Primavera. Uma cadela e seus recém-nascidos são surpreendidos por um homem. Ele rouba os filhotes da mãe, coloca em um saco, mata com uma pá e joga na margem do rio. Para os árabes, a água purifica os pecados.

O prólogo de “O Paraíso de Zahra”, graphic novel escrita por Amir e ilustrada por Khalil, não é só um conto cruel, mas uma referência ao sofrimento de mães iranianas que perdem membros da família no caos de hospitais, delegacias e cemitérios do Oriente Médio.

Na HQ, o filho da vez é Mehdi, um jovem estudante que some depois do protesto contra a eleição roubada no Irã, em 2009, na Praça da Liberdade. Ilustrada em preto e branco, com traços expressivos, o livro usa fatos reais para explicar o processo burocrático enfrentado pela família durante a busca de um desaparecido.Além de Mehdi e da mãe Zahra, que dá nome a publicação, a história também conta com um irmão blogueiro e dissidente. Narrador da busca, ele sofre com pesadelos pertubadores que lembram obras de M.C. Escher e Michelangelo.

As tiras que deram origem ao livro começaram a ser publicadas em um blog homônimo traduzido para 12 países, agora também com versão em português. Mesmo com o excesso de verbetes em língua persa, o que pode deixar a leitura cansativa, a graphic novel é de fácil compreensão.

Lançada no calor das manifestações da Primavera Árabe, em 2010, O Paraíso de Zahra transforma em vizinhos personagens de notícias publicadas nos jornais todos os dias.

O Paraíso de Zahra
Amir & Khalil
Editora Leya