O punk rock salvou minha vida e de muitas minas por aí. A filosofia do faça você mesma me ensinou que podia fazer qualquer coisa mesmo sendo pobre, as minas no palco me mostraram que lugar de mulher é em qualquer lugar e as letras me ensinaram que a adolescência era feita de muito mais diversão do que só ir atrás dos caras.

A diretora catarinense Letícia Marques também passou por esse processo de conexão com o movimento riot girl e começou a seguir os passos das primeiras bandas de minas brasileiras ligadas ao punk rock. Foi assim que ela lançou uma campanha no Catarse para financiar esse projeto lindo batizado de “Faça Você Mesma”, que reúne toda a história das bandas que abriram caminhos pra muita mulher no palco no Brasil. Dá uma olhada na nossa entrevista.

Malaguetas: Qual foi seu primeiro contato com o feminismo? 
Leticia: Aos 15 anos ouvindo pela primeira vez as letras do Dominatrix. Na adolescência também li fanzines que tinham escritos da Emma Goldmann e posteriormente li O segundo Sexo de Simone de Beavouir. Um livro que me marcou nesta época foi A História das Mulheres no Brasil da Mary del Priore.

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Como surgiu a ideia de fazer o doc?
Em 2013 depois que eu li o livro Riot Grrrl Revolution Grrrl Style Now de Nadine Monem, escrevi um esboço e deixei a ideia guardada até que entre conversas no Facebook sobre a representatividade feminina na cena musical me chamaram para fazer o filme sobre a cena Riot Grrl e entrei de cabeça instantaneamente.

A ideia então surge num momento de reflexão sobre a própria cena, onde até então não existia nenhum registro “documentário” e somente materiais de arquivo de algumas pessoas espalhadas por aí. Saber que existia esse material foi o primeiro passo para querer começar a contar estas histórias junto a uma percepção de que até então esta cena não tinha sido contada ou inscrita na história da cena musical brasileira. Em abril de 2016 eu decidi levar a ideia para ser desenvolvida em projeto numa residência em ova Iorque e o filme hoje é o resultado destas 4 semanas.

Quais os momentos mais significativos para o riot girl brasileiro? 
Foi o seu início, no anos 90 com Dominatrix, TPM, Cosmogonia, Hitch Lizard, Kaos Klitoriano, Kolica, entre outras, abrindo espaços e desbravando a cena punk o qual deu espaço para virem um segundo momento de bandas, e com isso festivais que reuniam as bandas femininas e feministas. Em anos, acredito que 98 foi um marco quando a Clorine Records da Elisa Gargioulo lançou a coletânea Punk Rock Não é só Para o Seu Namorado – Volume I. Acho que ali era primeira expressão de que havia várias bandas de garotas.

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E em 98 alguns shows no Alternative da Penha foram marcantes para as entrevistadas também. E depois, a partir de 2000, com festivais reunindo outras bandas como Hidra, The Hats, Santa Claus, além das Ladyfests que até 2008 foram marcantes, ocupando casas de show e trazendo maior visibilidade para a cena no Hangar 110, Outs e outros espaços espalhados por São Paulo.

Qual a importância do Dominatrix nesse cenário?
Dominatrix é a banda referência quando falamos de Riot Grrrl. Foram elas que, de certa forma, introduziram o movimento, seguidas pelas bandas TPM e Hitch Lizard e posteriormente a reunião destas bandas em shows trouxe as primeiras meninas para a frente dos palcos e muitas destas foram inspiradas a começarem a criar as suas próprias bandas. Pode se dizer que essa união de meninas começa com os shows do Dominatrix, as letras do Girl Gathering fazendo várias menções ao Riot Grrrl e as letras foram eternizadas por muitas meninas.

Como o Faça Você Mesma te ajudou na sua vida pessoal?
É muito interessante fazer um filme onde o meu processo de amadurecimento e vivência está ligado, onde a história que quero contar me tocou de várias formas, é como estar fazendo uma homenagem a algo que me formou como pessoa e me fortaleceu. Está sendo um processo lindo neste sentido, poder relembrar dos meus próprios momentos e poder conhecer algumas mulheres que me inspiraram na minha adolescência.

Pode listar cinco músicas que fizeram diferença no movimento?

“No Make Up Tips” – Dominatrix

“Patriarcal Laws” – Dominatrix

“Punk Rock Não é Só Para o Seu Namorado” – Bulimia

“Sociedade” – TPM

“90 60 90″ – Kolica

Qual é a sua avaliação do Riot Girl hoje? O legado, as mudanças, existe um novo formato?
Há dois anos o Riot Grrrl retomou com força, com festivais de música dedicados a bandas femininas/feministas em São Paulo, RJ e BH. E existem tantos outras formas de expressão, grupos e coletivos nas artes, música e cinema. Acredito que cada vez mais as mulheres e todas as pessoas que não se identificam no gênero binário estão criando mais projetos e tomando seus espaços.

O legado é ver mais garotas e mulheres tocando, ver meninas mais novas lendo sobre feminismo e aprendendo a tocar bateria, festivais que envolvem não só música. É ver uma maior diversidade de pessoas na cena underground assim como no mainstream e ver novas formas de ser que não se baseiam apenas em estereótipos, mas em diferentes pessoas, gêneros e ideias.

Acho que a essência do “faça você mesma”, da rede de apoios, ainda está lá. O que mudou foram os meios de comunicação. Hoje temos acesso online, antes recebíamos cartas e trocávamos fitas cassetes. O formato é um reflexo de interações mais instantâneas e rápidas.

Tem algum momento do documentário que te comoveu ou te emocionou de alguma forma?
Ouvir a história da formação do TPM pela Marina Pontieri e poder perceber pelas imagens de arquivo como foi incrível ter todas aquelas garotas reunidas na frente do palco nos shows do Dominatrix.

Teaser | Faça Você Mesma from Black Sheep Filmes on Vimeo.