Um piscar de olhos está dentro da prisão de Guantánamo, recebendo o tratamento de prisioneiros e condicionado ao espaço visual criado a partir de narrações de quem já viveu o inferno na prisão cubana. Projeto da jornalista ameriana Nonny de La Peña, especializada em reconstruir notícias de forma interativa, o Jornalismo Imersivo amplia coberturas de conflitos usando realidade aumentada. O objetivo é criar a sensação de ‘embodiment: o poder de se colocar no lugar do outro’. 

Durante a palestra dela na Re:publica, a repórter explicou que este termo foi inspirado na cobertura da Segunda Guerra Mundial, quando a também jornalista Martha Gellhorn usou o termo “vista do campo” para dar ao leitor a sensação de que ele também estava lá. Ela acredita que a tecnologia unida ao formato de documentário e reportagem tradicional pode “aproximar o leitor da verdade”. “A ideia fundamental do jornalismo de imersão é permitir que o participante entre em um cenário recriado a partir da notícia. Ele será representado na forma de um avatar digital, uma representação 3D em que pode ver o mundo em primeira pessoa e cujo os movimentos podem coincidir com os movimentos reais do corpo”.

“A ideia do jornalismo de imersão é permitir que o participante entre em um cenário recriado a partir da notícia”

É possível participar da história de várias formas. “O visitante tem acesso em primeira mão a uma versão virtual do local onde a história está acontecendo ou através da perspectiva de um personagem retratado na notícia. Ele recebe visão e sons sem censura e, possivelmente, os sentimentos e emoções que acompanham a história. É um impacto emocional direto”.

O novo experimento da repórter é uma recriação do conflito na Síria (leia mais sobre) e desenvolvido no Unity, engine poderosa usada na criação de jogos. O material gráfico inclui fotos de vítimas e reproduções da arquitetura local. As imagens são renderizadas em 3D e se transformam em uma experiência virtual com ajuda do Oculus Rift.

Daí surgem inúmeras perguntas: o Oculus realmente será usado como uma forma de consumir notícia pelo público no futuro? Qual a chance do material ser transformado em um entretenimento mórbido? O que pode trazer de positivo pro jornalismo gráfico? E se as informações coletadas no conflito retratarem apenas um lado dele? Nós estamos falando do jornalismo americano, a escola da notícia como espetáculo.

Um dia depois, acompanhei outra palestra que tinha conteúdo complementar: Fotos ou não aconteceu: como as mídias sociais afetam o que nós sabemos sobre as mortes do conflito Sírio. A cientista política alemã Anita Gohdes explica, do ponto de vista da imprensa europeia, como as informações coletadas nas mídias sociais são importantes e também perigosas.

“O conflito na Síria foi considerado o mais compartilhado nas mídias sociais. Milhares de vídeos no Youtube registram imagens de pessoas mortas e feridas. Mas com o conflito entrando no seu quinto ano, ainda não é claro o número certo de vítimas. Diferentes fontes mostram diferentes números confirmando o que os observadores já sabem: o processo de descoberta do custo de vidas humanas nunca é simples, mesmo com mais visibilidade nas mídias sociais”, explica.

“Quando se trata das notícias sobre a Síria, nunca será um retrato completo do cenário”

A empresa de Gohdes trabalha com coleta de informações em campo e transforma em data para os jornais. “Quando se trata das notícias sobre a Síria, nunca será um retrato completo do cenário. Nós temos problemas de locações, segurança. Hoje basicamente quem reporta o que acontece no país são repórteres internacionais, que tem acesso a apenas uma área do conflito. Os repórteres locais são ameaçados de morte e a população não é tão conectada”, explica.

Neste caso, as mídias sociais surgem como uma ferramenta importante de compartilhamento entre os cidadãos. “Hoje existem diversos motivos para se documentar violência, mas é compreensível que muitas pessoas não o façam. Mesmo com toda a destruição, se você vê alguém sendo morto, não pode provar a menos que tenha uma foto ou um vídeo, como tem acontecido com a violência a jovens negros nos Estados Unidos”, diz. “Ao mesmo tempo, se você olha o Instagram do Presidente, que é bem ativo  nas mídias sociais, vê a imagem de outro país.”

Para Gohdes, o desafio é humanizar a informação. “Nós não lidamos apenas com números, sempre procuramos os nomes das pessoas, mais informações sobre o assunto. Nós precisamos melhorar a qualidade das informações que são passadas.”