Início de janeiro, sábado à tarde, era uma daquelas tardes gregas de tão quentes. O corpo febril, início do verão paulistano e, bom, lá estava eu. Parada em frente a uma casa, pessoas chegavam e entravam, esperei um pouco do lado de fora, puxei papo com o segurança que estava na porta enquanto a minha crise de ansiedade passava. Comprei uma água e puxei assunto com uma garota que segurava entre as mãos a Caixa (Malacacheta), ela sorriu e entramos.

Alguns minutos passaram e resolvi me misturar entre as pessoas, foi quando os batuques soaram: chocalho, repique, tamborim, surdo de primeira. Estava curiosa e queria ver de perto.

Continuei pedindo licença enquanto abria passagem, aos poucos eu via mãos cujo os movimentos eram rítmicos e cabelos dançando ao vento. Pedi licença outra vez e fiquei nas pontas dos pés, estiquei o pescoço para poder ver melhor e pensei com ironia, “este seria o primeiro de muitos ensaios que estão por vir”. Foi quando avistei no centro daquele quintal uma bateria de mulheres ensaiando para o carnaval, ao redor delas, a plateia que assistia contagiada com tamanha alegria, cantando e dançando ao som dos clássicos da MPB. De certo modo, eu poderia dizer que havia encanto naquelas meninas, felizes no que faziam aos cânticos dê “Vem chegando o verão / um calor no coração” e “Ô balancê, balancê / Quero dançar com você” e etc.

Bloco Pagu

Ok. O que esta história toda tem haver? Bom, senta que lá vem… Muitos de nós sabemos que a origem do carnaval sempre foi nas ruas. As primeiras manifestações carnavalescas eram chamadas de Cordões, evolução da festa portuguesa Entrudo dos escravos quando o Brasil ainda era Colônia. Com os passar dos anos a festa evoluiu junto com a sociedade e os seus aspectos sociais, culturais e políticos tornando-se um ritual nacional. Com o tempo, migrou para os clubes e se institucionalizou em sambódromos.

Aos pouco foi retomando o seu estado de origem ressurgindo de cara nova nas ruas, sendo uma das atrações mais esperadas do país com a proposta do reaproveitamento dos espaços públicos, gerando fonte de renda ao turismo e pequenos comerciantes, levando milhões de pessoas à rua. De ano em ano a proporção de blocos e cordões carnavalescos só crescem, em 2016 a festa reuniu mais de um milhão de pessoas superando o lucro do sambódromo que é privatizado.

Para quem não se situou ainda, o coletivo de políticas públicas Minha Sampa criou a mobilização contra o Projeto de Lei 279/16 ou “PL da Quarta-feira de Cinzas” arrecadando assinaturas para pressionar os vereadores a retirarem tal emenda que obrigava TODOS os blocos de rua a terem CNPJ e se associarem a entidades carnavalescas. Com mais de três mil e-mails a proposta sambou feio garantindo a liberdade do carnaval de rua de paulistano.

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Entendi Roseli, mas o que a historinha ali no começo tem haver? Calma, logo chego lá! Quando eu citei no parágrafo acima, “tardes gregas” seria para ressaltar que faltam apenas quatro semanas para o início do Carnaval de Rua de São Paulo, 495 blocos se inscreveram para desfilar no período de 17 de fevereiro a 5 de março.

E a boa disso tudo é que o carnaval de 2017 segue a mesma dança dos últimos anos, abrindo espaço para manifestações culturais, críticas sociais e política como forma de contestação para uma sociedade mais igualitária.

E onde eu quero chegar com isso tudo? Bom, muitos blocos de ruas têm dificuldades em se mobilizar, garantir espaços para os ensaios e até mesmo os profissionais para a aplicação das oficinas, fora a arrecadação de recursos e divulgação, boa parte desse blocos são totalmente independentes e muitas vezes precisam de campanhas como Crowdfunding e financiamento coletivo via www.catarse.me, como o bloco Bloco Explode Coração, entre outros.

