John Howard é desses que a gente conhece e a prosa vai longe. Descobrimos a tenda de pôsteres dele no Primavera Sound (leia nossa cobertura), mas o papo foi muito além do festival catalão. De longe, seus quadros geram curiosidade pela mistura fluorescente de cores, surrealismo, detalhe e a sensação que seus olhos mastigaram cogumelos. Quando você se aproxima, descobre que os desenhos são feitos em uma perspectiva 3D, transformando papel em alucinações lúcidas de orgulhar nosso amigo Claviceps. Howard, que é de São Francisco, berço da cultura pop psicodélica, transporta a música que está ouvindo para suas ilustrações.

Ainda assim, no corredor de artistas que recebia o público do festival, ele parecia desanimado, cabisbaixo, levemente incrédulo. A maioria das pessoas nem olhavam pro lado, passavam reto por aquilo que eram as obras que se dedicou a vida toda. Mas seus pôsteres chamavam, não resisti e fui conversar com ele. Elogiei a rodo, chamei os amigos pra ver, pedi explicações das brisas. O cara é foda. Imediatamente ele mudou o semblante e agradeceu por ter levantado seu astral. Entre a dificuldade de fazer a vida com arte e música, John mantém o site MonkeyInk, onde vende a arte que viaja por festivais apresentando. Batemos um papo com ele sobre as histórias, como ele desenhou o búfalo do Val Kilmer e o que o inspira a continuar.

Como começou a criar ilustrações musicais?
A música sempre foi uma parte muito importante do meu processo criativo. Ouvir música leva tempo e criar arte leva tempo. E isso gera um fluxo. Você pode ter um papel em branco no começo, mas a música começa a tocar e a coisa acontece. É um transporte para a imagem. Você realmente quer ouvir? Eu não quero que você fique entediada (risos).

Claro que sim! Olha o seu trabalho, estamos muito curiosos.
Comecei a estudar arte em uma universidade na pequena cidade onde morava, no centro de Kentucky. Mas era muito monótono e tudo o que queria era sair de lá e ainda fazer arte e música. As aulas acabaram e eu estava desempregado. Nessa época tinha uma banda britânica na cidade. Eu não tinha nenhum trabalho, nenhum dinheiro, então liguei oferecendo alguns desenhos e eles gostaram da ideia. Usei todo o resto do dinheiro que tinha para fazer os cartazes para o show. Não tinha ideia de como eles iriam ficar, mas tentei. Fui ao show e fiquei na primeira fileira com o pôster. A banda de abertura era a Jon Spencer Blues Explosion. Eles subiram ao palco e o vocalista olhou para o cartaz e disse: “What the fuck, UAU”. Ele fitou por um tempo e só então começou a tocar os primeiros acordes da música. Este momento foi o primeiro momento da minha carreira, ali mesmo. Eles me chamaram no backstage e foram muito legais. Vendi só um pôster nessa noite, para o guitarrista. Mas no dia seguinte, eles me convidaram para visitar o escritório e me contrataram para fazer os cartazes da turnê inteira. Foi assim que tudo começou.

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Hoje você consegue viver da sua arte?
O começo foi realmente difícil, mas você precisa sair de algum lugar. Hoje em dia penso que não consigo procurar um emprego porque não tenho qualificações. Mas tenho algumas habilidades e com isso posso criar o meu próprio trabalho. Trabalhar para mim é estar em contato com as pessoas. Já fiz alguns trabalhos para galerias de arte, mas na galeria é assim, meio estranho. Quando as pessoas vêm falar com você é assustador, não rola um fluxo de ideias. Não que eu esteja reclamando, mas é diferente. De qualquer forma, para mim funciona como, se alguém gosta e paga pelo seu trabalho, todo mundo fica feliz.

