Cadernos, bloquinhos, rascunhos, canetas, recortes, agendas, diários e pedaços de papel sempre foram mais que saídas criativas, refúgios. E é muito estranho pensar como minha relação com a escrita mudou desde que mudei pra Berlim. Não só por respirar um lugar novo, mas porque a mudança de língua para alguém que trabalha essencialmente com palavras foi brusca, trouxe algum tipo de isolamento, junto com um processo estranho de auto-descontrução forçado pela distância da vida ideal e da rotina que tinha criado em São Paulo. 

No último inverno, tive os meus dias mais solitários, estranhos e cinzas mesmo vivendo o sonho que cultivei por tanto tempo. A tão desejada sensação de ‘zerar’ e começar algo fresco traz infinitas possibilidades e com elas o mesmo problema de uma página em branco: procrastinação, falta de foco, excesso de auto-crítica, falta de inspiração, escapismos. Onde foi parar meu tesão por escrever? Onde eu fui parar? Porque ninguém conta isso nos posts de “Dez motivos para morar fora”? Na maior parte das vezes o processo de adaptação é inicialmente frustrante e o tempo segue implacável, cronometrando todos os seus pequenos erros e abstenções.

Pulando uma parte do meu blá blá existencialista, uma coisa que me ajudou a reconectar foi a comunidade de zines da cidade que é ativa e muito aberta. Só aceitei que estava travada e acuada quando percebi o quanto zines rústicos e impressos em A4, compartilhavam as histórias mais sinceras e questionadoras de autores como eu e suas experiências na cidade. Coisas que não conseguia colocar pra fora com ninguém e que o chit-chat raso do script ‘de onde você é’, ‘onde você mora?’, ‘quanto tempo na cidade?’ te desanima de começar uma conversa.

Visitei alguns eventos de zines em prédios inóspitos, mas aquecidos com pessoas comuns trocando histórias, gravando podcasts sobre o quão maravilhosa e cagada a rotina pode ser. Em um deles vi uma autora lacrimejar enquanto, super tímida e corajosa, se abria para uma sala de 20 pessoas ensinando uma técnica de mini-zines que a ajudou a cuidar da depressão. Ela me motivou a voltar para a caneta e com ela fui me reencontrando nos papéis.

No Comic Invasion deste fim de semana, uma feira muito parecida com a Plana (SP), conversei com muita gente legal, apoiei artistas que gosto, uma troca de ideias que começa e pode terminar na internet, mas que tem seu momento auge no mundo material. Essa feira cresceu bastante nos últimos anos e em 2015 ganhou mais autores e recebeu sete mil pessoas, o que mostra um interesse em boas histórias e uma relação mais próxima do físico e do outro.

Dessa vez sai sem a pressão estranha de não ter produzido algo ou de depender mais da escrita para me comunicar do que gostaria, mas me permitindo a compartilhar erros e aceitá-los como parte do todo. Você pode trocar de cidade, de país, mas nunca vai conseguir fugir de si mesma.

comicsinvasion10

comicsinvasion3

comicsinvasion4

comicsinvasion8

comicsinvasion7

comics-invasion2