Em Pixel Ripped, para Oculus Rift, você é uma garotinha jogando um Game ‘Girl’ no ano de 1989. Com pegada nostálgica e uma mistura de 3D e 2D (uma espécie de ‘Inception’ 8bit), os personagens saltam da tela de uma realidade para outra e se tornam jogáveis! Estão dizendo por aí que é uma saudosa homenagem aos jogos que formaram uma geração de gamers.

Em 2015, a lista de premiados do AMAZE (o festival de games indies de Berlim), escondia uma surpresa. Um (BR) que sinalizava um jogo brasileiro, em um festival que costuma ser bem restrito ao Hemisfério Norte, e mais que isso, uma mulher! Desde que começamos a falar com a Ana Ribeiro, fã de Atari e desenvolvedora maranhense, as surpresas não pararam aí.

Pixel Ripped Business Cards (2)

Ana é inquieta. Se formou em psicologia, trabalhou cinco anos no Tribunal de Justiça do Maranhão como concursada até que no auge da crise dos 20 e poucos decidiu procurar outro rumo. “Sempre gostei de usar minha criatividade e aquele trabalho burocrático e considerado estável era mais que instável pra mim… estava para explodir. Então, comecei a vender empada. Foi uma forma de fuga para criatividade. Comecei a vender empadas de todos sabores que você pode imaginar (hot dog, pizza, frango, chocolate e até feijoada). Elas cresceram numa proporção que em um ano já estava vendendo quatro mil empadas por mês.”

E de onde veio o interesse pelos jogos? Com certeza não foi de um dos recheios. “Tive a sorte de crescer nos anos 80 e jogar desde o comecinho da indústria com Oddyssey, Atari, MegaDrive. E depois Nintendo e PlayStation quando era adolescente. Como jogadora tenho bastante experiência, mas nunca tinha me atentado para a possibilidade de trabalhar fazendo jogos.”

Foi então que um dos cursos que se inscreveu para aprender a empreender lhe mostrou um outro caminho, também diferente do que ela estava planejando. “Durante o curso, tinham vários exercícios e um deles foi muito importante para mim. Nos forçávamos a questionar como gostaríamos que nosso negócio estivesse em cinco, dez e quinze anos. Nos perguntávamos também: e como pessoa, onde você gostaria de estar? Comecei a refletir o que realmente gostava de fazer como pessoa, esquecendo dinheiro, família, sociedade. Percebi que estava fora de rumo… O que sempre fiz minha vida toda foi jogar.”

“Comecei a refletir o que realmente gostava de fazer como pessoa [...]. Percebi que estava fora de rumo… O que sempre fiz minha vida toda foi jogar video game”

Aproveitando a abertura do mercado, largou tudo mais uma vez e fez as malas para a Inglaterra com a grana das empadas no bolso para fazer um curso de Programação para Jogos, que virou um Mestrado em Design e Criação de Jogos. “Larguei o concurso, vendi meu carro e fui seguir meu sonho. Foi bem clichê assim. Empreender é você fazer a sua sorte.”

Mas como tudo na carreira de Ana, o caminho nos games foi desviado mais uma vez, agora para uma nova tecnologia. “No primeiro ano do curso, em 2013, experimentei pela primeira vez o Oculus Rift através de um colega da universidade que estava fazendo seu projeto final para o headset. Fiquei apaixonada e comprei logo o meu próprio headset para começar a desenvolver algo para ele. Em 2014, quando tinha que decidir que jogo fazer para meu projeto final universitário, decidi fazer o Pixel Ripped.”

ana_ribeiro_pixel_ripped

Mesmo durante os anos de formação na Inglaterra, a inspiração de Ana sempre veio do Brasil. Em uma das telas mais divertidas do Pixel Ripped, dois jogadores de futebol da seleção brasileira aparecem, fazem dancinha e voam pela janela da sala de aula. Outro jogo criado por Ana como trabalho de faculdade tinha como objetivo salvar o Carnaval nordestino (ou não). No comando de um bonecão, você podia usar os controles para desviar dos foliões ou acabar com toda a festa.

