Em “Pornografia: O conto de fadas masculino“, Frederico Mattos comenta o ambiente idealizado em que homens e mulheres crescem. Em resumo, ele explica como a indústria cultural atrapalha as nossas relações, embebidas em projeções idealizadas em uma formação iniciada pelas indústrias do sexo e do entretenimento.  

Falo da parte que me cabe. A dinâmica de relacionamentos para a mulher é basicamente biológica: nascer, crescer, menstruar, casar, engravidar e formar uma família que vai te fazer feliz pra sempre. É o ciclo natural da vida, se não fosse assim que a indústria tenta condicionar a nossa existência. A discussão aqui não é contra a família, mas questionar o motivo das nossas filhas, sobrinhas, primas, não serem incentivadas a sonhar além.

Vivemos a mesma fantasia doméstica desde pequenas, quando presenteadas com cozinhas, bebês e histórias que narram a vida de ascensão dolorosa e glamourosa de princesas que trilham o caminho da felicidade apenas em torno do amor. E como nós nos machucamos por causa de contos de fadas e príncipes que não existem.

E é contra todo esse fluxo que surge a versão de Neil Gaiman para as histórias clássicas de Bela Adormecida e Branca de Neve. Um livro infanto-juvenil que tenta formar uma geração de cabeça mais aberta, uma desconstrução da personagem principal que conhecemos tão bem e que não imaginávamos o quanto poderia ter potencial.

Por uma jornada da heroína mais interessante

Durante as divulgações do livro, Neil Gaiman disse que não tem paciência para histórias em que as mulheres são resgatadas por homens. E isso é basicamente o que guia a narrativa. O conto de fadas considera o amor, mas trilha uma aventura em busca, primeiramente, de auto-conhecimento e inteligência emocional.

Em busca da amiga, Branca de Neve precisa lidar com questões morais, como matar ou não alguém desacordado, e apesar de estar preparada para lutar, ela pondera o uso da arma e escolhe as brigas de forma justa e lúcida. Ao contrário do que a imagem de capa sugere, a sexualidade das princesas não é a principal motivação da história. O famoso beijo que desperta para o amor é guiado não pela paixão, mas pela vontade de fazer a escolha certa para salvar alguém. O significado de sororidade belamente ilustrado por Chris Ridell.

Freud já nos explicou sobre a importância da primeira infância. Pensando desse ponto de vista, porque não é mais justo que façamos nossas próximas escolhas em relação as aventuras que escolhemos viver? Porque não podemos sonhar com amor, claro, mas enxergar muito além dele?

Converso com muitas amigas que encontram dificuldades em conversar com as mães. Podemos dizer que já conquistamos muito em relação a geração delas, que casaram cedo e nos pariram em uma época que a mulher era ainda mais julgada por suas escolhas. O que o livro me deixou foi a sensação de que podemos sonhar com mais e que as possibilidades são infinitas e maravilhosas, mas que também somos aptas a aprender a lutar as próprias batalhas.