Em um desses sábados chuvosos, deixo o edredom de lado e saio rumo ao Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. No ano em que completo uma década escrevendo sobre a cena independente, ainda me surpreendo com as possibilidades que as noites paulistanas reservam. No prédio antigo com uma vista única da cidade, um segurança amigável me conduz até o elevador capenga. Na saída dele, sigo o caminho da luz vermelha que a esta altura me parece acolhedora.

E, por coincidência, sou recebida por Chico Rigo e Matheus Mendes, respectivamente guitarrista e vocal/baixo do Picanha de Chernobill, banda de Porto Alegre que se rendeu a pluralidade artística e ao caos sedutor da cidade. Eles são parte do Estúdio Lâmina, uma ocupação cultural no centro. “Essa é a nossa casa”, comentam mencionando o fato de que o teto tinha caído durante os temporais e que há pouco tempo estavam a juntar entulhos.

Foto de Marcelo Marmelo

Foto de Marcelo Marmelo

 

Vale a pena dizer que hoje é o último dia para ajudar o terceiro álbum da banda a acontecer. Apoie no Catarse.

A Picanha faz parte de um refrescante cenário no rock and roll brasileiro. E uma das provas de que quem reclama de falta qualidade nacional não está ouvindo o suficiente. No último mês, mergulhei numa onda psicodélica que incluiu contato com projetos como Luneta Mágica (Manaus), Rumbo ReversoBike e Bombay Groovy (de SP). Ao todo foram quatro shows, dez álbuns, incontáveis baseados e alguns arco-íris sonoros.

As bandas no geral têm entre quatro e dez anos de carreira e pelo menos dois álbuns lançados. Não são tão novas e sobrevivem de financiamentos coletivos, shows nas ruas e festivais como Bananada. É injusto colocá-las em um único rótulo, mas a Bia Quadros, da Capitolina, fez um resgate interessante sobre o movimento musical que acredito ser fiel a todas:

“Quebra rítmica, inserção de elementos sonoros não tradicionais (como riso, ruídos), fim da linearidade e letras sobre momentos mentais profundos (é como se Dalí fizesse música)”

Com a ajuda da Flora Miguel (da Casa Goiaba e Um Jazz por Dia), que ajuda a colocar ordem no material de parte dessa galera, reuni o que essas bandas pensam sobre política, música e o momento cultural que o Brasil está vivendo.

RELAÇÃO COM POLÍTICA E CONTRACULTURA

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- “Sim, a psicodelia ainda representa a contracultura, um viés de um grupo ainda pequeno que valoriza esse tipo de som e que nele busca sensações diferentes das que outros estilos podem proporcionar” – (Cacá Amaral, Rumbo Reverso)

- “O movimento psicodélico dos anos 60 era uma quebra de barreiras não só pela questão do som em si, mas das mensagens que eram passadas pelas bandas de destaque: o fim da guerra, a liberdade sexual, a violência, a liberdade da mulher, os direitos dos negros. Essa mensagem continua sendo atual e não era contracultural apenas porque o som era para ‘viajar’, a música era parte importante e fundamental, mas ela vinha acoplada a letras que diziam algo, que instigavam o ouvinte a pensar. Dessa forma, acreditamos que nos tempos atuais o “contracultural” seja mais o que tu fala, o que tu diz, como se posiciona independente do estilo musical, pode ser rock, pode ser rap, reggae, mpb, etc” – (Chico Rigo, Picanha de Chernobill)

- “Não sei se a nova psicodelia voltou com propósito político, mas trabalhar com música independente no Brasil já é uma forma de protesto, falar sobre legalizar o LSD é transgressão, não ter um trampo com horários, chefes, não bater o cartão pra enriquecer o patrão é estar no caminho inverso da maioria. Nós nos viramos como podemos, mas sempre dentro da música. Seja trampando em estúdio, produzindo outros artistas, consertando e construindo instrumentos, estamos sempre na ativa, marcamos nossos shows, organizamos nossas turnês, fazemos nossas camisetas, cortamos pôsteres, adesivos, encartes e gravamos nossas K7s” – (Julito, BIKE)

- “Particularmente, a psicodelia que mais nos inspira é a inglesa, que teve conotação mais artística e cultural do que política. Não enxergamos tanto sobre o espectro contracultural hoje em dia pois o rock psicodélico de hoje é mais encarado como um saudosismo do que uma maneira de protesto. Preferimos pensar que houve uma espécie de retrocesso cultural na sociedade desde esse período fértil das décadas de 60 e 70 e, portanto, tentamos transmitir noções mais abstratas e sinestésicas para as pessoas, que parecem também ter se tornado muito rígidas diante da era digital” – (Rod Bourganos, Bombay Groovy)

A NOVA PSICODELIA É UMA REAÇÃO AO CONSERVADORISMO ATUAL? 

