Berlim acordou mais cinza nesta sexta. O mural do artista de rua italiano Blu no coração do Kreuzberg, um dos símbolos das ocupações artísticas do bairro, amanheceu preto. Em 2015, o terreno se transformará em um empreendimento imobiliário.

Grafitty_Cuvrystr_50_(Kreuzb)_Blu_Cuvrystrasse Creative Commons

Blu criou a arte dos dois irmãos tirando suas máscaras em 2007 no terreno vazio da Cuvrystrasse como parte das intervenções da exposição Planet Process e em parceria com o artista francês JR. Em 2008, Blu voltou para criar o terceiro personagem, um homem de terno e gravata acorrentado por relógios de ouro.

A legenda? “Reclaim your city” (reivindique sua cidade). O mural diz muito sobre o que Berlim está vivendo com as tentativas dos governantes de torná-la mais rentável, o que nem sempre funciona e tem deixado alguns apartamentos de luxo encalhados. Em 2014, o terreno recebeu uma ocupação de refugiados e foi palco de protestos e conflitos com a polícia.

blu-black

Gif do @ivvos

No blog Polysingularity, especula-se que foi Blu quem pintou o próprio trabalho como protesto ao empreendimento imobiliário que prometia vista para a ‘streeart e a localização mais artística da cidade’ em um processo que é mais ou menos o que tem acontecido com a Vila Madalena, em São Paulo.

Já a página Rebellen diz que um grupo tomou a frente e decidiu deletar o graffiti como protesto contra a gentrificação, mas com consentimento do artista, já que não querem que as artes sejam usadas para vender apartamentos mais caros. ”Os artistas decidiram pintar tudo de preto para que ninguém tirasse vantagem da obra original. Um gesto de foda-se para a cidade, para a construtora Real State, e mais ainda para todas as pessoas que amavam esta peça e o que ela representa. De alguma forma, a arte está fazendo o que diz: reivindica a cidade”, diz o texto.

O ArtNews reportou que a responsável pelo desenvolvimento urbano da capital, Petra Rohland disse ao Der Tagesspiegel que um monumento só merece proteção se for histórico (sendo os mais novos da década de 70) ou se tiver alguma importância cultural. “Talvez essa arte de rua seja simplesmente muito jovem.”

Nós entendemos que uma das principais características da arte de rua é ser efêmera. Ela é um protesto local, muitas vezes temporário, e os artistas se apegam muito mais à ideia do que ao espaço em si. Mas o caso da Curvystrasse mostra uma tentativa de resistir ao desenvolvimento a qualquer custo e um conflito de ideias dos cidadãos em relação ao controle desse avanço. Ao que tudo indica, esse caso ainda tem muito para desenrolar e vamos te atualizando por aqui. Por hora, Black is the new Blu.

[UPDATE] Neste final de semana, o co-criador do mural, Luiz Henke, afirmou que o graffiti foi substituído pelos próprios artistas. “A gentrificação e zombieficação de Berlim está a todo vapor. Preferimos apagar a streetart do que colaborar com esse cenário”. Leia mais no Guardian.


Com informações do IHeartBerlin.