Quem nunca quis ser bruxa depois de ter assistido The Craft (1996) com “How Soon Is Now?” tocando no fundo? Ou não morreu de medo e excitação ao mesmo tempo ao ver a poderosa Angelica Houston em The Witches (1990)? Saudade, Sessão da Tarde. Para as mais velhas, lembramos da Samantha de Bewitched (1964). E, para encher os olhos de colírio, Practical Magic (1999) com Sandra Bullock e Nicole Kidman encarnando Wiccas.

Mais recente, quando menos esperávamos, Jessica Lange personificou uma matriarca mística e recebeu Stevie Nicks ao piano em American Horror Story: Coven. Na cena, enquanto a câmera segue as personagens, uma delas dança em círculos sob o seu feitiço.

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“Por que quando uma mulher é confiante e poderosa, eles a chamam de bruxa?” questiona Lisa Simpson em Lisa vs Malibu Stacy, quando ela discute a falta de representatividade de personagens femininas na infância. Como mulheres, muitas de nós crescemos com uma visão negativa de bruxa. Centenas de mulheres foram queimadas na fogueira, acusadas, torturadas e assassinadas durante a caça às bruxas na Idade Média, aclamada “idade de ouro” na Europa por ignorância, crenças e violência da sociedade patriarcal.

Se é para receber o rótulo de bruxa, devemos aceitar com orgulho as nossas ancestrais que desafiaram as convenções de gênero buscando autonomia. Na música, Grimes, Florence e Lord são alguns nomes que associam a imagem da feminilidade ao misticismo. E agora, envelopada em todas essas referências, vem surgindo um destaque nacional: Papisa.

Ouvi o electro-psicodélico da Papisa pela primeira vez nessa semana, mas Rita Oliva já é um nome conhecido na cena indie paulistana há algum tempo. Integrante do Cabana Café e do duo Parati, Papisa até agora fez duas apresentações do seu ritualístico EP de lançamento. A primeira foi em outubro, um evento intimista, com velas negras e sálvia branca queimando no palco. As suas faixas têm os três aspectos da Sacerdotisa: o instinto, a intuição e a ilusão.

“Instinto”, faixa single, é rock existencialista à lá Rita Lee e Marianne Faithful, modernizado por experimentações psicodélicas com synths e energia pop. A música fala sobre seguir os próprios desejos, acolher o instinto animal e se libertar sem culpa. “Nada que resiste é inútil esconder / Não tem coroa de espinho que te dê prazer / Nem bem, nem mal existem / É só um caminho para escolher / Um mundo tão maniqueísta não vai perceber.”

Para quem não manja de tarô, como eu, o nome PAPISA veio do: Arcano II – A Sacerdotisa ou A Papisa, uma mulher que representa o princípio do feminino. Na mão esquerda, ela leva espigas de trigo, símbolo do alimento que distribui generosamente. A lua sobre a sua cabeça remete a intuição, um dom que lhe pertence. Tem um gato a seus pés, antigo símbolo da magia.

O selo escolhido para lançar foi o PWR Records, de Hannah Carvalho e Letícia Tomás, que têm movimentado a cena nordestina e é dedicado exclusivamente a bandas que tenham pelo menos uma mulher como integrante, com o objetivo de dar mais visibilidade.

Para dar início aos trabalhos do disco, PAPISA está excursionando a partir de 10/11, acompanhada por Rafa Bulleto (bateria), Diego Xavier (baixo) e Julito Cavalcante (pandeirola), da BIKE. Ela, por sua vez, também participará dos shows da BIKE no nordeste, firmando a parceria entre eles. Quer descobrir por que tem tudo a ver? Leia nosso Dossiê Psicodélico.