Existem dois ditados italianos que aprendi serem verdadeiros. Um diz que na Itália você chora quando chega e quando vai embora (estou preparando os lencinhos). O outro diz que depois de ver a costa de Nápoles já dá pra morrer. Para eles, é a ‘mais bela do mundo’. Pode soar exagerado, mas é de superlativo em superlativo que se reconhece um genuíno napoletano.

No dia em que escolhemos fazer o passeio de caiaque, um dos nossos amigos, Du Van Gomes, está voltando para o Brasil depois de uma semana viajando em grupo, o que torna a atmosfera do dia mais especial. Além de ser nossa primeira vez na cidade na região sulista de Campania e um sonho de viagem do Pedro (se é a sua primeira vez no Malaguetas, dá uma passada aqui para conhecer a gente!). O sol está a pino, 33 graus. Cansados depois de três horas de ônibus, a primeira sensação na saída do metrô é: fodeu. Estamos perdidos, derretendo de calor e com um monte de malas pesadas.

Nós sempre estamos longe do celular. Não carregamos, raramente caçamos antena de wi-fi e se você falar com as nossas mães, provavelmente elas vão pedir notícias ou dizer que somos os mais desligados do universo. Bem ou mal, isso nos permite conversas improváveis com as mais diferentes pessoas. E como são solícitos os italianos! Das senhoras aos adolescentes, todos param na rua quando te percebem perdido. Se oferecem para ajudar, o que várias vezes vira um motivo para falar sobre o 7 x 1, pegar uma indicação de trattoria ou ouvir alguém cantarolar “Aquarela do Brasil”. Depois de seis meses sem sol, eu que não sei sambar mostro todo meu gingado.

Foto de Giuilia Rauzatti http://www.rollingstone.it/musica/foto-musica/le-foto-dei-chemical-brothers-al-rock-in-roma/2015-07-03/

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Alugamos a pousada do Francesco com vista para o Vesúvio, vulcão famoso por ter destruído a cidade de Pompéia (escreverei sobre esse rolê com dicas mais pra frente) e o único na Europa Continental a ter entrado em erupção nos últimos 100 anos. Decidimos tudo de última hora, o que limitou (e encareceu) as opções. Ainda assim, Nápoles é conhecida por ser uma das cidades mais baratas da Itália para comer e fazer passeios, o que facilita bastante a conversão reais x pizzas.

Segundo o anúncio no Airbnb, é um apartamento rústico com a mais bela vista da cidade, e encontramos apenas verdades. Mas se tem algo que aprendemos nesta vida e que se confirma a cada viagem, é que rústico é sinônimo de sem frescura (mesmo) e banho gelado. A outra é que onde existe uma bela vista, é melhor preparar as pernas.

Ju! Ju! Sinistro! Andiamo!

Depois de coreografar o caminho com gestos, uma senhora pede que a sigamos até a avenida da casa do Francesco, no final de uma ladeira para pagar todos os pecados da noite anterior. Os locais usam scooter para tudo, o que faz de um dos clichês da cidade uma ferramenta fundamental para circular no dia a dia. A Via Sanita é uma avenidinha caótica na periferia e de gente muito simpática. Os moradores nos alertam sobre perigo de assalto por ali, mas com bom senso e algum cuidado, não encontramos problemas.

Na casa, fazemos algumas buscas rápidas na internet, encontramos a opção de pegar a saída do último caiaque do dia e ainda ser levados de táxi até o local. Uma mistura de imprevisto, disposição e muita sorte. No caminho, o taxista faz questão de ir parando e mostrando o Vesúvio e a Ilha de Capri, cartões postais dos quais os cidadãos se orgulham, em uma mistura de hospitalidade fofa a taxímetro rodando. Ele nos deixa na ‘porta’ do local e escadaria abaixo a vista é de tirar o folêgo. Esqueço o sol ardendo nas costas. Todos os tons de azul evocando calmaria e tranquilidade, divididos pelas sombras grandiosas e misteriosas das montanhas.

Superando medos

Já contei por aqui que não sei nadar. Pois é, algo bobo pra muitos, mas um tipo de aprendizado que me coloquei como meta até o fim do ano. Geralmente não me impede de fazer coisas relacionadas ao mar, que me faz sentir uma paz inexplicável só de estar perto. Mas que cria um tipo de alerta e alguma tensão (já quase afoguei uma sogra no banana boat). Depois de umas batidas, braçadas e paciência dos amigos (obrigada, meninos!) a experiência no caiaque gerou muito mais risadas e boas histórias. Além desta sensação de pertencimento ao mundo de um jeito que você só reconhece quando se reencontra com a natureza.

Visitar a Itália com guia é um investimento que vale a pena. O nosso, além de ajudar com os equipamentos, entradas e saídas do caiaque e ter uma paciência imensa com as batidas e leseiras, explica um pouco da história do pequeno vilarejo de Posilipo.

Na mitologia, Posilipo era um homem que amou demais e acabou imortalizado na maior rocha do lugar, onde teria cometido suicídio depois de ser rejeitado pela amante Nisida, que também tem uma pequena ilha com seu nome. A costa também foi cenário de histórias famosas na mitologia e cultura greco-romana como a humilde residência do Ciclope, da “Odisseia” de Homero, e inspirando personagens em “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri.

Nápoles

Um pouco da rotina da Via Sanita (foto: Estef Reis)

 

Nápoles

Vista da casa do Ciclope, personagem de Homero (foto: Pedro Rosa)

 

Nápoles

Vista do vulcão Vesúvio (foto: Pedro Rosa)

 

Pequetito Strasse, Du Van Gomes e Capetitenstein (os nomes foram trocados para preservar identidades, mas eles aceitam contatos por Facebook)

 

Nápoles

Só os marombattis (palavra do dicionário local, ou não) – (foto: Pedro Rosa)

 

Nápoles

Aproveitando o dia (foto: Pedro Rosa)

 

Nápoles

Quase na Ilha de Capri (foto: Pedro Rosa)

 

Nápoles

Algumas das ruínas foram restauradas após a Segunda Guerra e dão um charme especial ao cenário

 

Nápoles

Pausa em uma das praias da costa para uma birra Peroni (gelada como as brasileiras) (foto: Pedro Rosa)

 

Nápoles - Passeio de Caiaque

O guia faz pausas e oferece material para mergulho

 

Nápoles caiaque

Não sei o que dizer, só sentir

 

Via Sanita - Nápoles

Um pequeno pedaço da ladeira na Via Sanita. Se toda dificuldade for recompensada com belas vistas, amigos e cervejas, dá para levar como filosofia de vida

 

Este é o segundo texto sobre o nosso mochilão na Itália. O primeiro, sobre o show do Chemical Brothers no Rock In Roma, você pode ler aqui. Acompanhe o nosso Facebook para o próximo texto da série sobre Ostiense, a maior galeria a céu aberto de Roma. 

Kayak Napoli
Guias
Francesco: 338-8174-715
Giovanni: 331 9874 271
Alessandro: 338 8761 157
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