Lançamento de “Super Meat Boy” na Xbox Live, Tommy surta. Depois de quase quatro anos de desenvolvimento, o jogo não aparece na rede da Microsoft. Ele precisa da grana das vendas para ajudar os pais a pagar dívidas. Corta. Quatro anos da produção de “Fez”, Phil perde a namorada, o sócio, o dinheiro, e tem um jogo cheio de bugs para terminar e fãs críticos pra enfrentar.

Essas são duas das histórias presentes em “Indie Game – The Movie”, uma narrativa sensível da trajetória de quatro desenvolvedores independentes, Phil, Tommy, Edmund e Jon ao longo do processo de produção e lançamento de jogos que você já deve ter ouvido falar. São eles, “Braid”, “Fez” e “Super Meat Boy”, todos lançados na Xbox Live nos últimos dois anos.Indie-game-the-movie-web

Dirigido por Lisanne Pajot, o fio que conduz a introdução do longa mostra como cada um dos profissionais teve seu primeiro contato com games e como isso mudou a vida de cada um. “Quando joguei Nintendo pela primeira vez, sabia que era com isso que queria trabalhar a minha vida inteira”, diz Phil, criador de “Fez”. “Algumas pessoas fazem filmes, música ou arte pra se expressar. Eu me expresso criando games”, diz Tommy.

O primeiro esclarecimento que o documentário apresenta é o crescimento do sucesso dos jogos independentes nos últimos anos, com o lançamento de produções de sucesso como Minecraft e Limbo. E mostra principalmente que esses são jogos produzidos pela primeira geração que teve contato com essa forma de entretenimento, quando eles ainda eram em 2D, quando ainda eram Tetris, Mario ou do Atari.

No período de criação de cada um, que vai de três a cinco anos, o filme mostra as dificuldades financeiras, profissionais e pessoais que eles precisam enfrentar para lançar jogos fora do circuito comercial das grande produtoras. Os jogos envolvem de forma subjetiva a personalidade e infância de cada um e necessitam de muito empenho para serem criados, uma vez que só existem uma ou duas pessoas em sua produção. “As pessoas me cobram, estou fazendo o melhor que posso. ‘Red Dead Redemption’ levou cinco anos para ficar pronto, mas tinham 100 pessoas trabalhado nele. Estou fazendo ele sozinho”, esbraveja Phil.

Com delicadeza, a diretora acompanha passo a passo dos produtores até o lançamento dos jogos. E é aí que o filme começa a ficar cada vez mais emocional, principalmente porque mostra mais que a história desses caras batalhando para crescer na profissão e mostrar o trabalho que realmente acreditam, mas como lidam com suas pequenas vitórias e grandes fracassos, em uma rotina quase que diária.

Daí pra frente não há uma forma clara de traduzir em texto sem dizer que o que vai mudar a sua percepção e te inspirar quando assisti-lo, é justamente o fato de perceber que essas histórias se assemelham muito com o que você, leitor, viveu ou pode estar vivendo.

“Indie Game” não mostra só como esses jovens trabalham sozinhos e no fim acabam precisando da indústria para venderem seus trabalhos, mas como se entregam a um projeto do começo ao fim, e trabalham em algo que acreditam, mesmo que isso signifique perdas, e muitas, muitas noites em claro.

No formato de “trajetória do herói”, ele mostra as principais inquietações desta geração, dos 20 aos 35 que vê o trabalho de forma passional, que se frusta por ficar preso a empresas sem tempo para se dedicar a projetos que vão trazer um sucesso não só financeiro, mas uma satisfação de mudar a vida de alguém com seu trabalho, com algo que seja genuinamente criativo. “Eu fiquei cinco anos fazendo esse projeto e ele fala sobre a minha infância. E hoje posso pensar que um garoto ficou a noite inteira jogando esse jogo, perdeu o dia na escola e ele vai pensar que assim como eu fiz, ele também pode escolher esse caminho”, diz Edmund, de “Super Meat Boy”.

“Indie Game” provavelmente não vai mudar sua rotina de trabalho, e não vai te fazer ir atrás do projeto que vai fazer você se orgulhar por toda a vida agora. Mas te fará pensar com cuidado nos seus trabalhos diários, mostrando que o maior aprendizado está nas grandes dificuldades e nas redenções das pequenas vitórias.

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Resenha publicada no site Gamecult.

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