Amadurecer é uma coisa interessante. Independente das (muitas) responsabilidades e das (poucas) compensações, algumas acabam fazendo a gente achar que, de uma maneira ou de outra, essa coisa toda que é a vida, trabalho e um rio de etc’s vale a pena. Ir a shows no meio da semana, por exemplo, é uma delas.

Na ruazinha que dá acesso a entrada do Cine Joia, no cool e decadente bairro da Liberdade, foi uma grata surpresa encontrar uma pequena movimentação da nossa “classe média operária” para conferir o show que Peter Hook & The Light fariam ali. Um contraste gritante com o burocrático show do New Order cinco dias antes que, sabe-se lá por qual ironia do destino, reuniu uma quantidade alarmante de um público que estava mais para “Rei de Camarote” do que para fãs da banda que praticamente inventou o pós-punk (e que respondeu toda a baixa expectativa desse mesmo público com uma apresentação nada mais do que convencional).

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Mas graças as forças ocultas do multiverso, no Cine Joia a coisa foi bastante diferente. Pequeno e intimista, o clubinho proporciona, entre outras coisas, uma excelente vista do palco. É justamente num lugar desses que a gente se dá conta de que o tempo passa, observando a quantidade de pessoas mais jovens se misturando com algumas cabeleiras brancas aqui e ali e uma ou duas dúzias de góticos das antigas que se amontoavam na frente do palco com os olhos brilhando de ansiedade para ver o baixista e fundador do lendário Joy Division.

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A gente se sente velho? Pode até ser. Mas aquele tédio que antecede o Rock ‘n’ Roll dura só até as luzes se apagarem e o palco ser tomado por um cara muito mais velho que você, com uma enorme carga de energia e que emana uma eletricidade pungente capaz de conectar banda e público em um único “corpo e alma”. E não foi por menos que essa massa unificada desenrolou o tapete vermelho na forma de um enlouquecido uivo de alegria, dando início a uma memorável celebração da música Pop onde Peter Hook já disparava os acordes da obscura In a Lonely Place em seu baixo de seis cordas, enquanto lá fora a cidade de São Paulo encerrava mais uma calma e abafada noite de terça-feira.

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Vale lembrar que o Cine Joia (não por acaso, um antigo cinema com um pé direito altíssimo) não é uma das casas mais fáceis de se regular o som. Mas ao contrário do que se esperava, o músico de Manchester transformou a ressonância característica do inferninho numa forte aliada para os poderosos graves combinados entre os acordes dos dois baixos, um deles tocado com maestria por seu filho, Jack Bates.

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Traçando um paralelo com outro gigante do rock, o Pink Floyd, fica evidente na separação do New Order qual das partes ficou com toda a produção e qual delas ficou com toda a atitude! E por atitude, entenda, estamos falando justamente de Peter Hook. Apoiado em um repertório (que pode ser nomeado tranquilamente como “religioso”) baseado nas duas coletâneas Substance (1987/1988), Hooky encheu os corações dos presentes com mais de duas horas de clássicos em versões corretíssimas, cuidadosamente reproduzidas em seus arranjos e harmonias.

Assumindo definitivamente os vocais (divididos poucas vezes com o guitarrista David Potes) e mesmo tropeçando em um ou outro andamento, a performance de Hook tornou difícil escolher um momento de maior ou menor brilho.

A participação constante do público cantando dançando e (pasme!) até pogando colocou a pista em uma sintonia perfeita que esquentou bastante a temperatura, enquanto a The Light mandava os clássicos Ceremony, Temptation, Confusion, Perfect Kiss, Subculture, Bizarre Love Triangle, Blue Monday e a magnífica True Faith, seguida de 1963, que fechou a primeira parte do set num inegável clima de nostalgia.

Quinze minutos de intervalo foram suficientes para tomar um fôlego e uma cerveja gelada, e Hooky já estava de volta ao palco para mais 60 minutos dedicados exclusivamente ao Joy Division. E é nesse ponto que o baixista parece encontrar, de fato, um caminho para a sua juventude, transformando o Cine Joia num clubinho punk de algum beco da Manchester dos primórdios dos anos oitenta.

Não tem como não se emocionar vendo tão nobre presença compartilhar, com tamanha proximidade, as versões perfeitas de clássicos como Shadowplay, Transmission, Dead Souls, She’s Lost Control, Atmosphere (dedicada as vítimas do terrível acidente aéreo do Chapecoense Futebol Clube) e, obviamente, Love Will Tears Us Apart, encerrando com chave de ouro (e com direito a camiseta atirada ao público) um dos melhores shows que já rolaram por aqui.

O que sobra depois de uma experiência dessas? Só o recado que Peter Hook & The Light mais uma vez mandaram para o mundo (ou para a concorrência desleal): O passado não está definitivamente encerrado.

Se essa é a “Nova Ordem”, então prepare-se. Para a nossa sorte, ela ainda vai durar bastante!

Peter Hook & The Light (06/12/2016) / Cine Joia – São Paulo

1ª parte:
In a Lonely Place
Procession
Cries and Whispers
Ceremony
Everything’s Gone Green
Temptation
Blue Monday
Confusion
Thieves Like Us
The Perfect Kiss
Subculture
Shellshock
State of the Nation
Bizarre Love Triangle
True Faith
1963

2ª parte:
No Love Lost
Disorder
Shadowplay
Komakino
These Days
Warsaw
Leaders of Men
Digital
Autosuggestion
Transmission
She’s Lost Control
Incubation
Dead Souls
Atmosphere
Love Will Tear Us Apart

Fotos:
Francio de Holanda