Escrever sobre o Wilco não é exatamente uma coisa fácil. Exaltar a genialidade e o talento de seu principal letrista, Jeff Tweedy, é cair numa mesmice um tanto exagerada. Negá-la é cair drasticamente no erro. De qualquer forma, a trajetória do Wilco pode parecer uma coisa corriqueira nos dias atuais, onde a internet se tornou o principal modo de ouvir música e artistas independentes pululam pelas timelines nos quatro cantos do planeta. Mas, realmente, ela é muito mais do que isso.

Ainda assim, mesmo depois da fama, a banda de Chicago (terceira maior cidade dos Estados Unidos, eternizada na cultura americana graças aos grandes nomes do Blues, a lei seca e gangsters) sofre de duas doenças crônicas: um certo “anonimato cool” dentro do mainstream e o eterno estigma de uma carreira que deslanchou a partir de um quarto álbum que bateu no mundo independente como um aríete pronto para derrubar a muralha da China!

A história é conhecida: uma banda Indie americana que não estava indo muito bem com as vendas, mesmo tendo ótimas críticas e turnês com um relativo sucesso, grava um novo trabalho que é recusado pela Reprise (gravadora criada por Frank Sinatra, vendida para a Warner em 1963 e hoje abriga artistas como Fleetwood Mac, Eric Clapton e Oasis). Resolve então, interromper o contrato, vazar o álbum na web e assinar posteriormente com a independente (mas não tanto assim) Nonesuch Records, outro selo que, ironicamente, também pertence a Warner!

Lançado no início de 2002, a obra prima Yankee Hotel Foxtrot criou um verdadeiro marco cronológico na música pop, justamente na época onde a internet ganhava força, o download ilegal roubava para si os consumidores e as (agora) pobres gravadoras tentavam frear toda essa onda, colocando adolescentes na prisão pelo crime de ouvir música de graça.

A partir daí, imprensa e mídia deram atenção ao caso, ao álbum em questão e ao Wilco mais ainda, que desde sua formação (renascido das cinzas do excelente e esquecido Uncle Tupelo) conseguia manter seu nome na mídia pendurado apenas em contribuições com outros artistas e bandas, como o projeto Mermaid Avenue, realizado em parceria com o cantor e compositor britânico, Billy Bragg.

Yankee Hotel Foxtrot é, sim, um trabalho genial. Sutil, maduro e muito bem gravado, elevou seu vocalista e mentor, Jeff Tweedy, ao status de gênio e proporcionou a toda a banda uma estrada pavimentada e livre para percorrer com sua música. Em um mercado que assinalava cada vez mais a distorção das guitarras e a tendência eletrônica como definitiva (com bandas como Garbage, The Strokes e N.I.N. dominando os parcos pixels dedicados ao rock na MTV e o Electro sendo aclamado nas pistas de dança do mundo inteiro), ouvir músicas como “Kamera”, “Radio Cure” e a belíssima “Jesus, etc.” fez o público se lembrar de que ainda existia uma cena independente sobrevivendo longe dos grandes orçamentos das gravadoras, colocando o termo Alt-Country novamente no páreo e abrindo espaço nas revistas e blogs para um sem-número de novos e velhos artistas como Son Volt, The Jayhawks, Okkerview River, Willard Grant Conspiracy e Iron and Wine.

Todo o doloroso processo de criação e gravação de Yankee Hotel Foxtrot gerou também o filme “I Am Trying to Break Your Heart”, documentário do diretor Sam Jones, que fez parte de vários festivais de cinema, além de integrar as Seleções oficiais do Los Angeles, Londres e Stockholm International Film Festival, em 2002.

Bem… quando uma banda lança uma obra assim, o que vem depois não costuma causar tanto impacto, certo? Mas o Wilco ainda surpreenderia a todos com seu quinto disco, A Ghost is Born. Bem escrito e tão bem produzido quando YHF, o disco (incrível do primeiro ao último acorde) foi lançado em meio a um turbilhão de expectativas, marcadas tanto pelas mudanças de formação quando pela receptividade de público e imprensa, rendendo à banda dois Grammy Awards, um deles o de melhor álbum de música alternativa.

Aproveitando a ótima fase, os membros do Wilco se mantiveram bastante ocupados, dividindo seu tempo entre a estrada e os projetos paralelos. Em 2005, se apresentaram no finado Tim Music Festival do Rio de Janeiro e, no final desse mesmo ano, lançaram também o duplo ao vivo Kicking Television: Live in Chicago.

Atualmente, o Wilco ostenta um legado que pode ser chamado de invejável. Sua inegável integridade artística somada a ótima discografia, participações em importantes festivais e shows sempre disputados mantém os holofotes constantemente voltados para o grupo, que acaba de anunciar um novo trabalho. Schmilco, cuja capa você vê abaixo, será lançado no próximo dia 9 de setembro, um mês antes de se apresentarem como a atração principal do Popload Festival, dia 8 de outubro no Urban Stage, em São Paulo.

Schmilco

Wilco – Schmilco

O Festival — que conta também com nomes de peso da cena independente, como Battles e a artista carioca Ava Rocha — tem organização do jornalista Lúcio Ribeiro. Os ingressos ainda podem ser encontrados aqui.

A banda, que já havia soltado a esquisitinha “Locator” na semana passada, acaba de mandar mais uma via Spotify. A simpática “If i Ever Was a Child” segue mais a tradição Folk do Wilco e já está anunciada na playlist do novo album. Confira:

POPLOAD FESTIVAL
Com Wilco, Battles e Ava Rocha
Dia 8 de outubro
Urban Stage
R. Voluntários da Pátria, 498 (Próximo ao Metrô Tietê)
Santana – São Paulo – SP