Uma semana intensa em um festival de cinema e você se percebe enxergando a vida mais cinemática. Se você já tentou analisar enquadramento e luz enquanto esperava o troco da caixa na padaria ou correu atrás de uma velhinha que estava centralizada na melhor fotografia de um fim de dia do verão, esse post é pra você. Selecionei os documentários que mais bombaram na Berlinale para te inspirar a ver novas histórias no cotidiano. Tem de tudo. Algumas coisas já saíram em Sundance e no Festival do Rio, mas nada que não valha a pena relembrar. 

“Is The Man Who is Tall Happy?” um francês doidão conversando com um dos maiores pensadores do nosso tempo: Noam Chomsky. Mais abstrata que uma conversa entre Michel Gondry e o linguista americano, só as ilustrações desenhadas pelo diretor, responsável pelos queridos “Rebobine Por Favor” e “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”

“The Act of Killing” o vencedor do prêmio de Melhor Documentário do festival é uma história política macabra. Trata-se de uma visita do diretor americano Joshua Oppenheimer à Indonésia para pesquisar sobre o massacre anticomunista na década de 60, que matou indiscriminadamente um milhão de pessoas. O interessante aqui é o formato. Além de relembrar o fato com recursos históricos, Joshua filmou os ‘heróis’ que promoveram a caçada encenando crimes de guerra que cometeram em figurinos completamente nonsense. Perturbador.

“Amma e Appa” – uma garota da Bavaria, um dos estados mais conservadoras da Alemanha, decide se casar com um jovem indiano. Apaixonado, o casal apresenta as famílias com a ideia de formalizar o casamento. Um filme que mostra com leveza e curiosidade como duas culturas tão diferentes se entendem quando o caminho é o amor

“Finding Vivian Maier” uma das histórias mais fascinantes que já vi. O documentário remonta a trajetória da babá que morava em Chicago na década de 20 e tinha como hobby escondido a fotografia. Décadas após sua morte, o filme mostra como um fotógrafo dos anos 2000 encontrou cerca de 100 mil fotografias, câmeras e negativos escondidos em um quartinho, um tesouro. Quem curtiu “Searching For Sugar Man”, vai curtir

“New York Review of Books” uma homenagem ao jornalismo old school, por Martin Scorsese. O doc está em fase de pós-produção, deve sair no próximo semestre. Mas Scorsese mostrou o material na Berlinale,  com detalhes do dia a dia do publisher da revista (que tem 80 anos) dizendo como ele resistiu a tantas adaptações tecnológicas fazendo bom jornalismo. As entrevistas remontam coberturas como a Guerra do Vietnã, o movimento Occupy e a revolução feminina na América. Aqui embaixo tem um trechinho da conversa que rolou após a exibição

“Castanha” drama, ficção, documentário, atuação, família e universo travesti. O documentário do brasileiro Davi Preto mostra de perto a história de João Carlos Castanha, que interpreta ele mesmo no longa inspirado em fatos reais de sua vida. Pra fãs de material nacional e para quem gosta de se perder entre a realidade e a ficção

“The Dog” - Bonny & Clyde gay na década de 50, o longa relembra o retrato de John Wojtowicz. Após se separar da mulher, John se apaixona por Ernest Aaron e em um crime digno de uma história de Nelson Rodrigues tenta roubar um banco para pagar a cirurgia de sexo do amante

“20.000 Days On Earth” o que era pra ser um dia na vida de Nick Cave se transformou em um filme que tenta debater qual a missão de cada um durante seu período na terra. Mesmo se você não gosta do cantor australiano, é legal ver uma nova perspectiva na edição, narração e trilha sonora para documentários musicais. Fiz uma matéria sobre ele para o UOL Cinema

“Vulva 3.0″ não, esse documentário não é um longa sci-fi sobre como uma vagina robótica dominou o mundo. Ele reúne entrevistas com médicos, historiadores, cirurgiões plásticos e muitas mulheres falando sobre os tabus e mitos relacionados ao orgão sexual feminino