Danielle de Picciotto nasceu em Washington e é ex-pat desde 87, quando mudou para Berlim às vésperas da queda do Muro. Na capital alemã, cuidou da Love Parade, o Tresor, viu a vida artística degringolar com a falta de investimento em arte e há dois anos decidiu deixar a cidade e viajar o mundo com o marido em busca de uma nova inspiração.

Dois anos após a viagem, a estrada lhe batiza cigana e ela lança “We Are Gypsies Now – A Travel to Unknown“, diário em formato de graphic novel em que conta como foram seus primeiros meses na estrada e como tem superado os altos e baixos, a solidão, o casamento, o trabalho, criatividade e a constante sensação de se sentir pela metade. Leia trechos da entrevista com a autora.

“Nomadismo criativo significa abrir-se completamente ao que a estrada te leva”

Meu nomadismo criativo é, naturalmente, voluntário, em comparação com o nomadismo político. Mas, embora eu não estivesse sendo politicamente perseguida, senti que a minha vida tornou-se tão presa em um barranco que tive que desistir de tudo e tentar uma jornada diferente. Isso é uma decisão complicada de fazer, especialmente depois de viver em Berlim por 25 anos. Isso siginifica deixar um monte de amigos e uma casa.

Deixar sua casa pra viver com uma mala é uma decisão radical e que não pode ser tomada à toa, mesmo em casal. A internet tornou este tipo de estilo de vida muito mais fácil e possível. Em geral, graças ao Facebook, sinto que minha família cresceu em várias partes do mundo ao invés de ter encolhido. Conheci pessoas incríveis em todos os lugares e experienciei uma hospitalidade incrível, maior do que eu esperava.

Mas ainda assim criar empregos, encontrar residências, viver na casa de amigos e em constante movimento influencia tudo em sua vida, seu trabalho, sua saúde, sua sanidade. Nomadismo criativo significa abrir-se completamente ao que a estrada te leva e isso pode ser inesperado e assustador. É uma mudança de vida e acelerou meu crescimento interior em uma velocidade incrível, melhor do que esperar algo aparecer.

“Ser ex-pat é estar sempre derramada pela metade”

Você nunca para de perder o seu antigo lar. Sempre quer estar em dois lugares ao mesmo tempo. É uma inquietação e uma sensação de não pertencer a lugar nenhum. Você sempre está derramada pela metade.

Pode ser um sentimento muito bom, porque você vê as coisas de uma perspectiva diferente, nada estático e se sente como um convidada bem-vinda. Isso te mantém no seu melhor comportamento, e você ainda pode apreciar todas as coisas boas que quer experimentar, porque é um momento especial. Mas também lhe dá a sensação de solidão, de ser um estranho, de ser um estrangeiro, de não caber dentro. Esta combinação é o que senti toda a minha vida e me fez quem sou. Se tivesse ficado em Washington seria alguém completamente diferente.

Danielle e o marido, o músico Alexander Hacke

Danielle e o marido, o músico Alexander Hacke

Em geral para ser uma nômade com sucesso é preciso ser extremamente disciplinada. Qualquer excesso pode se tornar muito perigoso, se você cair ninguém estará lá pra pegar você.

Por isso, certifique-se do que você deseja alcançar, qual é sua meta . É um estado de espírito ou um lugar? Um trabalho ou um projeto? Para ser capaz de atingir o seu objetivo com sucesso você precisa viajar com conformidade e organização, principalmente se for passar menos de seis meses em cada cidade.

“Fones de ouvido são a melhor forma de conseguir paz”

Na estrada, você tem que trabalhar diferente de um escritório. Os formatos variam desde uma iluminação menor até o material que é mais fácil de carregar. No trabalho, costumo usar o papel porque pode ser enrolado e se encaixar no case do meu teclado. Me tornei muito adaptável a qualquer tamanho de sala ou espaço para trabalhar. Às vezes tenho enormes quartos estúdio e procuro imediatamente obter os maiores rolos de papel pra desenhar coisas enormes. Então mais uma vez estou em um pequeno quarto de hotel ou na cozinha de um amigo e preciso me concentrar em pequenos formatos. Com música, praticar fica mais complicado e o resto, como vídeos, resolvo no computador. E claro, fones de ouvido são algo realmente importante na estrada, a melhor maneira de encontrar um pouco de paz.

