“Se ainda não conhece a Flor das Avenidas, não sabe o que perde”, afirma o site da pastelaria lisboeta onde tenho um encontro marcado com Daniel Blaufuks, fotógrafo e um dos artistas contemporâneos mais celebrados na cena artística portuguesa.

Sigo lendo o site da pastelaria. O texto, nada modesto, assegura que ali há “as melhores empadas de Lisboa!”. Assim, com exclamação. Anoto o endereço e salivo pensando nas “empadas de Arraiolos, empadas de Alcáçovas, empadas de galinhas, empadas de pato, empadas de frango, empadas de espinafre e empadas de porco”, mesmo não sabendo o que possa ser uma empada de Arraiolos. Ou de Alcáçovas.

A sugestão do local partiu do artista: “Estou um pouco gripado e o local é próximo à minha casa. É quase esquina com a Defensores de Chaves”, dizia o e-mail que o lisboeta de 51 anos me mandara alguns dias antes. Mais tarde eu iria perguntá-lo se aquela seria a sua pastelaria preferida em Lisboa: “Não…o ambiente é agradável, o café é bom, mas existem outras pastelarias maravilhosas em Lisboa. A Versailles, por exemplo. Você precisa conhecer!”.

Daniel foi contemplado em 2007 no PhotoEspaña com o Prêmio “Best Photography Book of The Year” com a obra “Sob Céus Estranhos”. Curiosamente, o livro nasceu como filme: Em 2002, Daniel concebeu e dirigiu um documentário de 57 minutos, narrado pelo renomado ator alemão Bruno Ganz, que anos mais tarde interpretaria Hitler nas telas de cinema em “ A Queda“.

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Algumas cenas de “Sob Céus Estranhos”

Ex-aluno da Royal College of Arts; em Londres, e da Watermill Center; de Nova Iorque, Daniel foca a sua obra na relação entre fotografia e literatura e já expôs em meio-mundo: Novaiorquinos, berlinenses, madrilenhos e londrinos já tiveram a oportunidade de visitar exposições do artista em suas respectivas cidades. Belo-horizontinos, candangos e cariocas também. O fotógrafo é também um dos fundadores da MauMaus, Escola de Artes Visuais de Lisboa.

Para o encontro, regado à café e empada, falamos sobre sua mais atual exposição individual apresentada no Museu de Arte Contemporrânea em Lisboa, situado no bairro do Chiado. Entitulada de “Toda a Memória do Mundo, Parte Um”, a exposição inclui 46 obras inéditas e uma instalação. A exposição e está, assim como boa parte de sua obra, intimamente relacionada com a descendência polaca e judaica de Daniel. Seguem alguns trechos da conversa, que ocorreu em meados de dezembro.

Você é descendente de judeus alemães e polacos. Teus avôs paternos e maternos vieram para Portugal na década de 30, fugindo do terror eminente do Holocausto.

Por que é importante continuar falando sobre este assunto?

Sim, meus avós procuraram asilo aqui em Portugal, em Lisboa. Trouxeram pouquíssimas pertences consigo: Tinha uma bicicleta, uma máquina de costura e algumas fotografias. Não tenho muita propriedade para destrinchar a problemática do preconceito racial, visto que tenho a pele branca. O mesmo acontece com a homofobia: Como hetero, tenho pouco o que contribuir com o tema, num aspecto artístico. Então, a minha forma muito particular de sensibilizar o público é levantando a questão do Holocausto, que reúne também tudo isso em uma única problemática. Holocausto não é só Holocausto. É também anti-semitismo, racismo, e, sim, homofobia também.

“Através do prisma do Holocausto e da maneira tão particular como este acontecimento moldou a vida da minha família, o meu trabalho oferece ao espectador a possibilidade de inserir esta informação em um contexto novo, em um contexto mais atual. Procuro oferecer formas de rever o mundo, de reinterpretá-lo”

Você foi convidado para idealizar uma grande exposição individual no Museu de Arte Contemporrânea do Chiado, aqui em Lisboa. Conte um pouco deste projeto.

A exposição tem como ponto de partida duas obras literárias: W ou a Memória da Infância (1975); do escritor francês Georges Perec, e Austerlitz (2001), do alemão W. G. Sebald. Atualmente, me ocupo muito com essas obras e seus escritores, já que o meu doutorado [na Universidade de Gales] lida com o tema a fotografia através da obra de Georges Perec e W. G. Sebald e a sua relação com a memória e o holocausto”.

São três espaços, onde apresento 46 trabalhos, composição de imagens fotográficas de diversas proveniências, entre elas uma espécie de “mini-biblioteca”, uma mesa onde disponibilizo vários livros relacionados com o tema proposto. Nas paredes desse espaço podem ver-se igualmente algumas fotografias de objetos.

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“Toda a Memória do Mundo, Parte Um” está em cartaz no MACC, em Lisboa, até 22 de Março. Os bilhetes custam 4,50€.

Em um outro espaço construi um “atlas de imagens” sobre a memória, como gosto de chamar. Procurei constituir mapas visuais, seguindo um percurso de formas diferenciadas de olhar, de variações sobre a mesma temática, colecionando e selecionando imagens de assuntos idênticos ou de palavras-chave similares e arranjando-as em formas visuais.

E aí existe o filme sobre Terezin, a cidade-campo de concentração na atual República Checa criada pelo regime de Hitler. Para o filme, juntei imagens antigas com outras que captei este ano na cidade, quando estive lá com a documentarista Catarina Mourão [Catarina é um peixe grande no cinema documentarista português e fundadora da AporDOC, a Associação Portuguesa de Documentário]. Esta exposição é a mais ambiciosa que já fiz até hoje.

Por quê esta é sua exposição mais ambiciosa?

A curadoria foi exaustiva. Tive aproximadamente um ano para preparar esta exposição, para selecionar tudo. Tínhamos uma verba relativamente alta, o que é um luxo em se tratando de investimento em cultura em Portugal. Há também um livro bilíngue [português – inglês] que acompanha a exposição, concebido e planejado por mim. Acho que conceber o livro foi quase mais trabalhoso do que a exposição inteira [risos].

E o filme! Bom, são quatro horas e meia de duração e eu sei que ninguém, absolutamente ninguém, ficará lá sentado vendo-o inteiro. Mas esta escolha não foi por acaso: Em 1944, quando uma delegação da Cruz Vermelha visitou Terezin, eles precisaram de algo em torno de quatro e seis horas para percorrer a cidade de ponta a ponta. Terezin foi o único campo de concentração a ser visitado pela Cruz Vermelha Internacional.

“Sei por experiência própria que o visitante do museu assiste uns 20 minutos de vídeos mostrados em exposições. Então, pensei comigo: “Se for para dispersar depois de 20 minutos, não fará diferença para ele se o filme tem uma duração de uma hora ou de quatro horas e meia”

Uma das fotos da exposição


Quem é a Mano Barbosa

A paisagem mais bonita que já viu foi em uma viagem de trem de Oslo para Bergen. Já fez um tour de lambreta por Lisboa e rapel na Cachoeira Alta. Já cantou karaokê em Budapeste e vendeu tralha num mercado de pulgas em Berlim. Esteve no show do Michael Jackson e quase foi esmagada. É jornalista. Mata por tiramisú. Foi a única pessoa abaixo de 65 anos em um curso sobre a história do cinema, aos 16. Aos 23, partiu para a Alemanha, onde vive até hoje.