“Não sei ser modelo não”, diz Narcélio Grud, desconfortável e na mira da câmera. O ‘look do dia’ do artista é formado por dois canos de mangueira presos em uma cinta abdominal preta. Nas mãos, dois freios de bicicleta controlam a entrada e saída de tinta de uma garrafa pet, que ligada aos canos, permite que as cores cheguem às caneleiras com dois pincéis de construção com um furo no meio instalados. A tinta escorre direto para o chão e ajuda o artista a pintar com o pé. “Estou me sentindo o Robocop.”

Ao redor de Narcélio, crianças e ativistas culturais de Berlim observam o teste de uma de suas gambiarras. Recentemente, o nordestino participou do Berlin Unlimited com uma exposição e uma palestra sobre suas instalações no Brasil e na Europa. Encontramos Grud no Tempelhof, antigo aeroporto da capital alemã desativado em 2012 e que hoje é uma dos maiores parques da cidade. Entre tintas e vassouras pincéis, conversamos sobre arte de rua nordestina, os muros do Brasil e Banksy.

Desde que começou a carreira “séria” como grafiteiro, há seis anos, Narcélio fez residência artística na França, participou do festival de arte de rua de Bristol, espalhou preguiçosas redes pelas praças de Manchester e algumas marcas nas paredes de Berlim. Formado em Design de Interiores, aprendeu a canalizar sua criatividade em trabalhos para diferentes formatos. Lambe-lambe, graffiti, pixo e instalações sonoras são algumas plataformas. Para ganhar dinheiro, concilia arte de rua com bicos como cenógrafo e oportunidades que envolvam arte.

Sua relação com a rua começou na década de 80. Expulso de onze colégios, encontrou nos becos de Fortaleza um espaço para transbordar suas inquietações. Caçula de uma das primeiras turmas de pixadores cearenses, andava de skate e ouvia punk rock. “Tinha uma energia de fogo, sou sagitariano”, descreve-se. “Foi dessa fixação com a rua que surgiu meu primeiro contato com o spray. Depois foi ganhando outro direcionamento, amadurecendo.”

Da infância com o avô surgiu a paixão por gambiarras, as ferramentas que cria para pintar. Entre elas, uma vassoura que vira um pincel gigante ou uma broca instalada na roda de uma bicicleta. “Gambiarra é uma coisa típica do brasileiro. É o jeitinho brasileiro. Meu avô criava muita coisa com o que tinha em casa, desde um ventilador feito com cano até as coisas de colocar panela da minha avó para rodar em cima da mesa. Ele inventava um monte de coisa. Chegava na casa dos meus avós e já ia logo ver o que ele tinha inventado”, conta.

“Na minha época também era muito fã do Daniel Azulay. Tinha isso de fazer carrinho de lata, inventar os próprios brinquedos. Às vezes eu desenhava, em outras arrancava a espuma dos colchões da minha mãe ou levava colchão da rua pra dentro de casa para esculpir. ‘Que que tu tá fazendo com isso, tu achou na ruaaaa, tu é dooooido?’, imita a voz fina da mãe. “Acho que eu não tinha outro caminho não.”

Grafite do festival Concreto

Graffiti do festival Concreto

A inquietação e o espírito de auto-didata permitiram que as portas para diferentes projetos se abrissem. “Alguém chegava e dizia: ‘Você sabe quem faz escultura de madeira?’. Eu falava: ‘Cara, eu faço’. Não sabia, mas falava que fazia, dava um jeito e entregava. Acabei fazendo uma escultura de fibra para um parque aquático famoso no Ceará, o Beach Park. Não sabia a primeira, fui atrás, aprendendo na marra, procurando professor. Depois com a internet as coisas ficaram mais fáceis”, explica.

Festival Concreto e a confirmação de Banksy

Além de fazer a própria arte, Narcélio promove eventos na cena local. “Viajava para outras cidades e pensava. Por que não tem esses festivais bacanas na minha cidade?”. E foi assim que, em 2011, surgiu a ideia do Festival Concreto e do livro “A Arte Urbana do Nordeste do Brasil”, com artistas que levam cor às ruas de seus nove estados.

Do festival, a confirmação de Banksy, a maior história de pescador que a mídia já caiu, é uma de suas favoritas. “É então, ele confirmou a presença, mas não foi”, diz com uma risada debochada. “Foi a maior onda. Até então a gente estava anunciando o festival, a mídia meio morna, sabe como é, ninguém nem aí. E aí rolou o: ‘o Banksy vem! POW”, empunha o braço no alto. “O Banksy vem? Foi cobrir o festival a Folha de São Paulo, o Globo. Todo mundo me ligando: ‘Cadê o Banksy?’. Respondia: ‘Eu não seeeei’, imita um telefone com as mãos. “A galera fez uma intervenção no quartel da cidade, com uma criança fazendo xixi e colocaram a assinatura do Banksy. Não foi da minha galera. Mas rolou muita onda. Até hoje tem na cidade ‘Banksy é uma mentira’. Fizeram um stencil e coloram em várias partes da cidade. Rolaram muitas coisas legais por causa disso”, conta.

Arte de rua como ferramenta de mudança

O caso do farol Titanzinho é um dos exemplos bons que o artista cita. “Rodei a cidade inteira atrás de lugares e autorização pra gente pintar. Quando entrei nesse farol, ele estava largado, sem porta, sem pintura. Mas se você entrasse no site do Governo do Estado, encontrava ele lindo e maravilhoso como um ponto turístico. Na verdade ele estava cheio de cocô,  quase caindo”, conta.

