O sol estava prestes a nascer tímido e introspectivo entre as nuvens enquanto o ar gélido impregnava cada respiração, fazendo parecer uma faca cravada no peito, corroendo os ossos lentamente, era mais um domingo friento e acinzentado na cidade de São Paulo. Eu estava na dúvida se pegava um Uber ou se caminhava até a Rua Teodoro Sampaio indo de encontro ao meu ponto de ônibus. A viagem no entanto é longa e cansativa e neste caso optar pelo conforto seria agradável devido a necessidade de chegar cedo em casa sem olhar para ninguém após uma noitada em pleno vácuo negro.

Preferi o desconforto de caminhar a passos lentos na calçada e ver o dia raiar, assistir a passagem dos carros, sentir os raios do sol penetrando o meu rosto enquanto o dia nascia na companhia de desconhecidos e eu, entre eles, adentrando meu conflito interno enquanto espero o ônibus. Observando o lapso de tempo entre a movimentação dos carros e das pessoas transitando de um lado para o outro, esbarrando umas nas outras sem se olharem, a passos rápidos como se fosse segunda de manhã.

Nesse meio termo eu vasculhava o meu celular em busca de algo para ouvir, tinha renovado a minha playlist com músicas novas e me deparei com a música “Demônio Bom”. De imediato, senti a necessidade de apaziguar tais sensações e ao mesmo tempo me vi na pele da personagem alienígena vivida por Scarlet Johansson no filme “Under the Skin”, que vive em busca de presas humanas. A sua principal arma é a sexualidade voraz. O filme também aborda questões como a solidão, a introspecção e a empatia gerada no conflito interno da própria alienígena, uma viajem existencialista em nós, que faz com que decifremos e julguemos as nossas atitudes em relação a todos ao nosso redor. Era o que sentia naquele instante com a música e os pensamentos sobre a personagem em que espelho as minhas sensações.

O que esse papo todo de crise existencial, liberdade, libertinagem, conflitos, escolhas, introspecção, vida, mundo, amor, melancolia, cinema, alienígenas, Scarlet Johansson e a minha história tem haver com o projeto paralelo solo do músico Eduardo Praça?

O vocalista do duo Quarto Negro assina com o codinome Apeles e fez sua estreia com a música “Demônio Bom”. O Quarto Negro conquistou-me com sua beleza sonora e seu apuramento estético e poético em  canções envolventes, transparentes, verdadeiras e expressivas. Os timbres sonoros retratam a sociedade contemporânea de maneira sutil, abordando questões relacionada ao amor, ao vazio, a solidão e empatia, questões conhecidas como o drama da incomunicabilidade.

A banda tem dois álbuns gravados, Desconocidos, o lançado em 2012, e Amor Violento, lançado em 2015. Tem também o documentário “GRU-PDX”, que mostra a cena de música em Portland e o processo de gravação do primeiro álbum e o lançamento do EP com as músicas “Obsessivo” e “Benedito, 682″. E é neste cenário que se encaixa o projeto paralelo de Eduardo com a faixa inédita “Demônio Bom”, que tem título de filme de ficção, daqueles que você vê transbordar poesia visual sobre o cotidiano e a interação do indivíduo com o espaço urbano mediante a sua introspecção.

Também podemos ver isso claramente no minimalismo marcado no clipe gélido da música, com cenas do inverno europeu em belíssimos planos abertos narrando a palidez sublime da neve que vai de encontro aos tons mais frios da música. O vídeo tem direção de José Menezes, com cenas filmadas na Rússia, Alemanha e Finlândia. Parar um instante e ouvir as canções da banda pode ajudar a entender a comparação que estou fazendo. Quarto Negro explora elementos sonoros de diferentes momentos do cotidiano, cada canção é uma história a ser contada. E a intensidade nua e crua de Apeles me conquistou.

Tudo isso porque escolhi voltar caminhando sem pressa e ver o sol nascer.

“Demônio Bom” pode ser baixada por 7 dólares no Bandcamp oficial da banda.

Roseli Vaz é uma artista visual paulistana e fotógrafa. Você vê mais do trabalho dela no Behance.