“Existe uma praia linda em qualquer parte do mundo, isso não significa nada. Para nós, a recompensa é poder ver a realidade com nossos próprios olhos. E com a fotografia podemos trazer isso para o nosso mundo e compartilhar esses problemas com outras pessoas. Você pode ver um pôr do sol lindo em qualquer parte do mundo, mas isso não comunica nada sobre a cultura, sobre o dia a dia das pessoas. Tentamos alertar sobre coisas que estão acontecendo e mais que isso criar uma consciência social de que qualquer um pode ajudar” – Stephanie & Francis Lane (Silent Tapes)

Silent Tapes

Bangkok, 2013

O Silent Tapes é um projeto fotográfico criado por Francis e Stephanie que se tornou viral no Instagram e hoje conta com uma comunidade de 32 mil seguidores. Juntos, eles criam retratos em regiões carentes de grandes cidades, mostrando o dia a dia além dos pontos turísticos. A ideia não é só fotografar pensando na estética, mas misturar filantropia e arte revertendo a renda arrecadada com o conteúdo para famílias e ONGs locais.

Acostumados com a vida na ponte aérea –Stephanie tem mãe americana e pai paulistano, Francis tem família metade chinesa, metade inglesa–, encontraram o amor em Nova York, onde ele trabalhava como modelo e ela tentava ganhar a vida com trabalhos em escritórios e aspirava a carreira de atriz. Juntos desenvolveram a fotografia como hobby, primeiro expondo detalhes sensíveis da vida do casal e em seguida evoluindo para experimentações em cenários que transmitem algum tipo de vulnerabilidade.

Hoje além da câmera fotográfica e do Instagram, eles compartilham o teto, os sonhos e uma simpática bebê de cinco anos, Von Lane (Von em islandês significa “esperança”), que tinha desenhado toda a parede do quarto com rabiscos coloridos quando visitamos seu apartamento. O casal vive entre Londres e a Flórida, onde a Von fica nas férias com a avó materna. “Trabalhamos o suficiente para nos sustentar. Somos felizes por ter um teto para dormir, manter nossas necessidades básicas, não precisamos mais do que isso. A experiência que é enriquecedora”, dizem.

“queremos conhecer o lado bom e o ruim, todos os aspectos. Se você não conhece esses lugares, não conhece a realidade dessa sociedade”

Já Francis, formado em música, se inspirou nos bastidores das sessões de moda que participava e nos cliques de fotógrafos famosos como Peter Lindbergh e Cartier-Bresson. Para ele, existia a vontade de dar algo em troca aos moradores das regiões carentes. “Nós gostamos de viajar, mas não queríamos só tirar sem dar nada em troca. Então pensamos em criar o Silent Tapes para dar algo de volta para essas pessoas”, explica. “Para nós, em todas as vezes que viajamos, queremos conhecer o lado bom e o ruim, todos os aspectos. Se você não conhece esses lugares, não conhece a realidade dessa sociedade.”

Stephanie conta que o Silent Tapes começou a tomar forma na primeira viagem à Índia, há dois anos, quando ela procurava uma experiência com trabalho voluntário. “A arte sempre teve um papel importante na minha vida. Sempre persegui carreiras na música, na atuação, na fotografia. Paralelo a isso, sempre me interessei por trabalhos que envolvessem caridade desde que eu era uma garotinha. Cresci em uma família que vivia na linha da pobreza e a conexão com a arte me manteve fora de problemas.”

Sr. UDOM E A FAVELA DE KLONG TOEI, BANGOK

O trabalho voluntário na Índia os motivou a criar o primeiro projeto, na favela Klong Toei em Bangkok, na Tailândia, que ajudou cerca de 200 crianças e foi realizado com arrecadação independente. A ideia chamou a atenção de Instagramers de reputação, como Manuel Pita (@sejkko) e começou a se espalhar, arrecadando a verba nas primeiras semanas na plataforma. O material resultou em prints, pôsteres e uma exposição na big apple que teve a renda revertida para uma ONG local.

stef-2

stef-1

“Nós criamos uma relação natural, não queríamos ser invasivos, por isso imprimimos algumas fotografias que demos de presente. Um foi contando para o outro e as pessoas vinham nos procurar para conversar e ter um retrato. Também conhecemos uma tailandesa engajada em projetos sociais e em compartilhar a cultura local que falava muito bem inglês e tailandês e que nos ajudou muito a chegar até as pessoas. Ela visita as famílias que ajudamos e atualiza necessidades especiais”, explica Francis.

Stephanie e Frances

Stephanie comenta que ter uma filha torna a inspiração para o projeto ainda mais pessoal. “Isso mexe tanto pela perspectiva materna quanto pela criança que está ali, exposta. A ideia é mostrar essas necessidades para Von e dar forças para que ela seja uma pensadora, uma adulta gentil. Antes dela surgir na minha vida eu já pensava assim, mas agora eu vejo amplificado.”

O casal também acredita que para criar um projeto filantrópico relevante, é necessário ter sensibilidade não só na hora do clique, mas em todo o universo que envolve a comunidade e transparência. “Tentamos nos conectar com as pessoas, ouvir suas histórias e se a situação parece perfeita, fotografamos. Nossa proposta não é sair clicando tudo o que vemos.”

Uma dessas histórias é relacionada a foto no topo do post. Udom é um senhor tailandês de 80 anos que foi clicado enquanto brincava com um de seus sete cachorros poodle. O frágil senhor que aparece na foto se tornou progressivamente mudo, em parte por culpa do sistema de saúde precário oferecido pelo governo. Ainda assim ele permitiu que o casal compartilhasse sua história, narrada com recados curtos em um papel rabiscado no chão. Semanas depois ele faleceu e o dinheiro arrecadado pelos apoiadores do projeto ajudaram sua mulher com algumas necessidades básicas. “Queremos compartilhar essas experiências e promover pequenas mudanças”.

PRÓXIMA PARADA: FORTALEZA

Em 2014, eles já têm destino certo: o Brasil e a Copa do Mundo. O projeto “50 kids / 50 cameras” teve a verba toda arrecadada em apenas quatro dias no Kickstarter, a primeira experiência do casal na plataforma, e já reúne centenas de comentários de brasileiros e estrangeiros interessados em conhecer histórias locais fora de veículos na grande mídia.

“Aparentemente só existe um orfanato em Fortaleza e que está completamente acima da capacidade. Então existem famílias que adotam crianças voluntariamente, mas não tem como lidar com a papelada, então algumas crianças nem existem para o governo. Nossa ideia é mostrar a vida dessas famílias, acompanhar essas necessidades de perto. Nós não temos nenhum tipo de ligação com os governos e com grandes organizações, vamos acompanhar esses pequenos orfanatos juntos com a For the Children, uma ONG em que meu irmão trabalha.”

Além de um documentário curta-metragem e trabalho voluntário, o casal vai levar 50 câmeras descartáveis e ensinar 50 crianças a mostrarem o dia a dia na comunidade por sua própria perspectiva. “Queremos criar uma força nelas através da arte, dar voz a essas crianças”, diz Stephanie. Entre as recompensas para quem colabora, estão uma compilação de fotografias e escritos das crianças, uma exposição em Nova York com as imagens selecionadas e a distribuição do livro para escolas selecionadas, bibliotecas e centros comunitários da capital cearense.

* as imagens foram gentilmente cedidas pelo Silent Tapes. Antes de reproduzir, mande um e-mail. :)