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Foto de MasterMind

 

- “O conservadorismo parece ser cíclico em nossa história, e parece que estamos entrando no auge dele novamente. Coincidência ou não, o movimento psicodélico pode significar um oásis, um ponto de encontro de identificação entre pessoas que não se vêem inteiramente no mundo como ele é imposto” – (Cacá Amaral, Rumbo Reverso)

- “A arte sempre deve ser uma reação ao conservadorismo. Independente de qual arte absorvemos, ela só é eficaz e produz efeito se quebra paradigmas, se nos faz refletir, pensar, absorver e transmutar. A reação ao conservadorismo político causado por uma imprensa que manipula informações e um sistema de rádio e televisão que funciona por “jabá” é essencial para mantermos a música viva. É muito mais psicodélico e contracultural ter uma posição de fato sobre o Golpe que ocorre no Brasil esse ano do que um solo de 10 minutos, por exemplo. Se entendermos o psicodélico em seu cerne notaremos que ele foi e é o que é devido a um somatório de fatores que não se baseiam apenas no som mas também na mensagem” – (Chico Rigo, Picanha de Chernobill)

- “Vejo como coincidência, mas o fato de estar crescendo o número de artistas independentes, festivais, festas, shows abertos, selos e ocupações são uma reação ao conservadorismo, hoje o pessoal sabe que música boa não é o que está na rádio, não é o que toca no domingo na TV, nem na trilha da novela das 21h. A verdadeira música está com os artistas independentes, está nas ruas, nos pequenos palcos, nos home studios, está com o pessoal que cai na estrada e chega em todos os pontos do país de alguma maneira” – (Julito Cavalcante, BIKE)

- “Nem sempre a psicodelia está diretamente atrelada à essa política terrena, a este Fla x Flu que vemos por aí atualmente no país e em muitos lugares do mundo. O Led Zeppelin, às vezes, pode ser considerado psicodélico, porém Jimmy Page se declarou explicitamente defensor da Margaret Thatcher, por exemplo. A psicodelia de hoje parece mais ser uma reação ao retrocesso dos sentidos, da sensibilidade, do sucateamento da música pop e de uma juventude que parece se guiar pelos seus gadgets, abandonando toda a sua organicidade. Com relação ao momento político, a ideia de anti-reacionarismo se cruza por vezes com o governismo no Brasil. No entanto, se for levar para este campo político, faria muito mais sentido que a psicodelia se atrelasse ao anarquismo” – (Rod Bourganos, Bombay Groovy)

O QUE MÚSICA TE FAZ SENTIR?

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Foto de Luiz Campos Jr.


- “A música FAZ sentir. Às vezes acolhe, às vezes traduz. Às vezes o silêncio é ainda mais psicodélico que qualquer som” – (Cacá Amaral, Rumbo Reverso)

- “A música nos faz sentir livres, viver de verdade. É uma porta para que possamos conhecer de verdade nosso país, viajando e conhecendo lugares e pessoas incríveis que nos acrescentam, e muito, na vida. Isso é impagável e um privilégio que nem todas as pessoas que tem o dom da música podem ter: o sistema capitalista selvagem que faz com que todos tenham que correr atrás da grana impede muita gente talentosíssima de exercer a profissão de músico. Dessa forma, nos sentimos muito privilegiados de podermos viver do nosso trabalho com a música, ou seja, a música é a maior liberdade que temos, é o que nos faz ser o que somos” – (Chico Rigo, Picanha de Chernobill)

- “Sempre que possível, a gente anda ganhando uns presentinhos antes dos shows, isso tem sido ótimo. A maior brisa de tocar sob efeito de alucinógenos é que sinto uma união maior entre nós, a música, os instrumentos e o público, tudo se torna uma coisa só, é louco isso, rola uma sensação enorme de liberdade e ao mesmo tempo uma conexão onde parece que todos estão na mesma viagem. Num show em Maringá uma menina nos disse que teve alucinações durante a música “Alucinações e Viagens Astrais”. Sempre tem gente que vem falar sobre as sensações que teve durante o show, principalmente se a pessoa está sob efeito de alguma coisa e isso nos aproxima de alguma maneira dessas pessoas” – (Julito Cavalcante, BIKE)

- “Somos viciados em música, literalmente. Talvez mais do que em café. E possuímos uma relação sinestésica muito intensa com as ondas sonoras propagadas. Isso está presente tanto na nossa apreciação diária do enorme catálogo de música disponível pela humanidade quanto na nossa composição e interpretação ao vivo de nosso próprio material. A música é abstrata, intangível e deve tocar não só a audição, mas todos os sentidos. É importante ver, sentir, tocar e internalizar uma obra musical. Tivemos a oportunidade de trabalhar com o artista visual Rica Ramos e suas belíssimas projeções no lançamento de Dandy do Dendê, no teatro do Sesc Belenzinho. Foi uma sublime ocasião, em que pudemos mostrar à plateia quais são as cores e imagens de cada uma das faixas, e as pessoas foram literalmente tocadas por isso” – (Rod Bourganos, Bombay Groovy)

Para fechar, tem playlist com referências das bandas, minhas favoritas e algumas das covers que ouvi nos shows.

Para florear dias cinzas.

Não resisti e reutilizei a capa de uma das nossas matérias favoritas sobre psicodelia por motivos de: John Howard é incrível.