confusão política que impedia leis de serem aplicadas pelas autoridades e a falta de investimento em uma cidade quebrada pela polarização. O Tresor foi criado por Dimitri, Achim Kohlberger e um grupo de amigos de vinte e poucos como sucessor do sombrio projeto Fishlabor/ UFO, que iniciou a cena Acid e Industrial de Berlim.

Foi assim que o antigo edifício na Leipziger Straße 126a começou a ser ocupado em 91 por caixas de som emprestadas e festas que ecoavam nas ruas de uma vizinhança escura e deserta. “Berlim era uma estação solitária. Se você queria conseguir algo, precisava assumir riscos. Se estivesse esperando permissões do governo, nada teria acontecido”, conta sobre como mentiu para um policial com um alvará falsificado. “No fim, ele ficou no clube e tomamos uma, não tinha o que fazer nessas situações, nada tinha dono. Era muito comum a gente quebrar janelas de prédios abandonados para descobrir o que tinha dentro, às vezes isso acontecia na frente dos policiais.”

Ele comenta ainda que nessa época a cena artística da cidade ganhava fama com o boca a boca de artistas de Londres e Nova York. “Nós fizemos a Berlim criativa”, comenta. Apesar do sucesso no underground, durante a década em que recebeu milhares de clubbers para ouvir pelo menos 12 horas de música no centro da cidade, o malabarismo com o governo e com a cena teve seus altos e baixos. Dimitri justifica que “você precisa de muito bom humor para lidar com o governo. Mas falhar guia seus passos. Na próxima vez você imagina que vai fazer melhor. E o Tresor falhou tantas vezes”.

Para ele, o foco nunca foi lucrar com o clube, o mais importante era participar de um momento de liberdade e politização. “Desde aquela época, nós não nos importamos com dinheiro. Tem mais a ver com a função do clube na cidade, de fazer movimentações políticas. A arte custa dinheiro e não te dá nenhum. Mas se você ao menos conseguir juntar as pessoas e criar uma comunidade, é tudo o que importa.”

“Quando você vai a um clube, pode dançar, se perder, ficar louco e depois de doze horas sair de lá e se sentir ótimo, é realmente uma terapia”

Hoje, aos 60, e com mais de duas décadas a frente de projetos culturais independentes, o clube é a sua vida. “Sair a noite é uma terapia. Pra mim, techno é como música pop para alguns. Eu vou a um clube encontrar os amigos e me divertir. Quando você vai a um clube, pode dançar, se perder na música, ficar louco e depois de doze horas sair de lá e se sentir ótimo”, diz entre risos. “Techno é uma terapia.”

tresorMesmo com o clube em um lugar maior e mais estável, Dimitri continua ativo nos bastidores de cenas emergentes. “Ainda fico animado em ver como 25 anos depois tem gente encontrando e desbravando os lugares por aqui”, diz. Para ele, “ficar perto de jovens ajuda a manter o espírito vivo”.

Nos últimos anos, Dimitri tem ajudado comunidades de cidades pequenas, sem movimentação cultural e dinheiro, boa parte nos bastidores não tão bonitos da vida no Leste Europeu. E em uma troca com a cena de Detroit, que ajudou a trazer frescor para o Tresor na década de 90 com Juan Atkins e Underground Resistance, oferece consultoria para comunidades artísticas (atualmente a capital de Michigan está quebrada).

Hegemann diz que nessas conversas, ele explica que em cidades onde o hype cultural dos centros urbanos não chega, a necessidade é de que criem sua própria oportunidade de fomentar a arte. “Acho que o primeiro passo é descobrir quem são os jovens que formam o seu bairro, o que fazem, quais são os lugares não ocupados. E assim, criar administrações independentes que possam alavancar a produção de projetos locais. Não sabemos até onde podemos ir em Detroit, mas queremos manter a energia fluindo.”

As lendárias festas do Tresor e o nascimento da Love Parade
Para quem quer saber mais sobre o assunto, em “Sub Berlin – The History of Tresor”, que você pode assistir de graça no Youtube aí embaixo, o diretor Tilmann Künzel desbrava os bastidores das famosas festas do clube. Com registros daquela época, mostra como os espaços abandonados da antiga Berlim oriental foram ocupados pela cena artística e criativa que o governo não ajudou a fomentar, mas hoje vende para turistas.

Produtores como Blake Baxter e Sven Väth contam como se surpreenderam ao tocar no clube pela primeira vez e como as cenas de Berlim e Detroit sempre estiveram conectadas através da música. Além dos depoimentos, o filme mostra também os últimos dias do clube em seu lugar de origem, no bairro do Mitte, onde hoje foi construído um centro comercial e um luxuoso shopping como parte da revitalização do centro da cidade, em 2005. E levanta a questão: o velho e o novo podem coexistir em uma cidade? Até que ponto é permitido a demolição de espaços culturais em nome de “progresso e modernização”?

Além da contribuição para a música eletrônica, você ainda vê a criação da Love Parade como um grande movimento político. E ainda o retrato fiel de uma geração que extravasou e transformou a maior ressaca política da década de 90 em uma capital famosa por arte e experimentação e um bairro em ruínas em playground.

Berlin

A imagem linda aí em cima é do fotógrafo John Vink, da Magnum.

110218-tresor-tunnel-1

O papo com Dimitri foi parte da programação da Berlin Unlimited (falamos um pouco da nossa participação no festival e workshop aqui). Para mais fotos antigas do clube, o Flickr é o caminho.