“Não sei muito sobre o mercado no Brasil. Nunca comercializei ou cheguei a lançar um jogo. O Pixel Ripped é meu primeiro. E, é claro, por ser brasileira, não tem nada que a gente dá  mais valor do que ter nosso trabalho reconhecido no nosso país. Pretendo fazer versão dublada em português para o lançamento na Steam no fim do ano e espero representar bem o Maranhão”, diz.

Durante a trajetória para a nova empreitada, a experiência com as empadas não foi deixada de lado. “A ideia surgiu de um sonho que tive. Mas sempre fui muito aberta a ouvir a opinião das pessoas. Algo que aprendi vendendo empadas é que o cliente sempre tem razão. Durante a criação do jogo, fui a única aluna a fazer playtest. Eu mesma organizei minhas sessões, postando no grupo do Facebook e convidando alunos do campus para testar meu jogo em troca de uma cervejinha. Isso fez muita diferença, consegui bem cedo notar o que não funcionava e joguei um level todo no lixo.”

Gamergate e polêmicas à parte, Ana diz que não sofreu discriminação na área. “Cresci com meninos, era a única menina da família. Tinha que lutar pelo meu espaço no meio de mais de dez primos e três irmãos. Para mim, não tem nada de estranho na indústria de jogos. Estou acostumada. Nunca sofri discriminação, mas fico muito triste quando fico sabendo de fatos que aconteceram com outras desenvolvedoras mulheres. Sonho com o dia em que não terá mais importância se um desenvolvedor é mulher ou homem, no fim das contas o que importa é o jogo.”

“Sonho com o dia em que não terá mais importância se um desenvolvedor é mulher ou homem, no fim das contas o que importa é o jogo”

Ainda assim, ela diz que espera mudanças progressivas na comunidade. “Isso vai mudar com o tempo, assim como todas outras áreas em que nós mulheres começamos a trabalhar. No passado mulher que pintava obra de arte era vista com preconceito e hoje em dia ninguém mais vê bicho de sete cabeças nisso. O mesmo irá acontecer com as desenvolvedoras de jogos.”

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Enquanto, sem perceber, é uma das responsáveis por promover mudanças positivas no cenário com escolhas inclusivas, a desenvolvedora está com os olhos no futuro. “A realidade virtual é uma mídia nova, difícil até de encontrar algo que descreva as mudanças que essa tecnologia trará ao nosso cotidiano. Como quando a TV foi inventada, estamos agora passando pelas mesmas circunstâncias. Algo tão novo que nos impulsiona a inovar e recriar tudo que aprendemos em game design. Vai modificar varias áreas da nossa vida, muita criatividade vai surgir daí. Em tantas áreas como entretenimento, educação, trabalho… Fica até difícil imaginar o quão longe essa tecnologia pode nos levar.”

Entre os planos futuros para o Ripped está uma versão completa do level 1989. A primeira versão chamava Rift, mas Ana pensou grande: vai que rola disponibilizar no Morpheus, da Sony, ou outro headset? Para criar o jogo, ela teve ajuda de amigos no áudio, no texto e no 3D. “O resto fui realmente eu trabalhando dia e noite em ‘crazy hours’ já que estava na Inglaterra sem amigos e distração, praticamente minha diversão era fazer esse jogo”.

Agora a equipe está crescendo e a meta é entregar a primeira fase completa até o final do ano. “Estou trabalhando agora com mais duas pessoas, não estou mais tão sozinha. E estamos bem otimistas com os resultados, será um jogo bem melhor”. Aos 31, se orgulha de ‘levar a vida na brincadeira’. “Tento imaginar que a vida é um jogo e esse é meu level de experiência.”

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* Tem um trecho da entrevista com a Ana na nossa matéria para o Brainstorm9 sobre Criatividade nos games.