“Queremos aproveitar a oportunidade não só para divertir, mas para estimular alguma reflexão sobre o tema durante o carnaval, o período do ano em que as mulheres mais sofrem assédio e violência”

Agora, vocês lembram da historinha lá no começo do texto que narra a minha experiência em um desses ensaios pré-carnaval? Então, o ensaio era do Bloco Pagu. Bom, o nome já diz tudo. O Bloco Pagu tem como iniciativa o empoderamento feminino e inspirou-se na musa do modernismo que dá nome ao bloco. Pagu, o pseudônimo de Patrícia Galvão, artista, jornalista e escritora que foi uma mulher questionadora, a frente do seu tempo, fez da própria vida uma luta pela liberdade.

O bloco terá a sua estreia no carnaval de 2017, com o intuito de exaltar a igualdade entre gêneros e respeito a liberdade individual do ser humano com a proposta de uma bateria 100% feminina. “Queremos aproveitar a oportunidade não só para divertir, mas para estimular alguma reflexão sobre o tema durante o carnaval, o período do ano em que as mulheres mais sofrem assédio e violência”. Dizem as responsáveis, a cineasta Mariana Bastos (BTNK) e a produtora executiva Thereza Menezes (Saliva Shots).

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O bloco tem Bárbara Eugênia, Julia Valiengo (Trupe Chá de Boldo) e Maria Soledad como intérpretes principais. Elas serão as responsáveis por entoar clássicos da MPB que se tornaram famosas através de cantoras importantes na história musical do país, de Carmem Miranda a Elis Regina, passando por Marisa Monte, Gal Costa, Maria Bethânia, Dona Ivone Lara, Rita Lee, Alcione, Beth Carvalho, Baby do Brasil, Margareth Menezes, Elba Ramalho, entre outras. A jornalista Cris Naumovs (Bloco do Apego) será responsável pelas pickups no aquecimento e dispersão da saída oficial.

A cantora de rap Preta Rara, que tem a trajetória marcada por sua atuação e militância na cultura negra, especialmente no empoderamento das mulheres, foi escolhida pelas fundadoras a representar o bloco e a ocupar o lugar de Rainha. Com mais de 50 integrantes inscritas na bateria sob a tutela do regente Claudinho Santana e mestras experientes de escolas de samba, o coletivo informa que não precisa saber tocar para se juntar ao grupo e os ensaios são realizados todos os sábados das 16hs às 19hs em lugares variados da cidade.

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O que eu pude perceber durante o ensaio das meninas é a diversidade de pessoas que estavam ali presente. E talvez esta seja a proposta do carnaval de dar estímulo a vida perante a união entre as pessoas, durante a festividade não há segmentação de classes sociais e sim a união na mesma “confraternização”, já que vivemos em uma sociedade brasileira que é marcada pela desigualdade social e pelo preconceito racial. O carnaval tem esse poder de transformação e desconstrução do adulto racional para o adulto instintivo em busca de libertação e prazeres.

E nós, como meros mortais, somos enfeitiçados por Baco durante esse clima, embarcando em uma trama Shakespeariana numa visão totalmente suburbana ambientada no mundo carnavalesco de blocos de ruas. Você – ahã – é o personagem principal dessa história naufragando nesse mar de foliões no ritmo do samba, das marchinhas vivendo aventuras alucinantes.

PS: O bloco Pagu está com inscrições abertas para a bateria 100% feminina até a última semana de janeiro. Podem ser feitas através do email: blocopagu@gmail.com

Saída oficial: 28 FEV – Terça Feira.
Trajeto: Centro de São Paulo (A SER CONFIRMADO COM A NOVA PREFEITURA)
Ensaios: Todos os Sábados – 16hs às 19hs.
Locais variados: A partir da metade de Janeiro mais datas serão marcadas até o carnaval.
VALOR DA MENSALIDADE: R$ 150,00