Sentado confortável em uma poltrona, vestindo seu tradicional terno escuro e camisa de gola alta, mexendo os dedos da mão esquerda com três anéis de ouro, Nick Cave fala com um psiquiatra sobre seu maior medo: perder a memória. “A memória é o lugar onde a gente se lembra do significado da vida”, filosofa. Partindo deste princípio, “20.000 Days on Earth” mistura documentário e ficção para mostrar 24 horas na vida do músico australiano. Uma necessidade de Cave em fazer um registro de como ele se vê –ou como quer ser visto.

“Às vezes leio matérias ou coisas escritas por jornalistas sobre a minha vida e não me reconheço nelas. Esse filme é mais real do que vejo ou leio sobre mim”, Cave comentou durante entrevista no Festival de Berlim após a exibição do longa como parte da mostra Panorama. “Não é sobre a minha vida. Em 1h30 de filme não dá para contar toda a minha história. Tentamos fazer um filme sobre temas que estávamos interessados, sobre como preservar a memória”, completou o artista.

Em uma rara cena do filme em que aparece sorrindo, Nick Cave está acompanhado dos filhos gêmeos, rindo com um tiroteio de “Scarface” (1983), clássico de Brian De Palma. Questionado sobre a relação da música, do cinema e da violência em seu trabalho, Cave disse que “o cinema foi inventado para mostrar violência”. “Nenhuma outra mídia faz isso como o cinema. Eu me satisfaço com a violência nas minhas músicas. Mas o cinema é cool”.

Para trazer Cave próximo ao público, os diretores Iain Forsyth e Jane Pollard –premiados por melhor edição e melhor direção com o longa no festival de Sundance em janeiro– gravaram cenas de Cave acordando, escrevendo em uma velha máquina de escrever e nos bastidores da gravação do álbum “Push the Sky Away”, lançado em 2013, nas cenas que mais se aproximam do gênero documentário.

Ao mesmo tempo, valorizam declarações dramáticas e histórias sobre seu excêntrico lado rockstar, como quando ele mostra uma caixa com cabelos de meninas comprada em um mercado de pulgas em Berlim ou um testamento antigo em que diz deixar todo o seu dinheiro para o “inevitável Nick Cave Memorial Museum”, o que hoje ele comenta ser uma grande besteira.

Entre belas paisagens e voltas de carro com Kylie Minogue e Blixa Bargeld (ex-guitarrista do Bad Seeds), Cave assume o papel de narrador e fala sobre suas crenças e filosofias com o mesmo tom poético que canta suas músicas. Os temas variam entre sua relação com o mar, o céu, o tempo e seu processo criativo, criando um estilo que foge da relação cronólogica dos documentários de música convencionais.

“O estranho é que essas ideias nunca apareceram como um filme”, explicou Pollard. “Começamos como um videoclipe, quando dois anos atrás ele pediu para nós visitarmos o estúdio. Mas percebemos algo tão íntimo que poderíamos fazer algo diferente. Não sobre a trajetória de Nick, mas sobre quanto tempo você está na Terra e como você usa esse tempo. A verdade é que ele pode ser considerado um documentário porque mostramos algo da sua história, mas ao mesmo tempo nem tudo que mostramos é real. Queríamos um tom dramático, por isso alguns detalhes são mais mitológicos”, descreveu.