Eu amo revistas. Amo revirar as bancas atrás de publicações locais que tragam referências culturais sobre a vida na cidade e que sejam um exemplo de que dá pra criar formatos inovadores no impresso mesmo com leitores cada vez mais digitais.  

Nos últimos momentos de Paris consegui passar em uma banca e ficar um bom tempo namorando capas e ideias de conteúdo. Já é sabido que a cena de quadrinhos francesa é primorosa e uma das mais prolíficas da Europa. Se já ouviram falar de “La Vie d’Adele“, é só a última referência de muito do que tem sido mostrado no festival de Angoulême.

La Revue Dessinée

Por isso, a primeira coisa que chamou a atenção foi a quantidade de publicações que usavam quadrinhos como recurso gráfico, o que tornava as prateleiras super coloridas. E não eram revistas sobre HQ’s, mas publicações sobre esportes, notícias e viagem.

Essa “La Revue Dessinée“, por exemplo, é uma revista com reportagens ilustradas ou pautas transformadas em graphic novel. Na edição que comprei, os textos abordam desde a relação de Lee Scratch com a comunidade de Kingston ao vazamento nuclear em Fukushima e o tráfico de armas na Líbia.

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Entre as publicações musicais a que mais curti foi a Plugged, que ainda não tem versão online, só impressa e app. Ela é um modelo de revista de música que não tem nada a ver com o padrão criado pela Rolling Stone e chupinhado por dezenas de outras do gênero. As fontes são mais delicadas, a diagramação abusa de ícones e recursos que a gente costuma ver só em infográficos e as imagens dos artistas na maior parte são belas fotos de shows.

Se você preza por fotografia, a Fisheye é a dica. Essa edição sobre Urban Culture tem boas imagens de skatistas, bboys franceses e um formato de diagramação livremente inspirado por blogs. Também tem uma bela matéria sobre a história das mulheres na fotografia.

Outra publicação curiosa é a Muze, uma revista feminina sem photoshopadas ou dicas de dieta. Além de ser quadradinha, usa o recurso de escolher uma ilustradora como destaque da edição, impressa com detalhes em relevo e belas cores. Entre as reportagens de janeiro: histórias  de locutoras de rádio francesas, imigrantes, e textos sobre literatura, longos e sem pressa.

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Tem ainda algumas relacionadas a um novo tipo de jornalismo, sem uma hierarquia de chamadas na capa, como a Long Cours. Publicação sobre viagem especializada em textos mais aprofundados sobre os destinos. Com distribuição trimestral, sem apego com o factual, foca em recortes, boas histórias e segmentação sem medo de perder leitor.

Eles explicam a ideia: “com as redes sociais e SMS, as crises internacionais e a histeria do mercado, precisamos diminuir nosso tempo, o tempo necessário para observar o mundo, para encontrar o espírito positivo de descobridores, o entusiasmo dos grandes viajantes. Promover o “longo” versus “curto”. Ou seja, o pensamento, a poesia e a imaginação – de preferência globalizada. Nasce desse fato a ideia de fazer jornalismo fora do caminho batido. Para destacar temas raramente tratados, negligenciados pelos meios de comunicação.”

Além desta, a Au Fait cria debates sobre temas atuais e políticos de uma maneira mais artística, com textos poéticamente irônicos, longos e que não seguem uma estrutura convencional. Já a Fricote, sobre lifestyle, é a ‘veterana’ com 13 edições, crônicas bem humoradas e charges sobre a vida no novo século.

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Fiquei devendo alguma sugestão de moda, mas sendo Paris, acho que teria que ter um post só pra elas. O mais legal é ver que as revistas são novas, estão entre a terceira e a sexta edição, tem preço de presente (nada menos que dez euros), mais conteúdo e matérias mais frias que uma revista semanal. Sinal de uma movimentação nas editoras? Se sim, estão em um caminho bacana.

Pra não dizer que não curto os clássicos, acho que esta dispensa explicações.

RS