Ao ver os desenhos e traços mais sensuais da ilustradora catalã Maria Llovet, você pode até achar que seu intuito maior é provocar – mas pense duas vezes. Para a artista, o sexo é um dos aspectos mais comuns do que define o ser humano, apesar de muitas vezes lutarmos contra essa ideia. “O que me interessa é contar histórias em geral”, define ela. Se há ocasiões em que a sexualidade faz parte de sua obra, isso ocorre simplesmente porque o sexo está presente em vários aspectos da vida e é um tema interessante para qualquer pessoa, segundo a própria desenhista.

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Maria Lovett

“A base do que somos está enraizada no sexo, e às vezes parece que nos esquecemos disso”, diz. “Suponho que por isso há tantas batalhas morais entre os que realmente queriam que nos esquecêssemos disso e os que reivindicam essa ideia. Hoje em dia há sexo de forma velada até em anúncios de cereais, mas ainda assim se arrastam os tabus e os preconceitos de sempre. É uma grande incoerência, mas assim somos nós, os humanos.”

Maria conta que nunca teve dúvidas sobre o que queria da vida: “Sempre soube que o que queria era fazer arte, para mim não existe outra opção, nunca pensei em ter um trabalho ‘normal’”. O que ela teve que descobrir aos poucos foi o meio para chegar até lá. Depois de tentar os cursos de Design Gráfico, Joalheria Artística e Quadrinhos, ela percebeu era que precisaria explorar os meios artísticos por si só e ter a si própria como guia. Os resultados, que você vê aqui no Malaguetas, são traços bastante “nipônicos”, com muita influencia da estética dos mangás e predomínio de muitas áreas negras.


Debut “indie” e “transbordante”

A dificuldade de definição chega mesmo na hora de explicar por que ela desenha o que desenha. “Quem vai saber? Uma mistura de influências e interesses, segundo o movimento do corpo que me pede para fazer algo concreto. É complicado para mim te dar um motivo”, admite ela. “Sinto um interesse especial por alguns temas como a obsessão, que pode ter muitas vertentes mas é fácil que acabe em sexo.”

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Nascida em Barcelona em 1982, seu “debut” como roteirista no meio das artes foi com a graphic novel “Eros/Psique”, que ganhou o 6th International Manga Award de 2013 e aborda a relação entre duas meninas em um internato. Aos risos, Maria define a sua criação como “um filme indie”. “É uma obra um tanto caótica mas também ‘transbordante’, e acredito que isso seja uma coisa boa. Ao mesmo tempo é bastante etérea e reflexiva. Quando decidi fazê-lo, trabalhei muito rápido e com muita energia, tinha muita vontade de transmitir coisas.”

Sem tabus

Atualmente, Maria trabalha com “Insecto”, uma obra bastante ousada devido ao tema escolhido: incesto. “Hoje em dia, ele continua sendo um dos maiores tabus. É surpreendente a quantidade de desinformação e ideias preconcebidas que circulam sobre ele, como a imediata associação a abusos sexuais”. O drama contará a história de um adolescente e sua irmã que descobrem juntos a sexualidade e acabam criando uma forte relação de dependência. É quando outras pessoas tentarem interferir na relação que eles vão tentar decifrar a natureza real de seus sentimentos.

Ela assegura que o tema ambicioso não será motivo de afobação ou de um tratamento diferente na obra. “Meu enfoque do tema do incesto não é nem da vertente social nem de crítica. Igual como fiz em ‘Eros/Psique’, este tema está integrado de forma natural na história com o mesmo enfoque que teria se fosse um outro tipo de relação.” Segundo Maria, “Insecto” guardará um pouco da origem etérea de “Eros/Psique”, mas com uma preocupação em fazer também uma obra mais ordenada.

O título da obra também tem uma explicação. “Insecto” é um acrônimo de incesto em vários idiomas, e há situações em que se confundem as palavras”, explica a ilustradora.

Falsa liberdade

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Apesar de não ver nenhuma novidade no fato de ser uma mulher que fala sobre sexo, Maria é bastante crítica em relação à aura de aparente liberdade adquirida ao longo dos últimos anos. “As mulheres falam de sexualidade há muito tempo, sobretudo na literatura. Mas apesar disso há agora uma falsa sensação de ‘liberdade’ e de mentes abertas que é pura fachada. Os tabus continuam, são os mesmos de sempre e não acho que vão desaparecer.”

Para a artista, as coisas que escandalizavam antes continuam causando alvoroço agora. “As mulheres continuam sendo suas piores inimigas. Veja a revolta contra Miley Cyrus. O fato de que o que ela faz escandaliza desse jeito põe às claras a hipocrisia do mundo e o pouco que se avançou.”

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