A lua cheia brilhava um glorioso dourado veranesco na noite em que seguimos em um caldento busão italiano com direção ao Ippodromo Capannelle, o jockey que anualmente abre as portas para o Rock In Rome. Diferente do formato que conhecemos, o festival divide as atrações não só em três dias, mas em um mês inteiro de opções separadas meio por mainstream x indie, meio por gêneros musicais. O que nos permitiu ver Chemical Brothers na última sexta (3). 

Estamos quase um mês mochilando na Itália (o que justifica um pouco da nossa ausência por aqui) e esta foi a única oportunidade que tivemos de unir viagem e música, um check que sempre tentamos dar por onde passamos, mas que estava difícil de rolar por motivos de grana e desencontros com turnês. (Alô, Tame Impala! Tá na hora de parar de fugir da gente!)

O Ippodromo em si tinha uma atmosfera bem legal, arborizado, espaçoso, não estava tão cheio. Mas na chegada rolou uma truculência de alguns seguranças agredindo vendedores de cerveja, zona bem brazilian style. Nós entramos sem uma revista ultra-criteriosa, passamos rapidinho na catraca com os ingressos, que custaram 40 merkels (cerca de 120 dilmas), pegamos uma fila tranquila para as fichas e drinks, sem muito stress, só alegria.

Foto de Giuilia Rauzatti http://www.rollingstone.it/musica/foto-musica/le-foto-dei-chemical-brothers-al-rock-in-roma/2015-07-03/

Foto da Giuilia Razautti, da Rolling Stone italiana (http://www.giuliarazzauti.com/)

 

Perdemos a abertura do Flume, chegamos em cima da hora de pegar umas (ou quatro) cervejas e já ouvir os roadies mexendo no palco. Tempo o suficiente para captar a atmosfera do lugar, que é uma das coisas mais legais de sentir quando você assiste a um show ‘fora de casa’. Nesses dias de opiniões tão divergentes na mesa do bar, talvez a música seja um dos poucos pontos que me conectem com as pessoas em um nível tão intuitivo e espontâneo.

Em entrevista ao Guardian, Tom Rowlands e Ed Simons disseram que o Chemical Brothers está durando mais do que muitos casamentos por aí. Mas no festival, a nossa sensação foi de que muitos casais (vários com mais de quarenta), foram cultivados com a trilha-sonora dos produtores britânicos.

Seguindo o roteiro dos shows da turnê do recém-lançado “Born In The Echoes“, o live foi aberto com o tradicional manifesto soturno (também conhecido como sample de “Tomorrow Never Knows” dos Beatles) seguido de um convite a mergulhar no show com “Hey Boy Hey Girl”.

Tentamos circular por vários lugares pra tentar achar um espaço em que eles soassem grandiosos como merecem. Em um área tão aberta, muita gente reclamou que do fundão o som estava muito baixo, o que nos motivou a ver a apresentação pulando no calor e aperto dos italianos, que são tão dançantes, sorridentes e animados quanto os brasileiros. Um viva a latinidade!

Tenho que confessar que em nenhum momento consegui enxergar os caras no palco. É claro que assistir ao vivo alguns dos visuais criados pelo diretor Joe Wright é uma sensação incrível. A imagem tem o mesmo poder que a música, o que a torna a experiência ainda mais impactante. Mas, se você está planejando vê-los no Sónar, em novembro, se prepare para fazer uma escolha. Se for nerd musical, daqueles que curtem ver o set-up no palco, chegue cedo.

11698692_1085057294855335_8794949206351252296_n

Do setlist, o que podemos dizer? Você provavelmente vai sair de lá com calos nos pés de tanto dançar clássicos como “Do It Again”, “Galvanize” e “Block Rockin Beats”. Do álbum novo, “EML Rituals” e “Go” soam como um fluxo natural na apresentação, trazendo frescor sem a necessidade daquele empurrão que as novatas precisam para engatar. Para os puristas, “Out of Control”, “The Private Psychedelic Reel” e “Chemical Beats” são alguns dos pedaços generosos de nostalgia noventista que eles tocam.

Motivos para ver no Sónar em São Paulo: todos! Tendo em vista que o festival vai rolar no Espaço das Américas, acho que o som deve ser melhor ‘preenchido’ e imagino que algumas dificuldades que tivemos não existam para os paulistanos. Chegue cedo e guarde lugar se quiser colar na grade para ver o suor escorrendo do rosto de Simons. Do contrário, é um show para ser visto um pouco do meio pra trás, onde a música e a imagem se equilibram daquele jeito que vai ficar na sua memória por muito tempo. De resto, lay down all your thoughts and surrender to the void.

Foto de capa: Luigi Orru