O alemão Mark Moebius é sujeito raro: um compositor clássico que escreve suas partituras à moda antiga, com lápis e borracha. Após quinze anos de música clássica, um fator o incomodava: era preciso esperar semanas ou meses para que uma orquestra tocasse sua composição. Havia um gap enorme entre o processo criativo e o prazeroso momento de ouvir sua obra completa. Sua inquietude o fez conhecer Artur Reimer, produtor alemão de techno. Em uma visita ao estúdio de Artur, Mark ficou fascinado pelo imediatismo que a tecnologia permitia. Era possível ouvir instantanemente sua criação.

“Música é feita pra dançar. Uma noite fui ao Panorama Bar, e tive a sensação que controlava a música enquanto dançava”, ri Artur. O Panorama é um bar anexo ao Berghain, clube berlinense reconhecido pelas potentes caixas de som. Em sua apresentação no TEDx Berlin 2013, Mark confirma que “quando Artur comentou essa experiência comigo, tivemos a ideia que mudaria nossas vidas.” Na mesma época, a Microsoft havia acabado de lançar o Kinect for Windows, tirando as amarras com o Xbox e abrindo seu development kit para uma nova gama de criativos. Resolveram juntar as peças e postaram um anúncio de emprego na Universidade de Berlim. Encontraram Sebastién, o engenheiro de software que precisavam. “A ideia era esquisita o suficiente, então topei”, diz ele.

Juntos, criaram a Nagual Sounds, empresa alemã que promete traduzir dados em música. Sua tecnologia é capaz de converter qualquer fonte de dados, como informações de previsão do tempo ou até ondas cerebrais, em músicas com arranjos e harmonias complexas. Mas o principal produto, o Nagual Dance, leva aquela brisa do Artur a sério: te coloca frente à uma câmera Kinect, e enquanto você dança, capta as nuances de seus movimentos e transforma em música eletrônica. É um ciclo: você dança e cria música, e a música te faz dançar.

Em uma agradável tarde de primavera berlinense, fui ao escritório deles conversar com o Artur, Sebastién e o game designer (e também produtor de música eletrônica) George Delkos. Com duas salas amplas, eletrônicos por todos os lados, lousa rabiscada e violão de canto, a empresa tem jeitão de startup a todo vapor. “Queríamos uma interface mais intuitiva para produzir música. Porque não dançando?”, diz Artur. “Começamos extraindo dados de um relógio e transformando em música. A cada segundo, uma nova nota era gerada seguindo uma escala harmônica. Você sabia que um relógio pode gerar 8300 anos de músicas sem se repetir?”, disse Sebastién rindo. “Aí compramos o Kinect e começamos a bagunça”, completou enquanto eu imaginava como diabos ele calculou aquilo.

Um diagrama no Pure Data, ou como minha cabeça ficou depois dessa conversa

Um diagrama no Pure Data, ou como minha cabeça ficou

Sebastién desenvolveu toda a parte tecnológica e integração com o Kinect. “Tivemos que criar uma engine de áudio nossa, com módulos, synths e processador de efeitos próprios. Não queríamos funcionar como um plugin do Ableton Live, destinado somente a produtores musicais.”, completa. Seus algoritmos, programados em Pure Data e Max MSP, combinam processamento de dados em tempo real com uma técnica de composição automática, em que ritmos, harmonias e melodias são geradas por caminhos e patterns de dados. Orgulhoso, abriu o programa e me mostrou os bastidores de sua engenhosidade. Nesse momento, senti uma fumaça preta saindo da minha orelha direita, e antes que desse pane, pedi pra parar. Só me restou abraçá-lo e dizer obrigado. “Faz cerca de 20 anos que pessoas se comunicam com instrumentos por meio de movimentos, mas normalmente os sons são abstratos. Nós focamos no feeling da música, ela deve soar bem. Queremos abrir um framework em algum momento, que permita os artistas colocarem seus próprios sons dentro do software, e retrabalhá-los por meio da dança”, afirma George.

