Partimos por volta das 14h, com as mochilas cheias de sanduíches, frutas, cangas e disposição para fazer um bate e volta de 24 horas em Gräfenhainichen, a poucos quilômetros de Ferropolis, conhecida como ‘a cidade de ferro’. Com a quantidade de mormaço e poeira certa, o lugar pode funcionar como um cenário alternativo de Mad Max. A diferença é que a trilha fica por conta de SiriusModeselektor, Sven Väth, Kylie Minogue, XXXY e Alt-J. Bem-vindos ao Melt!

A estrutura do festival, que recebe 20 mil fãs de festa anualmente, é grande e com uma vista inusitada. Como chegamos cedo e os portões ainda não abriram, as barracas estão cheias, o clima é de aquecimento e os mais doidões se recuperam da noite anterior relaxados em colchonetes e toalhas jogadas entre as árvores e na grama. Narguilé, piscinas de plástico, biquínis e chinelão dão o clima da tarde. Apesar da Alemanha não ter costa, a galera é muito boa em transformar qualquer área em praia. Uma aula de improviso e organização de farra.

“Rain is just confetti from the sky”

No caminho, o sol é coberto por uma camada densa de cinza e pingos gelados nos recepcionam. Estamos em sete e avistamos um toldo branco um pouco maior que um pano de prato entre duas grades para usar de abrigo. Granizo, pés molhados e muitas risadas depois a chuva vai embora, deixando o frescor que precisamos pra curtir a tarde. Caminhamos com vista pro lago e aos poucos as esculturas com 30 metros de altura começam a despertar a curiosidade.

Ferropolis é um museu a céu aberto em uma antiga área de máquinas industriais da metade do século 20. Pesando mais de 1900 toneladas, as escavadeiras são decoradas com disco balls e a noite cospem fogo. Imagino como não deve ser olhar tudo isso de cima.

euro-express

Além de carro e transporte público, por cerca de 70 euros extras você pode se instalar no Euro-Express, um trem que cruza a Alemanha de Cologne (pertinho de Amsterdam) e onde você também pode ficar acampado

 

Na porta do Melt!, a primeira surpresa é a ‘sleepless floor’, ainda do lado de fora. Chego com a ideia de que é um chillout, mas na real é uma pista com pegada raver transbordando energia. Paramos em volta de um cabeludo de cueca azul, se contorcendo de um jeito tão livre que nenhuma vértebra minha conseguiria acompanhar. Essa área tem duas grandes vantagens: é gratuita pra quem não tem um puto e quem está no festival pode usar a grana da pulseirinha, além de ter um lugar pra manter a pegada depois que os portões se fecham e o dia começa a nascer. A organização conhece o público que tem.

É por ali que recebemos um convite do Nakedheart, um coletivo que se reúne para entrar peladão (ou segurando um coração, pros mais tímidos) no dia de encerramento do evento em uma corrida nua até o lago. Tento prestar atenção na explicação, mas o cabeção da Angela Merkel também desfila na cena em um corpo impossível de definir se era de homem ou mulher.

Um passo a dentro e a vista se assemelha a de um sonho distópico, então parte do meu esforço em escrever é ter algo pra me lembrar no futuro que isso realmente está acontecendo. A sensação de estar em um festival já é legal em si pela oportunidade de se desconectar do universo e se conectar na música. Em um lugar tão inusitado e com pessoas tão legais, os tunts tunts lá no fundo viram uma comemorada linha de chegada.

Um adicional importante é que desde o ano passado os festivais alemães estão seguindo um sistema de cadastro para os ingressos, o que para o bem e para o mal, os impedem de ser revendidos. Você só consegue entrar se ele estiver conectado ao seu nome e identidade. Existe a opção de comprar os três dias por cerca de 180 euros com camping ou um dia por 59 merkels.

Uma vantagem é que dá pra adicionar a grana antes, ganhar um mini bônus (praticamente um vale drink) e não perder dinheiro (ou pelo menos ter mais controle de quanto você precisa levar). É claro que qualquer sistema controlado por humanos pode ser corrompido. Então nada garante que se você tiver tomado uns drinks a mais não vá ser passado pra trás no caixa (sim, rolou). Pelo menos neste caso temos a chance de ter o troco da pulseira transferida para a conta corrente em uma semana. Penso na sacanagem que é termos acostumado com a impossibilidade ou as dificuldades para pegar a grana na saída. Imagina quanto não levam nessa?

Nos localizamos e seguimos para o palco Sun para a primeira atração da tarde, o produtor de Hamburgo David August (ouça mais aqui). Mas no caminho, playground, comidas boas e pistas de todos os tamanhos para agradar os mais diferentes gostos. Já bate aquela sensaçãozinha dolorida de que não vai dar tempo de fazer tudo. No geral, a música demora pra começar nos palcos maiores, mas chegamos no August no pôr do sol, que sempre é um momento mágico.

