O importante em passar quatro dias e noites subindo e descendo a Avenida Reeperbahn, em Hamburgo, é sempre prestar atenção por onde pisa. Talvez você tenha que desviar de um objeto pontiagudo de difícil identificação que cai do sobretudo de um junkie e rola para bem debaixo do teu pé. Ou de uma fralda de pano bem encardida. A Reeperbahn e ruas adjacentes são o reduto boêmio da cidade portuária localizada ao norte da Alemanha.

Ali encontra-se de tudo: sex shops, prostitutas, traficantes, bares no melhor estilo “copo-sujo”, teatros, cafés, bistrôs. Bosta de cachorro. Bosta humana. Lesmas gordíssimas e escorregadias. Lesmas gordíssimas e esmagadas. Preste atenção por onde pisa quando estiver na Reeperbahn.

Pois é também bem ali que acontece todos os anos um dos maiores festivais de música da Alemanha, o Reeperbahn Festival. A edição deste ano foi especial: Marcou as comemorações dos 10 anos do evento e o público fez juz à comemoração: 32.000 pessoas percorreram os 70 (!) bares e casas de shows que apresentaram a programação do festival, que esse ano focou em techno, mas que teve realmente de tudo (veja nossa seleção mais abaixo).

Música, muita música

Ao todo, foram 220 conferências (chamaram, por exemplo, a Mary Ramos,  a supervisora de música dos filmes do Quentin Tarantino, para falar sobre o trabalho dela e a importância da identidade musical para filmes) e cerca de 50 eventos culturais, entre peças de teatro, cinema, exposições, literatura e visitas guiadas. Ah, e claro: Muita música. Foram nada mais do que 400 shows em 4 dias. Impossível ver tudo, mas separamos algumas coisas que ouvimos por lá:

The Legendary Tigermann

Paulo Furtado nasceu em Moçambique na década de 70 e atualmente vive em Lisboa. O cara já se apresentou em São Paulo e faz um blues muito bom, além de ter uma super presença de palco. Vale conferir o Instagram dele: Além de bom músico, tem talento para a fotografia.

Igit

Esse francês não somente toca muito, mas é também hilário. Ele brinca com a platéia o tempo todo. Se você é daqueles envergonhados, jamais fique em seu campo de visão durante um show: Ele vai ficar perguntando o teu nome toda hora, cantando músicas para você porque “você o apladiu com tanto entusiasmo” e vai ficar pedindo para as pessoas se aproximarem para que o “fulano de tal não fique triste e sozinho lá na frente”. Puta show, puta artista.

Petite Noir

Yannick Ilunga é sulafricano, tem 24 anos e está à frente deste projeto. O show ao vivo não foi lá essas coisas, mas em estúdio é até bom.

Hapyness

Esse trio de indie-pop foi criado em Londres e é FANTÁSTICO ao vivo. O show deles, no Molotow, uma conhecida casa de shows na Reeperbahn, estava simplesmente abarrotado. No começo estava um pouco cética. Depois de 10 minutos parecia não existir lugar melhor no mundo para estar do que ali. (Vale a pena escutar essa track…é longa, mas vale a pena!)

Gabriel Rios

O cara é lindo, é carismático, tem uma voz de veludo e se apresentou em um teatro com jeitão de cassino dos anos 40 acompanhado de uma japonesa de 1,80 cm tocando um violoncelo e um hispter de camisa xadrez de flanela tocando um contrabaixo acústico. Ah, e ele nasceu em Porto Rico, vive na Bélgica mas conheceu os comparsas em Nova Iorque. Basta de apresentações.

Mercado livre

Mas nem só de porto-riquenhos gatos e franceses que te fazem passar vergonha é feito um festival. O Festival da Reeperbahn é também ponto-de-encontro de profissionais da indústria fonográfica. Mais de 3.700 profissionais e jornalistas de 40 nações se acotovelaram este ano para assistir e participar de palestras, mesas-redondas, aftershow e pocket shows de artistas somente para profissionais da area. É uma forma de vender seu peixe e estabelecer contato com outros mercados. Os showcases eram separados por países e aglomeravam sempre shows de quatro, cinco bandas. Cada uma tocava meia hora aproximadamente. Os showcases ocorriam à tarde, enquanto o público “comum” estava se restabeleendo da noite anterior ou trabalhando.

Foto de Nina Ivanov

Foto de Nina Ivanov


Musiikki

Isso é finlandês e significa música. A Finlândia foi o país convidado do festival esse ano e trouxe uma penca de músicos bem legais, mas vale destacar o duo Eva & Manu. Eva é finlandesa, Manu é francês e eles cantam em inglês. Muito, muito bom é também o som da Mirel Wagner, finlandesa de origem etíope e vozerão de arrepiar.

Além de música finlandesa, houve também food trucks de comida típica e barraca de gin tonic feito com gin finlandês (os alemães amam borbulhas). Bom, dizer o que, né? Viva a Finlândia! O próximo Festival Reeperbahn ocorre entre os dias 21 e 24 de setembro de 2016 e terá a Holanda como país convidado. Os preços variam entre 25€ e 87€ (R$ 115 e R$402) e já estão à venda.

Russian Red - Reeperbahn Festival 2014

Russian Red, por Nina Ivanov

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