A empresa também sabe do potencial que sua tecnologia tem para uso fisioterapêutico ou para crianças com deficiência. “Podemos configurar a quantidade de movimento e quais partes do corpo controlam a música, adaptando o software para algumas deficiências”, diz Sebastién. “Em uma feira médica que participamos, ajudamos um garoto que não mexia os braços a dançar. A felicidade dele quando criava sua música não tinha preço”, comenta Artur. “Outra coisa boa é tirar as crianças do sofá. No Amaze Festival, dezenas de crianças foram lá jogar e dançar, até um molequinho de 3 anos! O avatar dele era minúsculo na tela!”, diz Georgios rachando o bico.

Em três anos, os protótipos já rodaram diversas feiras e talks de tecnologia pelo mundo, como o SXSW e MIA Music Summit nos EUA, o MIDEM em Cannes (onde venceram na categoria Criação Musical), e o Amaze Festival, festival de games independentes aqui de Berlim, onde conheci eles. “Ficamos aqui dentro por dias e dias produzindo sons, códigos e visuais, essa é nossas vidas. Quando saímos, é inspirador ver como as pessoas sorriem e se divertem dançando. Temos um ótimo feedback, e isso dá muita força pra continuar. Te faz lembrar porque você está fazendo isso”, abre o jogo Artur. A Nagual já recebeu um aporte financeiro de um centro de pesquisas midiáticas de Potsdam, cidade vizinha à Berlim, que permitiu a compra de equipamentos e softwares. “Agora estamos correndo atrás de publishers para lançar o jogo, e planejando uma campanha em crowdfunding para o Indiegogo”, revela esperançoso.

Nagual Dance

Mas e aí, como é dançar nisso? Em uma salinha escura e avermelhada no subsolo do Amaze Festival, um sorridente George me recebeu com um inglês de sotaque grego. Nunca fui desses caras viciados em Dance Dance Revolution ou esses jogos de dança no fliperama, minhas fichas iam pro Time Crisis. Mas em dez segundos de observação, já saquei que basta mexer cabeça, ombro, joelho e pé e a música vai sendo formada. Ao entrar no grid de dança, entendi que os braços comandavam a bateria, os pés controlavam o baixo e o resto é resto. Um minuto depois, ainda não tava rolando, só barulho. Uma voz do além me libertou. “Close your eyes, let it flow and dance”, sussurrou o bom grego. A partir daí, entrei num fluxo de conexão introspectiva em que eu e música éramos um só. Rola um transe mesmo. Se dança rápido, a música acompanha. Se resolve parar tudo e só mexer as mãos em círculos, cria um break. Bota o pé pra frente, o baixo faz woooum. Levanta os braços, bateria volta. Chacoalha os braços, white noise cresce. Mexe tudo, e pow, música estoura. Tive poucos minutos pra testar, mas a sensação era de estar tocando um instrumento, que respondia inteligentemente aos pequenos movimentos (ou a falta deles).

Produzir música eletrônica nada tem a ver com ficar frente à uma multidão selecionando boas músicas enquanto você bebe sua vodka e frita. Feeling de pista também é importante, mas criar seus sons envolve conhecimentos profundos em engenharia de áudio, mixagem e masterização, além de bons anos fuçando em complexos sintetizadores modulares e rastreando samples em lojas de discos antigos. Resumindo: exige muita dedicação e é nerd pra cacete.

O Nagual Dance configura tudo isso pra você, e te deixa com a melhor parte: criar sem amarras, comandado apenas pelo sentimento. De frente ao equipamento, criar música soa natural, destinado a qualquer mortal que queira, por minutos ou horas, entrar em contato com seu lado criativo. Basta desligar de tudo, fechar os olhos e se deixar levar. O que vem junto é um prêmio.

escrito por Pedro Rosa

O time Nagual Sounds