Outra surpresa: eles reúnem voluntários (estudantes que ganham ingresso pro festival) e que lá dentro tem a função de andar com uma jarra e dar água fresquinha pra galera que tá cruzando a linha tênue da sarjeta, mantendo todo mundo hidratado. No fim fica todo mundo bêbado (inclusive os voluntários) mas a ressaca no fim do dia agradece. Quer mais amor? Pipoca-doce também de graça o dia todo. Dali pra frente, nossa busca continua atrás de momentos musicais intensos.

momento WTF

Por todo festival, cartazes anunciam um dos destaques da noite, um alemão de tranças loiras, jaqueta jeans headbanger preenchida com patches de bandas de death metal. Para além dos clichês, o nome da vez é Romano e na verdade ele é um rapper. Da vez porque ele já subiu no palco com pelo menos quatro nomes diferentes e apesar de ser apresentado como uma nova atração, já tem uns 15 anos de carreira. Aqui embaixo, a referência: “Metalkutte”, que deixou muito metaleiro alemão puto por mencionar nomes de bandas e alguns de seus hábitos.

sonic youth alemão

Formado por Julian Knoth, Max Rieger e Kevin Kuhn, um trio de Stuttgart, o Die Nerven (ou The Nerven) é uma banda barulhentíssima que lembra uma mistura de Sonic Youth, Hellacopters e Atari Teenage Riot. Com seis anos e três álbuns, é daquelas que dá gosto de ouvir pela primeira vez e que deixa o baixo na sua cabeça por muito tempo. Valeu André pela indicação!

aposta certeira: SiriusModeselektor

Já vimos Moderat em Berlim e Modeselektor no Sónar SP, então o Siriusmo era a escolha da vez. Unidos pelo techno e pela gravadora Monkey Town, o coletivo fez a curadoria do palco Desperados Melt Selektor na beira da praia, um dos momentos mais belos da noite e o único que gravamos em vídeo. O Pedro, que é o mais fã deles, definiu em uma palavra: Siriúsmico.

De inverter o cérebro

Banda de Edimburgo surgiu em 2008 e é formada por Kayus Bankole, Graham Hastings e Alloysious Massaquoi. É uma mistura rica de soul, dance, vocal árabe e música africana, pesada, selvagem e surpreendentemente pop. Os sons são únicos, belíssimamente produzidos pelos três e ao vivo ainda ganham uma percussão agressiva. Encerram o show gritando apoio aos refugiados na Europa (dois dos integrantes são da Nigéria). A minha favorita da noite.

Se podemos deixar uma dica aqui é: fuja do set do Moroder a não ser que você curta mesmo farofada. Com tanta opção na noite, coração não bateu forte. Em compensação, recebemos a indicação de um casal super fofo da banda de dub The Bug. Na real, o projeto é de Kevin Martin, que entre outras proezas criou um álbum inteiro inspirado em “The Conversation”, do Coppola. Rolou ainda Kylie Minogue no mesmo horário que o Siriusmo, mas você pode ver como foi aqui. E passamos rapidinho pelo set do Jon Hopkins, que você também pode assistir a um trechinho.

 

Pipoca doce free? Queremos! © Stef Reis

Cheiro de pipoca tá rolando no ar © Stef Reis

 

Container transformado em pista disco © Stef Reis

Container transformado em pista disco © Stef Reis

 

Getting high © Melt

Getting high © Melt

 

Melt! Festival 2015

Pausa pra recuperar as energias © Melt Festival

 

Melt! Festival Sunday

Alt-J © Stephan Flad

 

dotheblockparty

Área do Twister © Stephan Flad

 

Melt! Festival Thursday

Aerea Negrot divando com Hercules and Love Affair © Stephan Flad

 

london

London Grammar estelar © Robert Winter

 

Melt! Festival Friday

Palco Sun © Stephan Flad

 

storybook

Storybook © Robert Winter

 

Santigold © Robert Winter 1.8 M

© Robert Winter

 

Santigold © Robert Winter

Santigold © Robert Winter

 

Modeselektor © Robert Winter

Modeselektor © Robert Winter

 

Melt! Festival Friday

Só curando a ressaca © Melt

 

Hi-5 © Pedro Rosa

Hi-5 © Pedro Rosa

 

Por trás do Hi-5 © Pedro Rosa

Por trás do Hi-5 © Pedro Rosa

 

Hell yeah! © Stef Reis

Hell yeah por 1 euro! © Stef Reis

 

melt-malaguetas-7

Muita chuva, muito sol © Stef Reis

 

melt-malaguetas-5

Pôr do sol ao som de David August © Stef Reis

 

melt-malaguetas-4

Imaginando umas máquinas dessas em Mad Max © Stef Reis

 

melt-malaguetas-3

Fiu, fiu! © Stef Reis

 

“Funções mágicas da Máscara Veneziana: podem ser místicas, de cultos, crenças, raças e rituais. A máscara dá vazão a alegria, tristeza, revela ou oculta sentimento” © SR

 

DSC_0091

Não consigo parar de achar o cenário surreal © Stef Reis

 

Ferropolis © Stef Reis

 

Pista de disco aquecendo © Stef Reis

 

Melt! Festival Friday

Anoiteceu © Melt!.de

 

Melt! Festival Friday

Derretendo! © Melt

 

© Robert Winter

Sábado teve Django Django, Kylie Minogue, SiriusMOdeselektor, XXXY, Die Nerven, Sven Väth, Young Fathers, Jon Hopkins © Robert Winter

 

Melt! Festival Saturday

Domingo teve Alle Farben, Alt-J, Soul Clap, Toro Y Moi, Nina Kraviz, Erlend Oye & The Rainbows

 

Se você um dia planeja curtiu o verão fora e tem a oportunidade de escolher um festival, essa é nossa principal indição. Não costuma esgotar, receptivo e um ótimo espaço pra conhecer bandas e sons novos. Saindo de Berlim, a passagem para um grupo de quatro pessoas sai por 14 euros cada em um trem que leva uma hora para chegar na cidade. De lá, os shuttles resolvem. Também tem claro, Blá Blá Car, busão e bastante gente disposta a dar carona.

Melt! Festival Friday

Foto da sexta, com shows de Hercules & Love Affair, Mogwai, London Grammar, La Roux, Marcel Dettman, A-Trak e Fickel Friends

 

* Obrigada Melt pela cortesia nos ingressos e por nos deixar derreter com vocês.