De todos os rótulos inventados para relacionamentos, o praticado pela Garota Siririca, personagem da quadrinista brasiliense Gabriela Masson (aka lovelove6), talvez seja o mais sábio. Em 2015, suas histórias bem humoradas sobre masturbação e ‘self-love’ ganharão uma compilação com ajuda do financiamento coletivo do Catarse. Entre as recompensas, vibradores, ilustrações e um livro que incentiva a descoberta e aceitação do corpo feminino.

Quem acompanha o universo das zines, sabe que já falamos da Gabi na coletânea XXX e em “A Ética do Tesão no Pós-Modernidade”, as primeiras experimentações da quadrinista sobre amor, feminismo e sexo. Na Samba, editora independente que descobrimos em um papo com a Laerte, ela abriu recentemente espaço para responder dúvidas sobre masturbação. Nos quadrinhos, conversas (e pegação) entre amigas, ‘zoeiras inconsequentes” sobre vibradores e deuses indianos e as brisas de uma personagem sexualmente auto-suficiente.

malaguetas: Em uma das suas séries mais bacanas a GS responde dúvidas das leitoras. Como isso te ajudou a perceber a importância das discussões que a personagem traz?
lovelove6: Quando fiz o AskGS, esperava que as leitoras enviassem mais perguntas sobre a vida da personagem, mas a maioria das perguntas foi sobre como se masturbar e sobre saúde da vulva (como limpar, por exemplo). Acho que isso demonstra como faltam lugares e oportunidades convidativas para mulheres tirarem dúvidas sobre seus corpos, assim como falta educação sexual básica, a respeito de higiene mesmo, que deveriam ter quando crianças.

Escolhi as dúvidas que era capaz de responder. Ignorei muitas perguntas interessantes, mas que eu não poderia me comprometer a dar uma resposta segura. Muitas vezes senti que precisaria consultar uma especialista em ginecologia ou psicologia…

askgs

malaguetas: Entre algumas das nossas cenas favoritas estão o Urso cortando o cabelo da GS e a aparição mística da Prexeva. Você pode comentar um pouco dessas criações?
lovelove6: Considero o Urso como uma pessoa queer. Ele é inspirado num amigo meu, cujo um dos apelidos é “urso”. Coincidentemente também tem a subcultura LGBT dos ursos, mas quando fiz a associação ele já tinha aparecido nos quadrinhos, a vida dele é um mistério pra mim também. A Prexeva teve essa aparição mágica e deu a benção da super flexibilidade pra Garota Siririca, foi fruto de uma zoeira inconsequente. Quero muito que ela e a benção sejam mais exploradas até o fim da série.

GS

malaguetas: O que a GS te trouxe de aprendizado no desenvolvimento de personagens?
lovelove6: A Garota Siririca me deu a oportunidade de aprender a maior parte do que sei sobre fazer quadrinhos. Tanto pra construir personagens, quanto narrativas, tramas, a estrutura em si. Precisei inclusive aprender a desenhar a mesma personagem em diversos requadros de forma que ela fosse reconhecível (ou a usar artifícios para facilitar isso). Durante a produção, também penso muito sobre como representar mulheres dentro de situações eróticas, de forma que não sejam super sexualizadas, objetificadas. Muito do que aprendi se deve as críticas que a Garota Siririca inspirou também, que me fizeram ir atrás de estudar roteiro.

“Penso muito sobre como representar mulheres dentro de situações eróticas de forma uma que não sejam super sexualizadas ou objetificadas”

malaguetas: Sua forma de contar histórias cresceu muito neste processo. O que te inspirou? 
Lovelove6: Gosto muito de cinema e apesar de não ser leitora ávida, considero a poesia uma referência importante na construção do ritmo da narrativa nos meus quadrinhos. No caso do elemento surpresa, até certo ponto eu reconhecia “instintivamente” esse aspecto como um dos fundamentais da linguagem da tira, mas ler ‘Story’ do Robert McKee, por exemplo, me ajudou muito a ter mais controle sobre a construção da trama. Ter uma disciplina na faculdade pra estudar quadrinhos e sua história também fez diferença. Eu aprendo sobre quadrinhos especialmente trocando ideia e críticas com outras e outros quadrinistas, como o Lucas Gehre.

malaguetas: Qual seria seu pedido para o Marajá, o Gênio do Vibrador?
lovelove6: Eu pediria pro meu desejo nunca ser submetido ao julgamento alheio e para ter tipo o “toque de midas”, mas adaptado para orgasmos em vez de ouro.

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