“Quem olha para fora, sonha. Quem olha pra dentro, desperta”. A frase de Jung representa o conceito central da psicologia analítica, a individuação. O processo de desenvolvimento humano tem como base a integração do yin e yang dentro de cada um e a distinção do que é ou não consciente. É uma busca por autoconhecimento que envolve encarar traumas, medos, angústias e se conectar com o Eu superior para encontrar a sabedoria divina. Fã do psicanalista e estudante de psicologia, a artista carioca Bian passou os últimos anos usando a música como canal para acessar o universo interno. 

Em quase uma hora de conversa por telefone, falamos sobre música, transparência, processo criativo, introspecção. Desde 2013, quando lançou “Chained” e “What If“, faixas que viraram trilhas das novelas “Malhação” e “Verdades Secretas”, Bian tem tentado encontrar mais que o próprio caminho na música pop, as próprias verdades. Aos 21 anos, ela tem um público fiel (cerca de 12 mil ouvintes mensais só no Spotify) e se sente mais segura como militante.

Aprendeu que a música e a escrita poderiam ser poderosas válvulas de escape aos 10 anos, quando começou a estudar violão por influência do pai, que tinha o piano como hobby. A primeira composição surgiu aos 14. “Quando comecei a produzir, aprendi a ouvir música de outra forma. É importante se desligar da técnica e compreender a intenção artística do músico. Além de ser cantora, compositora e instrumentista, eu podia mergulhar muito mais no processo de criação musical, produzindo minhas músicas e colaborando com outros produtores”, explica.

Amplificar seu desabafo em um processo transparente de transformação não foi tarefa fácil. Mas, nos últimos três anos, Bian aprendeu a exercitar a própria voz com letras que assumem as suas paixões. Musicalmente, foi beber referências no Berklee, onde estudou produção musical, trocou a terapia pelo Ableton e se tornou ainda mais autônoma sobre as criações. “Estudar produção musical mudou minha vida”, diz.

“Começo escrevendo com o coração, depois vem a criação do timbre, é um exercício de sentar e tirar algo de você”

Foi neste ambiente que surgiu “Hands”, primeiro single do álbum que ela deve lançar ainda em 2016. Introspectivo e delicado, o vídeo de Neno e Fábio Santos, ambos de 23 anos, introduz uma nova versão da cantora. Além do visual repaginado, Bian se vestiu com uma sonoridade mais minimalista e eletrônica, que lembra os melhores momentos do The XX. Soando complexa e profunda, ela fez um mergulho intenso nos próprios conflitos e conseguiu transformá-los com sensibilidade em uma sonoridade mais experimental.

“Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas”, disse Jung. Bian levou o mestre a sério. “Ia à terapia porque precisava desabafar. Antes disso, achava incrível a ideia de me assumir. Mas, não acreditava que conseguiria”, comenta. “Para mim, a letra é uma forma de transbordar, transformar em algo tangível.”

O processo de se encontrar foi complicado e tomou a maior parte da adolescência. “Com quinze anos já entendia quem eu era e minha sexualidade, mas se falasse sobre isso naquela época não seria verdadeira. Não tive muitas referências lésbicas para seguir”, explica. “Hoje não quero ter medo de dar a mão pra minha namorada, e isso é política. É muito difícil ser gay.”

“Mais do que um clipe da causa gay, é uma história de amor, com duas meninas vivendo a sua sexualidade de maneira empoderada”

Com a música, Bian descobriu que poderia empoderar outras meninas. ”Estou inserida nesse contexto, é pessoal e é importante provocar as pessoas a repensarem. É preciso desconstruir todos os dias”. Mais segura no posto de referência, a exposição não incomoda mais e ela mostra isso no segundo single, “Move On”. “Com a arte, você fica travestida de alguma forma. É um caminho menos doloroso, de pertencer sem medo”, comenta.

“Só o que somos realmente tem o poder de nos curar” – Jung

No processo completo de se distinguir dentro da própria individuação, Bian não poderia estar mais feliz com o mundo interno que está descobrindo. “A música me amplia. Me sinto mais verdadeira, mais autêntica”. Nós agradecemos <3