Guitarras altas, letras sobre conflitos internos e Sonic Youth como referência. O quarteto paulistano de lo-fi e pós-punk formado por Fernando Dotta (voz, guitarra), Zeek Underwood (guitarra), Martim Batista (baixo) e Rafael Farah (bateria), tem vivido sua maior colheita desde o lançamento de “Unrest”, em 2012. No último ano, a banda fez shows no Primavera Sound, se apresentou com Sebadoh e Dinosaur Jr. e firmou parcerias com a Converse e Red Bull.

Em paralelo, Fernando e Rafael tocam a Balaclava Records, que ajuda a organizar o trabalho da banda e lançar projetos parceiros enquanto se firma como selo e produtora de shows. Sem pressa, o Single Parents tem planos de lançar um novo álbum em 2015 e até lá vive as dores e delícias de ser independente. Batemos um papo com Dotta sobre a cena de São Paulo, música, anos 90 e saudosismo musical.

sobre o processo criativo de composição: “música sempre foi minha terapia”
“Compor é uma certa fuga da realidade. É um jeito de expressar seus sentimentos, direcionar o que está sentindo não só por alguém, mas alguma sensação. Quando você escreve uma música, um acorde pode te dizer muita coisa. Acho que a música sempre foi minha terapia. Morei em Brighton, na Inglaterra, por seis meses, e quando voltei tinha essa ideia na cabeça de que precisava escrever sobre as coisas que vivi. E começou assim. O Single Parents também surgiu daí. Voltei em 2008, começamos em 2009.

Acho que as nossas letras tendem a ficar mais abstratas, menos história narrada e mais entrelinhas, que é o que a gente admira mais, como nas letras do Sonic Youth. Às vezes, você não vê um sentido em tudo aquilo, mas descobre vendo o contexto no disco e na carreira. O tipo de escrita do pós-punk é o que mais me identifico. Você escreve melhor quando está com problema, é inevitável. Deu algum problema, certeza que vai rolar música boa.”

um desafio atual: “não basta fazer um bom disco”
“O desafio atual é possibilitar coisas que tornem os artistas mais interessantes. É criar algo como o Mac DeMarco, ele tem uma linha de produtos gigantesca. Ele tem boné, camiseta, os fãs podem assinar mensalmente a gravadora dele, a Captured Tracks, e você recebe um material exclusivo. Existem novos meios de fazer os fãs se conectarem aos artistas. Hoje não basta fazer um bom disco, tem que ter na cabeça claro o que quer para evitar ficar defasado.

Não precisa ser viciado em mídia social ou tocar em qualquer lugar por qualquer valor, tudo tem um ideal, a banda tem que encontrar o equilíbrio disso tudo. De tocar e se posicionar com uma cara sua e não ficar dependendo dos outros. Por isso começamos o selo com bandas que a gente gostou ou era parceria, mas não tinha vontade de ir atrás para descobrir como divulgar o material, fazer plano de lançamento. Quer fazer o ‘do it yourself’? Tudo bem. Fazendo direito dá resultado. Não precisa se associar a ninguém. Além de sempre tentar lançar um álbum incrível, a gente conversa bastante para descobrir se a banda realmente precisa de um selo. Cada uma tem uma necessidade diferente.”

Surgimento de novos selos e parceria na cena paulistana
“Eu acho que a cena independente tem se ajudado mais ultimamente. Acho que é importante esse movimento de alguns poucos anos atrás de voltar a ter mais selos e ter os selos se ajudando. As bandas tentam marcar juntas mesmo não tendo o mesmo tipo de som, até pra abrir a mente do público. Esse lance de ser banda de abertura funciona muito bem também. Nem todo mundo vai pra ver, mas acaba divulgando o nosso nome junto.

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Ouça Terno Rei e mais bandas da Balaclava clicando na capa

A gente fez uma feira de selos na Neu. A Balaclava convidou e tivemos doze selos participando. A gente tem que estimular o pensamento de que não é uma competição. Um tem que ajudar o outro. As gravadoras grandes tem percebido isso, tem tido essa necessidade de fazer selos menores para parecer alternativos. Tem gente que pode achar ruim uma banda que não está mais em um selo alternativo, não é tão independente como era.

Mas na medida que você cresce é inevitável, é uma revolução do mercado de música. Tem também muita marca fazendo coisas legais. Como a Red Bull que tem estúdio e programa de residência artística. Mais marcas deveriam se envolver, fazer crescer a cena e não só apoiar artistas já consolidados.”

É possível viver sem o mainstream? 
“A gente vê pelo Sebadoh, as entrevistas do Lou Barlow. Ele é um pouco desiludido com a ideia de mainstream. Os caras tocam para público pequeno, de até duzentas pessoas, de mil, até festival. Não é porque fizeram sucesso lá atrás que não têm humildade de aceitar a cena e conhecer oportunidades novas. Falaram que não tinham vindo para o Brasil ainda porque não tiveram oferta, então foi uma questão de conversar e mostrar que tem público para eles aqui.

Se acontece um hit, não negaria uma das nossas bandas ter uma música na novela, por exemplo. Mas acho que não é necessário. E hoje muita gente tem feito outros caminhos, como o crowdfunding, ou outras formas de colocar os fãs mais próximos. Assim como o Apanhador Só, que não chegou ao mainstream, mas entrou em todas as listas de melhores do ano e tem uma legião de fãs. Dá pra tentar alternativas diferentes. Acho que as pessoam têm reconhecido o trabalho da Balaclava também por isso. E essa ideia de trazer bandas de fora, com mais conhecimento, para alavancar as bandas nacionais do selo.”

Revival dos 90 sem saudosismo
“Tenho dificuldade de falar sobre sentimentos se não for em uma música. Tem muita gente que se identifica com isso. E dá pra ver no nosso público, muitos têm dificuldade de se expressar, são mais introvertidos, é diferente de um banda mais pop. E tem um pouco esse efeito do noise… A gente costuma tocar muito alto, que é bem da geração dos 90. Sempre gostamos do controverso no noise absurdo com uma letra sentimental. O Lou Barlow (Dinosaur jr.) ficou muito famoso por causa disso.

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Mas não sou saudosista. A maior parte do tempo o que eu ouço é dos anos 80 e 90, mas com a ideia do selo, a gente ouve muita música nova. Ontem passei a noite baixando disco no Soulseek, lemos revistas pra ver o que está mais forte na cena. Perto de gente que conheço, sempre procuro ficar por dentro do que está rolando.”

os primeiros frutos da Balaclava
“A gravadora começou lançando o Unrest e bandas amigas em 2012, o mesmo ano em que viramos uma produtora de shows. A gente teve essa ideia desde o começo, mas ainda sem a experiência e o portfólio para isso. Agora em novembro vamos para o terceiro show gringo com o Real Estate e tem rolado muita festa nossa com algumas coisas que não são do casting do selo.

A gente acabou de lançar esse mês uma banda de Nova York mundialmente e o nosso nome está correndo pra fora como gravadora. É importante pra caramba essa conexão. Se uma das bandas que esta lá toca no SXSW, por exemplo, leva nosso nome junto. Qualquer tipo de ajuda é válida. As bandas de fora estão percebendo que o mercado aqui, tanto o alternativo quanto o indie, estão mais fortes e muitas bandas querem vir para o país, virou um roteiro necessário.”

Ouça “VHS”, novo single do Single Parents

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rolê na turnê Portugal/Barcelona

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Banda assiste show do Superchunk no Primavera Sound