“Na maioria das vezes, quando começo a fazer um pôster, não tenho um conceito pré-estabelecido. Dou play na música e as coisas começam a acontecer”

Como funciona seu processo de venda? 
Funciona de várias maneiras. Vendo muita coisa pelo site Monkey Ink, mas neste festival especialmente trabalhamos com a Flatstock (feira de pôsteres) e a API (American Poster Institute), que começou americana, mas é internacional agora. Este é um grupo que ajuda a organizar eventos e trabalhamos juntos. E é interessante porque todo mundo é autônomo, é tudo muito orgânico. Em outro caso, tem essa banda que sai em turnê nos Estados Unidos para fazer 40 shows em 120 dias. Temos um acordo e eles sempre vendem cerca de 300 cartazes por ano. E nós confiamos um no outro. Eles têm uma mesinha de venda em cada show e eu faço os cartazes. Quando eles chegam à cidade, passam na minha casa e trazem todo o dinheiro arrecadado. Eles separam uma parte para a banda e tentamos fazer barato para os fãs. Cuidamos uns dos outros.

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Conta um pouco sobre o seu processo criativo.
Na maioria das vezes, quando começo a fazer um cartaz, não tenho um conceito pré-estabelecido. Dou play na música e as coisas começam a acontecer. Toda vez é assim. É como quando você está gostando muito de um álbum. Na quinta vez que ouve começa a realmente entender. Eu gosto desse processo orgânico. Você precisa testar toda vez para descobrir o que acontece. Você tem que confiar e esperar a inspiração. Para algumas pessoas não importa, mas não posso começar se eu realmente não entrei na música. Não funciona.

E como funciona o trabalho com as imagens em 3D? 
Nesses pôsteres em 3D, é tudo relacionado as camadas. Começo com uma imagem, pintada à mão ou editada no Photoshop, então passo no scanner, desenho em cima, imprimo, desenho, passo no scanner de novo. Tudo isso pensando em diferentes cores e cenários complementares. Para os olhos, funciona como os filmes 3D, cada olho e cor do óculos traduz uma parte da imagem, criando esse efeito tridimensional.

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Você pode escolher um pôster que tenha sua história favorita?
Tenho um pôster que tem uma história que eu posso te dizer que é sobre uma mulher. (Levanta e vai buscar o cartaz). O nome desta mulher é Sara e ela é metade cherokee e metade francesa. Ela e o marido tinham um búfalo e começaram a procriá-los na própria fazenda para ajudar que os animais não fossem extintos.

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Neste pôster tento representar seus antepassados e um pouco da sua história, por isso lhe dei uma constelação, achei que ela merecesse uma. É uma história de 1890. Encontrei após iniciar uma pesquisa sobre búfalos. Tudo começou quando Val Kilmer, você sabe o ator? Ele estava no SXSW e adorou os cartazes em 3D. Então me pediu para fazer uma arte com um búfalo para ele. Trocamos e-mails e ele me enviou uma foto do búfalo dele. Por isso, este aqui em cima (à direita), é o búfalo do Val Kilmer. Devo essa a ele, nunca enviei. Leva um tempo para chegar nesse resultado. Mas entre o começo da história e o fim, sempre acontece algo no caminho. E está tudo relacionado à música.

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John Howard Posters

Durante os três dias de festival, voltei várias vezes para conversar com John. Ele recebia sempre com um sorriso, quase aquele jeito mineiro de quem ofereceria um pão de queijo com café. A conexão foi tão forte que o cara me surpreendeu: pediu que eu escolhesse qualquer um dos pôsteres dele, que eu poderia levar pra casa. Porra, o cara me deu um pôster! Entrei num dilema foda, era muita coisa boa. Mas não tive dúvidas e escolhi este pôster de cima, à direita, do Nick Turner, cores fortes, olho no olho, dietilamida no papel. Mais que um presente, ganhei um amigo.

Pra quem gostou, no site dele tem pôsteres dos Beatles, Mudhoney, Regina Spektor, Acid Mother Temples, Graveyard, Sleepy Sun, Queens of the Stone Age. Eles custam a partir de US$30.

Entrevista e edição de imagem: Pedro Rosa
Edição, tradução e fotografia: Sté Reis