Sexta-feira à noite, solstício de inverno. Ela está encostada na parede olhando para as chaves, suas mãos pareciam inquietas. Parecia ter receio de entrar, respirou fundo e desencostou-se da parede, o seu semblante caído mudou quando encarou aquela velha porta sorrindo. Destrancou-a e a empurrou, ficou imóvel por um instante olhando para aquela escuridão, sem hesitar deu o primeiro passo e entrou.

Acendeu a luz, olhou em sua volta, respirou outra vez. Avistou o porta-retratos, na foto está ela e outra mulher. Com uma das mãos desocupadas o pegou com indiferença jogando-o no lixo junto com a pasta do seu trabalho, sentiu uma sensação libertadora. Foi até a vitrola portátil, ligou-a, aumentou o som e dançou.

Tirou os sapatos que estavam incomodando, os jogou em qualquer canto da sala junto com a bolsa e as chaves. Desabotoou a camisa social ficando só de sutiã, soltou o cabelo. Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Pegou algo para comer com as próprias mãos sujando-se, não demonstrou desconforto. Um gato preto aparece se enroscando entre as suas pernas, ela faz carinho. Coloca a sobra da comida em um prato para ele comer no chão. Ela o olha nos olhos.

Levanta-se e sai da cozinha se limpando com um pano, depois o atirou no chão. Jogou-se no sofá olhando para a varanda fascinada com as luzes acesas dos prédios, observando os seus vizinhos. O gato pula em seu colo querendo se ajeitar, acaricia o felino. Entediada olhou para a estante, viu um maço de cigarros e ao lado um baseado, do lado dele está outro porta-retratos, riu com gosto, se aproximou olhando atentamente. O beijou com insignificância. Tentou acertá-lo na cesta de lixo, errou e deu de ombros.

Voltou para a estante, pegou o baseado e o acendeu, tragou em movimentos suaves enquanto se despia. Andou até a varanda já despida, está ventando forte, gritou alto. Sentiu a cidade em sua volta observando a agitação noturna. Acendeu outro cigarro, desses que se fuma um atrás do outro em sensação de alívio, começou a rir descontroladamente, mas não de desespero e, sim pelas revelações que teve.

Toda essa história para contar que essa foi a impressão que tive enquanto escutava “Revelações” pela primeira vez, single do disco “Projeções”, de Pedro Pastoriz. Visualizei personagem que se libertou de tudo após ter tido várias revelações de si mesma e a melhor forma de representação da liberdade é estando nu, claro que, no sentido figurado da palavra. Uma ideia de libertar o corpo e mente de qualquer pesar, rompendo padrões e situações que muitas vezes são impostos automaticamente todos os dias na selva de pedra. “Revelações” foi feita a partir de um poema russo de Osip Mandelstam, que personifica o século como um corpo. Faz sentido?

Pedro tem essa pegada de poetas urbanos que falam sobre a modernidade das grandes cidades e os desafios que se encontram de viver nela.

“Revelações” tem um belo trabalho de guitarra com essa pegada regueira, como o próprio Pedro diz: “De uns tempos pra cá, tenho curtido muito os reggaes que eram lançados no formato de single pela (gravadora) Studio One, então quando o Bruno Niggas me convidou para fazer o Lo-Fi na Casa Brasilis, imaginei que a música que teria mais essa cara era ‘Revelações’. A gente vinha tocando algumas versões de reggae nos shows e decidiu criar uma parte final, regueira, pra ‘Revelações’, incluindo essa vibe no disco”.

O single teve o seu lançamento no dia 09/12 no Estúdio Lâmina com uma apresentação ao lado de Murilo Sá & Grande Elenco para celebrar a chegada do Lo-Fi – disco de policarbonato cortado um a um em um torno jamaicano dos anos 50 – Acompanhado pelos músicos André Vac (Charlie e os Marretas) na guitarra, Arthur Decloedt (Música de Selvagem) no baixo e Felipe Maia (Marrero/Tarântulas) na bateria.

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O primeiro single do disco, “Projeção”, já ganhou registro em vídeo durante as gravações no Estúdio Canoa. Agora, com a chegada do álbum “Projeções”, que conta com Tim Bernardes (O Terno) na bateria, André Vac (Charlie e os Marretas) na guitarra e Arthur Decloedt (Música de Selvagem) no baixo.

O álbum tem essa leitura crônica da cidade, tendo São Paulo e seus personagens como objeto de contemplação. Eles vivem e transitam entre as ruas, são cercados por prédios, calçadas, enfrentando transportes públicos, multidões que não param para dar um suspiro, convivendo vinte e quatro horas por dia e mesmo assim enxergando beleza.

O álbum tem essa leitura crônica da cidade, tendo São Paulo e seus personagens como objeto de contemplação.

É assim que Pedro Pastoriz encontra a cidade em “Projeções”, transitando por esses lugares tão comuns em nossas relações, mas ao mesmo tempo inesperados, ele faz crônicas sobre o concreto, a urbanidade, a beleza dos quadrados e dos planos diretores, fala sobre as múltiplas possibilidades de um grande centro urbano. Apesar de ter essa pegada popular, é um álbum caótico na medida certa, contraditório, moderno e urgente como a própria vida.

“A primeira música que compus desse disco foi ‘Projeção’, foi por isso também que a escolhi como primeiro single, ponto de partida dessa história”, revela Pedro. Depois do repertório se desenhar melhor, o músico compreendeu esse material como uma série de projeções de assuntos, personagens e dilemas pessoais. Tudo ali compilado em um disco, mas pulsando a ponto de invadir as ruas da metrópole. “Não quis ficar muito no comando, deixei tudo vir sem ditar o ritmo ou procurar grandes mensagens ou significados. É a projeção da psicologia, como algo de dentro se projetando em algo externo”, complementa.

Não quis ficar muito no comando, deixei tudo vir sem ditar o ritmo ou procurar grandes mensagens ou significados. É a projeção da psicologia, como algo de dentro se projetando em algo externo – Pedro Pastoriz

Pedro Pastoriz é gaúcho e integrante da banda Mustache e os Apaches, rodou pela cidade com a primeira formação de seu trabalho solo (Tim Bernardes, Arthur Decloedt e Felipe Faraco), partiu para o Tennessee para gravar duas músicas direto em vinil na cabine da Third Man Records (direct cut), voltou para o Brasil, gravou um álbum inteiro dessa mesma forma com Arthur Joly, circulou por São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e foi até Berlim com seu show solo.

Apenas ouça.