Sentado no banquinho de um estúdio na rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, nesta quinta-feira (29), Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião Urbana, está inquieto.Afina o violão, treina trechos de músicas e, vez ou outra, dá uma balançada nos pés, calçados com tênis brancos levemente sujos. Atualmente Villa-Lobos trabalha na divulgação de “O Passo do Colapso”, seu segundo trabalho solo após “Jardim de Cactus”, de 2005.

Enquanto a entrevista não começa, Dado checa diversas vezes seu smartphone. As atualizações são justificadas por sua surpresa com a marca de 17 mil downloads do novo single “Colapso”, disponibilizado gratuitamente nesta semana pelo iTunes. É a primeira experiência do músico com a distribuição digital. “Fiquei muito tempo pensando em lançar um álbum, mas não sabia mais por onde começar. Mostrei uma música para o produtor e ele disse: ‘Grava, depois a gente pensa como faz’”.

Foi o que Dado fez. Ainda se acostumando com a repercussão das mídias sociais, após três décadas de distribuição convencional com a banda, que em 2012 completaria 30 anos, o músico acredita que “se na época da Legião Urbana tivesse Twitter, Facebook, essas coisinhas todas, a gente ia ser massacrado de qualquer jeito”. Ao UOL, Dado também falou sobre a festa de aniversário com Wagner Moura, a repercussão do ex-integrante Renato Rocha, que hoje é morador de rua, a burocracia quanto aos direitos do trio e o que essas três décadas de carreira significam.

UOL Música: Você pensou em algum momento da carreira que não ia conseguir sair da sombra da Legião Urbana?
Dado Villa Lobos:
Não sei, acho que o “Jardim de Cactus” já tinha me dado a certeza de que, como compositor do rock e pop, eu conseguia fazer boas músicas com meus parceiros. Canções não só para eu gravar, mas para outros gravarem. Até abri mão de várias composições, tem músicas que sou só interprete. Acho que consegui adquirir uma vida própria pelo que já fiz esses anos, trilhas, músicas para televisão. Mas é claro que a Legião tem uma força muito intensa, muito grande. E a Legião Urbana ‘Omnia Vincit’ (vence a todos).

Você ainda tem muito trabalho com a Legião em relação aos direitos autorais?
É uma burocracia só, são advogados, editores, gravadoras. Mas neste momento, para 2013, decidi: “Tô legal”. Esse ano teve o lance do Wagner [Moura, que cantou com a banda], que foi muito intenso. De tocar na televisão e ter aquela repercussão absurda. Foi uma loucura. Valeu a pena, total. Foi o ápice daquilo tudo. Se na época da Legião Urbana tivesse Twitter, Facebook, essas coisinhas todas, a gente ia ser massacrado de qualquer jeito, pode ter certeza. Show da Legião era sempre confusão, isso que era o lance. Era um show de rock, você tem que esperar as coisas acontecerem, esperar o pior sempre. E o Renato [Russo], às vezes, era muito insuportável no palco.

Hoje em dia, você falar de Legião Urbana pode ser complicado, então, é melhor deixar quieto.

Dado Villa-Lobos

E olhando agora com mais de distanciamento, você acha que valeu a pena?
Muito, valeu muito a pena. Na verdade, era para festejar porque em 2012 seriam 30 anos da banda. A ideia era essa. Mas hoje em dia você falar de Legião Urbana pode ser complicado, então é melhor deixar quieto. Deixa ali. A Legião ‘tá ali’ desde o quinto disco. A gente falava: “Já existe ali, vamos fazer outras coisas”. Comecei a produzir outros artistas. A gravadora dizia que a gente precisava voltar. A gente voltava e gravava um novo disco.

Você voltaria a fazer algum outro tributo parecido no futuro?
Acho que não, acho que já foi. Tem que ser divertido, tem que ser fácil, sem complicação. Se for para ser difícil, a gente não precisa disso. A Legião não precisa disso.

E esse ano ainda teve a repercussão em cima da história do [ex-baixista] Renato Rocha…
Foi surreal. Tem essa história do pessoal dizer: “Largaram o cara na miséria”. Não foi isso. Alguns anos atrás, ele saiu do grupo. Ele não frequentava mais o estúdio, a gente estava gravando “As Quatro Estações” e precisávamos fazer terapia em grupo quando ele aparecia. Quando ele ia, o produtor sentava e falava: “Meu filho, você não pode fazer isso”. Enfim, ele saiu da banda e tomou o caminho dele. Há dois anos um amigo me liga e fala: “Cara, vi Negreti mendigo na Lapa, catando latinha”. Eu falei: “Aí não, não é possível”. Que merda. Ele tentou falar com ele, trocar telefones, mas os amigos mendigos dele não deixaram. O que eu quero dizer com isso é que a escolha foi dele e dificilmente ele vai aceitar ajuda. Ele escolheu. É uma pena porque ele era meu brother, ele era, tipo, querido.

Samuel Rosa comentou que acha que o pop rock está em declínio por causa da mídia…
Acho que faz parte do colapso, tá tudo ali, essa questão de como o pop rock não tem espaço. Eu acho de fato, e é louco. Mídia impressa, televisão, com certeza exclui. Mas porque será, né? Não sei. O mundo corporativo tá intenso, englobando e destruindo possibilidades de algo diferente. Mas é um ciclo, vai acabar. Vai chegar a hora que vão precisar de um maluco cabeludo, com violão, guitarra elétrica para falar alguma coisa para as pessoas.

Que tipo de música você baixa na internet?
Entrei meses atrás na iTunes Store e baixei o “Sun”, da Cat Power, que é avassalador, sou fã. Baixei o “Tempest” do Bob Dylan, que é aquela coisa retrô-clássica, incrível. Tem o “Coexist” do xx. Baixo porque isso demoraria muito para chegar em uma loja. Eu não sou o cara que vai fazer uma conta em um site de upload, pagando todo mês para pegar música de graça. Não sou assim. Também baixei essa banda brasiliense chamada Sexy-Fi. É uma nova onda de Brasília. Os caras têm 30 anos e ainda moram com os pais.

Bem diferente de vocês…
Mas não tem problema. Meu filho tem 24 e mora comigo, eu acho ótimo.

Ele te acompanha?
Às vezes ele aparece, dá o ar da graça. Mas ele é jogador de poker, foi para um campeonato em Las Vegas e foi o brasileiro mais bem colocado. Entre 3.700 pessoas ele ficou em 70º lugar, voltou com uma grana no bolso, achei sensacional.

Os 30 anos de Legião Urbana, de certa forma, são seus 30 anos de carreira. Qual seria sua avaliação dessas décadas?
Minha avaliação é que o Estado deveria me aposentar (risos), me dar uma pensão, pagar alguma aposentadoria. Se realmente esse Estado brasileiro servisse para alguma coisa. Minha avaliação é que éramos adolescentes e que estamos aí, 30 anos depois, ainda presentes na cena brasileira, toda essa rapaziada que saiu de Brasília. O que vejo é que a gente morava em uma cidade que tinha 20 anos de idade e a gente botou mais ainda essa cidade no mapa. E essa cidade é a capital do país e a gente faz parte da cultura daquele lugar.

Entrevista publicada em UOL Música.