Gabriel Mascaro é desse tipo de gente que não gosta de perder tempo. Perguntado se pode dar uma entrevista, antes de entrar em uma sala de cinema, ele responde, simpático: “Posso sim, aqui!“  Aqui? No corredor do cinema Abaton? O recifense aguardava a exibição do seu mais novo longa-metragem, Boi Neon, que teria estréia no Festival de Cinema de Hamburgo, na Alemanha. “Sim, aqui!”, fala ele, apontando enfaticamente para o chão do corredor. “Vou entrar com o Roger [Roger Coza, crítico argentino e curador da seção Vitrine, dedicada a filmes latinos], apresentar rapidamente o filme e nos encontramos aqui fora.”

Nascido em 1983, Mascaro ainda é relativamente desconhecido do público, mas vem fazendo um nome entre profissionais do cinema. Seus filmes já foram exibidos em importantes festivais de cinema como Locarno, San Sebastian, Londres, Roterdã e Lisboa. Boi Neon, que estrearia no Festival de Cinema do Rio três dias após nossa conversa em Hamburgo, foi agraciado com  o prêmio especial da mostra “Horizontes” da 72ª edição do Festival de Veneza e foi exibido nos Festivais de Toronto e Zurique.

“Fiquei para verificar se estava tudo bem com o aúdio”, explica Mascaro ao sair da sala. Pergunto se poderíamos nos sentar no restaurante turco do outro lado da rua, com o lindo e brega nome de Arkadasch (amigo, em turco). Para minha alegria, Gabriel topa. Roger nos acompanha. O que nenhum dos três sabia: Boi Neon ganharia não somente o Prêmio da Crítica do Festival.

Cinema Cruel

“Conheci o trabalho de Gabriel através de Domésticas”, fala Roger, tirando o cachecol e o sobretudo antes de sentar-se do meu lado esquerdo em uma mesinha de canto no Arkadasch. Em 2012, ele concebeu e dirigiu o documentário , exibido em festivais em Amsterdã, Nova Iorque,  Buenos Aires, Paris e Leipzig.

Uma ideia interesante: Sete adolescentes assumiram a missão de registrar por uma semana a sua empregada doméstica e entregar o material bruto para o diretor, que realizou o documentário de 75 minutos com essas imagens. Roger continua: “É um grande prazer encontrar um realizador que reflete sobre o mundo através de formas cinematográficas magníficas, e Gabriel é um desses realizadores. Trouxe o seu longa Ventos de Agosto ano passado para Hamburgo, e este ano o Boi Neon.” Peço uma cerveja, Roger um café. Gabriel não quer beber nada.

Gabriel estava há apenas poucas horas na cidade no norte da Alemanha. Acabara de chegar do Festival de Cinema de Zurique. “Ainda estou um pouco cansado”, diz Gabriel, a voz baixa. “Em Zurique deu tempo até de ver um filme. Assisti ao Rams, uma co-produção islandesa e dinamarquesa. O filme acabou levando o prêmio de melhor filme na competição internacional, mas eu vi por um acaso”, comenta ele. “Geralmente não dá pra fazer tudo o que eu quero quando estou em um festival. Rolam entrevistas, por exemplo!”, e gargalha.

O que ele preferiria estar fazendo agora se não estivesse me dando essa entrevista, pergunto eu. “Conversando com o Roger!”, responde ele. Os dois riem.  A afeição e respeito entre o brasileiro e o argentino são perceptíveis. Conversam em inglês, em portunhol. Gesticulam, riem, e a repórter, sentada entre eles, por vezes tem dificuldades em direcioná-lo de volta para a entrevista.

“O cinema de Gabriel é cruel, é um cinema que se propõe a pensar outras formas de fazer filme. Ele tem uma maneira quase filosófica de trabalhar, isso é fascinante”,  assegura Roger, que nos últimos anos  trouxe para Hamburgo, além do já citado “Ventos de Agosto”, de Gabriel, filmes como “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós, “Baixio das Bestas”, de Claúdio Assis ou “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes.

boineon-malaguetas

“Cinema, Aspirinas e Urubus” é, álias, um filme importante na trajetória de Gabriel. Foi através deste filme de 2005 que ele teve suas primeiras experiências com o cinema: “Tive a sorte de trabalhar como assistente nesse filme do Marcelo e foi ali que fui aprendendo como um set de filmagem funciona, uma oportunidade preciosa”, afirma o cineasta.

Gabriel assume, porém, que  o cinema nunca foi uma coisa que tenha sonhado em fazer desde criança: “O cinema não era um sonho, uma coisa que sempre quis fazer na minha vida. Foi uma descoberta recente. Eu fui me interessando e comecei a pesquisar, a ler sobre o assunto. Sou auto-ditada, mas cercado de pessoas que foram me ajudando e me ensinando muito. Foi uma troca partilhada, não uma troca formal.”

