“Não sei se conseguiria viver em lugar que não tivesse nem um pouco disso”, diz o artista alemão Christoph Both-Asmus enquanto olha pela janela do quarto andar do prédio que vive em Wedding, norte de Berlim. Do lado de fora, as copas verdes, vistosas e a brisa fresca das árvores se misturam ao contraste da paisagem urbana, com seus prédios baixos e coloridos iluminados pelo dia de verão sem nuvens. Seu sonho é andar entre o verde da terra e o azul do céu.

Tree Walker surgiu há quatro anos, quando ele estava na janela de um quarto andar, mas em Amsterdam, onde teve uma visão lúcida. “Eu via as copas das árvores acima da moldura da janela. Na minha imaginação, me vi como uma projeção de equilíbrio quase sem peso nos ramos mais altos e mais frágeis. Me via afundando profundamente nesse sonho, cambaleando; medo de cair, empurrando o pensamento longe, até andar um passo a frente sobre os ramos mais finos.”

Nascido em um vilarejo longe da cidade grande, Both-Asmus conta que a inspiração artística surgiu de suas experiências da infância. “Morava em uma cidade pequena, onde muitas crianças crescem nazi-fascistas sem saber o porquê, isso é passado de pai para filho, e eu não queria ter contato. Meu pai tinha problemas com alcoolismo e minha mãe estava ocupada demais cuidando dele e de problemas domésticos. Eu cresci muito solitário nesse ambiente.”

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O clima pacato da cidade era ainda mais reforçado com a presença de uma bucólica floresta. “Naquela época ainda não tinha coragem para explorar e escalar, mas o tempo todo elas estavam lá e me impressionava a estabilidade e pensar que muitas árvores que vemos são muito antigas. Elas sempre estiveram aqui”, comenta.

A solução para o escapismo primeiro surgiu com os discos, quando passava as tardes de inverno em casa, no quarto, ouvindo música. A sensibilidade que o hobby despertou o motivou a procurar uma bolsa na faculdade de artes plásticas mais próxima. “Pensei, porque não tentar? Então consegui passar no Sandberg Institute for Fine Arts de Amsterdam.”

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floresta tropical no Gabão

Desde formado, Christoph tem trabalhado em residências artísticas e já expôs suas obras na Bienal de Arte de Veneza e feiras em Istanbul, Berlim e Amsterdam. Suas instalações sempre abordam temas relacionados a natureza e às árvores, sempre indoors. “Esse projeto é uma oportunidade de levar meu trabalho para fora do museu.”

Quando ele diz para fora, ele quer dizer Gabão, um país do oeste africano que faz fronteira com Camarões e é conhecido por suas vastas florestas tropicais de copas rechonchudas e clima ameno, com estações quase sem vento. A vegetação é capaz de tirar cerca de 1,2 bilhão de toneladas de carbono por ano do meio ambiente.

Brincando com a utopia libertadora de voar, Christoph começou a pesquisar tudo relacionado ao assunto. E ao adentrar seu estúdio, é perceptível que nos últimos anos, mesmo trabalhando em outros projetos, nunca conseguiu tirar o sonho da cabeça. Na casa onde mora e divide o espaço com outros dois artistas, as capas de discos, camisetas e plantas mostram que sua sua fixação só cresceu. Esculturas com galhos, folhas e experimentações, equipamento para escalada e rascunhos mostram como ele tem colocado a ideia no papel nos últimos tempos. Tree Walker está no IndieGogo buscando arrecadação nos próximos 24 dias.

“Encontrando equilibrio no limite entre a terra e o céu”

Na estante, livros como “The Japanese Art of Stone Appreciation”, de Vincent T. Covello e Yuji Yoshimura, mostram o tom espiritual que ele tem desenvolvido junto com a obra. “Durante a pesquisa descobri muito sobre a cerimônia do chá e sobre a arte da apreciação de pedras e bonsais dos japoneses. Eles têm uma relação muito forte com a apreciação da natureza. Você precisa escolher a pedra, encontrar o momento certo para escalar.”

O projeto artístico também o inspirou a começar a praticar escalada. A foto acima no post, não é uma montagem. Foi tirada na primeira vez que o artista chegou ao topo de uma árvore, na floresta próxima a montanha Teufelsberg, em Berlim, com ajuda de uma estrutura de bambu que ele criou com a ajuda de amigos. A subida rendeu um ensaio fotográfico que por si só já pode ser considerado sensível e autêntico. ”É interessante porque muito dos meus hábitos mudaram quando comecei o Tree Walker. Trabalhava muito em casa, com música e computador e não me sentia muito saudável às vezes. Não é a mesma coisa que ir para fora. Tenho ficado mais em contato com a natureza, até comprei uma bicicleta. O projeto me obriga a ir para a rua.”

Para ajudar a colocar a ideia em prática, ele conta com a colaboração do aventureiro francês Dany Cleyet-Marrel, criador da Canopy Bubble, um tipo de balão que permite a visão da paisagem em 360 graus. Juntos, eles estão desenvolvendo um balão de cordas finas, quase transparentes, que Chris usará para caminhar sobre as árvores. A ideia é criar um vídeo conceitual e um documentário mostrando a jornada.

Um dos pontos mais inspiradores da conversa com Asmus, foi perceber não só como a ideia floresceu nos últimos tempos, mas como ele está vivendo cada momento do processo, crescendo e se inspirando com ele. Uma busca que transcende o resultado final e se revela um processo de reflexão, encontros e fugas de um artista com seu próprio propósito.

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“Tree Walker é um projeto de filme performativo que desafia a gravidade tanto física quanto esteticamente. Christoph Ambos-Asmus lida com leveza, levitação, e vôo do corpo humano, que tem sido um sonho da humanidade ao longo dos séculos. Apesar de o senso comum, o artista tenta criar a ilusão de escapar da gravidade da Terra”, Adam Nankervis, filósofo

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