A Sê-la é uma agência de consultoria musical feminista idealizada pela compositora Camila Garófalo com o intuito de fortalecer e unir a cena independente de mulheres no Brasil. E neste sábado, 24, no Dia da Música, ela e um coletivo de manas invadem a festa junina do Azoofa, na Associação Cultural Santa Cecília, pra mostrar que lugar de mulher é no palco fazendo barulho.

Além de Camila, as publicitárias Laíza Negrão e Fernanda Malaco, as produtoras culturais Marina Coelho e Cris Rangel, a jornalista Flora Miguel, a produtora musical Érica Alves e a designer Fernanda Martinez fortalecem o movimento que tem como propósito de promover mais igualdade na cena. A primeira ação do coletivo rolou em fevereiro, nos palcos do CCSP, Breve e O Lourdes e reuniu um timaço. Entre elas, Tiê, As Bahias e a Cozinha Mineira e Sara Não Tem Nome.

Nesta segunda edição, Camila se junta a Anna Trea (foto) e a Papisa (a Ro Vaz escreveu sobre ela aqui) para mais uma festa com muita música boa. Para aquecer, a Camila respondeu três perguntinhas sobre o Sê-la e a sua visão sobre a importância do feminismo na música.

Qual a importância do feminismo culturalmente?

Sê-la: O feminismo é o caminho das pedras para a emancipação da mulher. Como todo movimento, o feminismo gera desconforto para os que não querem perder os seus privilégios e estão acomodados à eles. O feminismo é lento e generoso e atua gradualmente na percepção de mundo de uma mulher que sempre sofreu opressão da sociedade. O feminismo faz com que a falsa competitividade incutida nas mulheres seja desmentida e cria oportunidades para promover ações coletivas entre elas. O feminismo é imbatível e infalível.

“O conceito de gênero entra em colapso quando afirmamos que a orientação sexual e a identidade sexual ou de género dos indivíduos são o resultado de uma construção social. Lugar de mulher é onde ela quiser. Não somos obrigadas a nada e somos capazes de tudo.”

O primeiro festival de cultura feminista do Brasil foi organizado por volta de 79, com artistas como Rita Lee, Ruth Escobar e diversas jornalistas. Na mesma década, auge da censura, já existiam movimentos e espetáculos que discutiam pós-feminismo. Por um tempo o assunto ficou morno. Você enxerga um gap entre essa geração e a de agora?

Sê-la: O pós-feminismo justamente começa a surgir nessa época em que as ideias de Simone de Beauvoir ganham uma nova perspectiva com os novos argumentos de Judith Butler. Nesse momento nasce uma outra teoria que influenciaria a próxima geração: a Teoria Queer. O conceito de gênero entra em colapso quando afirmamos que a orientação sexual e a identidade sexual ou de género dos indivíduos são o resultado de uma construção social. Lugar de mulher é onde ela quiser. Não somos obrigadas a nada e somos capazes de tudo.

Leila Diniz, Gal Costa e Rita Lee redesenharam novos comportamentos que distanciaram as mulheres dos afazeres convencionais daquela cultura nacional da época. Ao cantar “ninguém vai me gozar, não, jamais”, a vocalista dos Mutantes tirava a mulher do seu lugar comum e banhava-se em empoderamento. Para Heloisa Buarque de Hollanda, “o Tropicalismo começa a pensar a necessidade de revolucionar o corpo e o comportamento”. As principais diferenças entre aquelas mulheres e nós, da nova geração de cantoras pós-feministas é que hoje temos mais meios e ferramentas de nos desconstruirmos.

“Todas as mulheres revolucionaram a música. Cada uma na sua perspectiva. O mercado fonográfico sempre foi machista.”

Para você, quais foram as mulheres que revolucionaram a música?

Sê-la: Todas as mulheres revolucionaram a música. Cada uma na sua perspectiva. O mercado fonográfico sempre foi machista. Dalva de Oliveira sofreu por causa dos costumes da época, Carmen Miranda foi explorada por seu marido-empresário e Maysa só se libertou após a separação. Também na música, a mulher ou é vista como coadjuvante ou subestimada por suas capacidade ou ainda colocada no lugar de diva, principalmente no caso das cantoras. Muitas delas, corajosas, vêm enfrentando o patriarcado. Cássia Eller se mostrou forte e independente. Rita Lee, Zélia Duncan e Daniela Mercury lutaram e posicionaram-se em tempos difíceis de opressão. Hoje em dia, nomes como Karol Conka , Valesca Popozuda Real e Elza Soares cantam música de protesto enquanto fazem feminismo. Eu acho é pouco.


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SERVIÇO

SÊLA ocupa a festa julina do Azoofa: PAPISA, Camila Garófalo e Anna Tréa
Data: 01/07/2017
Local: Associação Cultural Cecília – Rua Vitorino Carmilo, 449
Hora: 15h
*Início dos shows: à partir das 19h
Preço: R$ 10 até às 19h – após R$ 20
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