Descentralização da produção

Sobre o processo de criação de Boi Neon, Gabriel conta que o interesse surgiu da sua percepção de como o nordeste brasileiro estava sendo abordado no cinema: “Era sempre aquela coisa da pessoa que quer abandonar o lugar miserável rumo ao sudeste”, analisa ele. “O nordeste é mostrado como um lugar monocromático, pobre… Enfim, aquela construção retrógrada, tanto no cinema quanto também na literatura. Com Boi Neon eu tentei me distanciar disso.”

E escolheu para isso o universo da Vaguejada, atividade popular no nordeste do Brasil onde dois vaqueiros a cavalo alinham um boi até emparelhá-lo entre os cavalos e conduzi-lo ao objetivo, onde o animal deve ser derrubado. “Boi Neon descontrói a típica relação de poder entre figuras femininas e masculinas, e a maneira como o Gabriel retrata isso, na figura do vaqueiro Iremar, é simplesmente estonteante”, comenta Roger. Iremar é interpretado pelo ator Juliano Cazarré, conhecido por atuações em novelas (“Amor à vida”, “A Regra do Jogo”) mas também em filmes como “O Lobo Atrás da Porta”, de Fernando Coimbra.

“O nordeste é mostrado como um lugar monocromático, pobre… Enfim, aquela construção retrógrada, tanto no cinema quanto também na literatura.”

“O Brasil passou nos últimos dez anos por um processo muito especial e expresivo de descentralização da produção do cinema”, comenta Gabriel, questionado sobre a atual situação do cinema brasileiro. “Com isso, cineastas de fora do eixo Rio-São Paulo estão conseguindo fazer cinema e divulgar isso. Essa é minha segunda vez no Festival de Hamburgo, por exemplo. Isso é uma coisa nova”. Roger balança a cabeça afirmando a fala do amigo. Gabriel continua: “Um grupo de realizadores de diferentes partes do Brasil conseguindo divulgar seus trabalhos em festivais internacionais e ao mesmo tempo criar uma oportunidade de pesquisa e uma rede de contatos em outros países. Isso não acontecia há uns 10 anos átras.”

Para o crítico Roger Koza, o mercado internacional só tem a ganhar com isso: “Ano passado trouxe um filme do diretor goiano Adirley Queirós (Branco Sai, Preto Fica). Um diretor muito bom, de quem fico à espreita, ávido por novidades. O mesmo acontece com o Gabriel. Estou sempre de olho no que ele está fazendo.”

Cinema em Pernambuco

Ainda sobre o processo de democratização do cinema brasileiro, Gabriel se diz contente por fazer parte disso: “Isso faz com que lugares como Recife, de onde venho, tenham a sorte de ter muita gente boa experimentado cinema de forma diversa. Recife tem se tornado um polo efervescente para se fazer, pensar e discutir cinema. Isso é ótimo”. Quero saber se existe uma  forma pernambucana de fazer cinema.

“Acho complicado querer traçar de forma precisa o que é o cinema pernambucano”, fala Gabriel, nota-se um ceticismo em seu tom de voz. “São filmes feitos em Pernambuco, por pessoas que nasceram ou que se relacionam de alguma maneira com Pernambuco, mas são filmes diversos, plurais. Talvez seja equivocado ficar procurando por regionalismos. A arte é orgânica e muito vivaz, ela não tem identidade definida. O mesmo vale para o artista. Estamos em contato com o mundo, vendo filmes internacionais, viajando. Existe uma troca constante.”

Antes de terminarmos a conversa, pergunto se Gabriel assistiu à “Que Horas ela Volta”, de Anna Muylaert.  “Eu estava louco para ver, mas infelizmente ainda não tive a chance. Quando ele foi lançado no Brasil eu estava fora divulgando o Boi Neon”, comenta o diretor. “Espero que o filme tenha uma carreira linda, porque é um debate muito pertinente no Brasil, tenho muito apreço por essa tema. A Anna é competente e sensível o bastante para fazer algo poético, forte e transformador. Conheço a Anna e o sucesso que o filme tem feito no Brasil é merecido.”

No dia seguinte à nossa conversa, Gabriel seguiria rumo ao Rio de Janeiro, onde Boi Neon seria exibido em quatro sessões, uma delas em sua presença. “Gosto de discutir meus trabalhos com o espectador, acho isso de extrema importância”, afirma ele, antes de sair rumo ao cinema. O filme sairia o grande vencedor do Festival, levando os prêmios de melhor longa de ficção, melhor roteiro, melhor direção de fotografia e melhor atriz coadjuvante para a Alyne Santana. Boi Neon será distribuído no Brasil pela Imovision mas ainda não tem estréia definida no circuito nacional.

Sobre a Manô Barbosa
A paisagem mais bonita que já viu foi em uma viagem de trem de Oslo para Bergen. Já fez um tour de lambreta por Lisboa e rapel na Cachoeira Alta. Já cantou karaokê em Budapeste e vendeu tralha num mercado de pulgas em Berlim. Esteve no show do Michael Jackson e quase foi esmagada. É jornalista. Mata por tiramisú. Foi a única pessoa abaixo de 65 anos em um curso sobre a história do cinema, aos 16. Aos 23, partiu para a Alemanha, onde vive, dez anos depois, até hoje. Aqui você encontra suas histórias: http://manobarbosa.tumblr.com/