“Berlim foi uma última pequena ilha no imenso oceano da ganância monetária”

206_v650xxdComecei a me sentir desconfortável em Berlim por volta de 95. Foi quando o capitalismo realmente começou e velhas estruturas começaram a desaparecer. Consumir ficou mais caro, as pessoas tornaram-se mais competitivas, não era sobre ser criativo ou experimental, já que a necessidade era mais sobre ser HIP, VIP ou estar na moda, o que começou a mudar a qualidade das produções e me deixar entediada. Por mais 15 anos, tentei iniciar e manter a interação que eu tinha experimentado na cidade antes da queda do muro, senti a responsabilidade de ajudar a salvar as coisas que eu amava. Mas em um ponto eu havia me tornado tão infeliz que estava começando a afetar minha saúde, então decidi que tinha que mudar alguma coisa na minha vida.

O que eu mais sinto falta sobre a antiga Berlim é a maneira existencialista de olhar as coisas. De volta aos anos 80, a única coisa que importava era ser revolucionário em suas idéias, questionar a indústria, não aderir a regras e criar formas completamente novas de sobreviver como artista, sem estar à mercê do capitalismo. Não era sobre dinheiro, mas sobre a criatividade, integridade, filosofia e amizade. Agora é tudo sobre ser parte de uma sociedade pré-fabricada. O completo oposto.

Com a globalização, fazer que tudo tenha a mesma aparência em todos os lugares joga a individualidade no ralo. Não acho que os seres humanos querem ser fabricados em massa. Todo mundo quer se sentir diferente, especial. Berlim foi a última pequena ilha no imenso oceano da ganância monetária e, infelizmente, está afundando. Claro que há grandes pessoas, mas elas têm que lutar muito para sobreviver vivendo de arte. Ainda amo a cidade e talvez um dia eu vou volte, mas por enquanto estou interessada em lugares diferentes.

21-a_v650xxd (1)Amor, trabalho e viagem? Até 2015

Viajar junto é uma das coisas mais maravilhosas que podemos fazer como um casal, mas também uma das mais perigosas. Pode te colocar mais perto ou dividir completamente. Por mais conectado que você esteja a alguém, você tem que trabalhar a si mesmo espiritualmente. Isso significa encontrar seu espaço interior e paz.

Se concentrar em si de uma maneira positiva e não apenas sobre o outro, um espaço de respiração espiritual onde os dois podem relaxar. Meu marido e eu gostamos de meditar, nós também gostamos de ouvir livros em audio juntos e assistir séries de TV. Mas não quer dizer que seja igual. Cada um usa seus próprios fones de ouvido, trabalhamos em salas diferentes. Dessa forma, damos espaço um ao outro, mesmo sentados juntos durante meses. Não é fácil ser uma nômade 24 horas por dia, durante anos, mas muito amor ajuda. A gente já passou por muitas cidades e deve continuar na estrada até 2015.

Alguns aprendizados

- Na estrada, você se torna mais aberta e flexível. Em vez de se esconder atrás de pessoas ou símbolos de status há muito mais interação com pessoas desconhecidas e de diferentes classes

- Minha concentração melhorou tanto com a necessidade de trabalhar de qualquer lugar que consigo trabalhar em ônibus, aviões, em barcos com as pessoas cantando ou gritando ao lado

- Você aprende a voltar ao básico, em vez de acumular coisas. Você precisa se libertar delas, é impossível viajar com muita bagagem. É um alívio ficar tão livre. De repente, muitos pertences que antes pareciam importantes viram nada além do que um peso morto. Com isso você aprende a valorizar mais o que tem, principalmente as pequenas coisas

- Você conhece muitas pessoas e costumes diferentes, o que o torna mais consciente de seus próprios hábitos e deficiências. No último ano aprendi coisas importantes sobre nutrição

- Você aprende a entender que algumas coisas são iguais em quase toda parte (todos odeiam gentrificação em todo lugar – a não ser as grandes empresas). E é muito interessante ver todas essas pessoas sobreviverem de maneiras diferentes. Não existe apenas um caminho, mas muitas maneiras de viver e é maravilhoso experimentar isso.

Graphic novel tem ilustrações inspiradas em xilogravura

danielledepicciotto

“We Are Gypsies Now” começou como um diário. Eu tinha decidido tirar uma foto todos os dias da minha aventura nômade. Em certo ponto eu mostrei para uma amiga e ela disse que eu deveria publicar. Então mostrei para uma editora e eles concordaram.

Meus desenhos são detalhados e leva um tempo para que eu tire fotos de coisas que eu considero interessantes e olhe para elas considerando um bom material para o que eu quero contar.

Amo trabalhar em detalhes para treinar minha experiência em desenhos. Através da arte você pode transmitir coisas diferentes. Começar desenhando e terminar adicionando textos foi muito divertido.