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“Falei: ‘Vamos pintar isso aqui’. Fui atrás da Marinha, eles falaram: ‘Não sei, é com a Secretaria de Cultura’. Fui na Secretaria, disseram: ‘Não sei, vê com a Marinha’. Pensei: ‘Ninguém sabe quem é? Então vamos pintar isso aqui com ou sem autorização’. E aí a gente começou a pintar, a mídia apareceu e começou a chegar um monte de arquiteto falando: ‘Isso não pode, é patrimônio tombado’. Mas aí foi massa a discussão que surgiu. E agora por causa do festival eles começaram a revitalizar a área toda. Esse tipo de arte não agrada todo mundo, é mais sobre passar uma mensagem. O farol está pintado até hoje, cutucou a ferida e isso é o legal.”

Outro exemplo é do Coletivo Massa Crítica. Com um carrinho de supermercado e um galão de tinta de cinco litros, o grupo pinta ciclofaixas nos pontos mais usados por ciclistas na cidade. “E aí rola a maior briga com a Prefeitura. A galera faz a ciclovia, a Prefeitura apaga e faz a deles em cima. É massa porque acaba rolando, né? Eles vão sempre em rua que ainda não tem ciclofaixa, pegam quatro, cinco quilômetros e pintam de madrugada, segunda e terça, esses dias mais mornos. Esse último prefeito vê a galera fazer esse tipo de protesto, às vezes vai lá e resolve.”

O muro que divide Sudeste e Nordeste

Levando em consideração nosso momento em Berlim, onde neste ano comemora-se 25 anos da Queda do Muro, conversamos sobre as divisões imaginárias do Brasil. “Uma vez fui em SP pintar com uma galera e encontrei com um cara no trem, ele estava com a roupa suja de tinta, já rolou aquela simpatia. Perguntei: ‘Está indo pintar?’. Ele respondeu: “Eu também, estou indo para o mesmo lugar’. Falei: ‘Pô, massa! Não sei onde é, você me ajuda’. No final da conversa, ele falou: ‘Tu é da onde?’. Respondi: ‘De Fortaleza’. Ele: ‘Do Ceará, né?’. ‘É’. Aí ele virou as costas e não falou mais comigo durante o tempo todo que a gente pintou. Fiquei pensando: ‘O que será que falei?’. Não sei se é paranóia minha, mas achei estranho. E agora com a eleição o pau que está rolando. A culpa é do nordestino. Esse muro entre Sudeste e Nordeste existe.”

Pergunto como a arte poderia diminuir essa divisão cultural. “A arte é o poder, ela mexe com a pessoa. É onde um dia eu realmente quero chegar. Tocar o coração da galera independentemente de onde o cara é ou o que ele faça. A arte é bem mais forte e uma linguagem universal. Por enquanto, ainda consigo vender mais arte na Europa do que no meu próprio país. Isso é muito doido. Entendo que existe um coronelismo, uma coisa um pouco atrasada. Por outro lado existe uma riqueza artística gigantesca.”

“Se o que faço lá (no Nordeste) eu fizesse aqui (em Berlim), em São Paulo ou em Londres, estaria em outro status, não sei se a palavra certa é status, mas estaria com um outro nível de trabalho em relação ao desenvolvimento, de ser mais reconhecido”, desabafa. “Tem a coisa de estar no Cearazão que é “distante do mundo”. Mas com a internet isso encurtou pra caramba, um dos motivos dos meus vídeos. Quando cheguei em Madri, o Borondo, que é um artista super conhecido de streetart, me reconheceu de um vídeo que tinha feito dois dias antes”, comenta com orgulho discreto.

Quando fala sobre a arte de seu estado, os olhos brilham. ”Culturalmente, vou ser um pouco bairrista. O Nordeste não deve a nenhum lugar no mundo. Se você for para o Cariri, você fica impressionado com a cultura e tradição deles. De escultores, de brincantes, de trocentas coisas, de músicos… Uma galera que nem está vendo se é reconhecido, faz porque está ali, o avô já fazia, o pai já fazia. Agora essa época do ano é a melhor por lá porque é a época dos festejos. Está chegando o Natal e a maioria da coisa cultural tem a ver com a coisa religiosa lá”, explica.

“Meu medo é essas igrejas evangélicas que chegam e apagam tudo. Já fui em uma cidade com um reisado (Folia de Reis) bem tradicional que estava morrendo por causa de igrejas evangélicas. Galera se convertendo e abandonando a tradição. Em cidades com cinquenta, cem famílias, chega uma pequena igreja, abre as portas, incentiva a galera. E de repente o que você fazia, que era cultural, vira pagão, a Bíblia condena”, comenta.

Me vejo em um papo de horas. Mas com as mãos sujas de tinta e carona esperando, Narcélio precisa ir. Enquanto cruzo o longo caminho do aeroporto na luz alaranjada do pôr do sol, penso na história do farol. Duas semanas depois, nesta segunda (20), com mais um boato da prisão de Banksy, um ano após a ausência no Concreto, rolou o estalo. Nesse trecho de um comentário de Rachel Gomes, cidadã de Fortaleza e radialista, sobre a polêmica de Titanzinho, a resposta.

A identidade histórico-cultural de Fortaleza está ameçada, sim; mas de maneira nenhuma por aqueles que denunciam o descaso. Está ameaçada pelos centros de eventos, pelos aquários, pelas estaiadas, pelos mirantes, pelos viadutos, pelo sonho da Miami cearense. Numa coisa esse farol já me fez crer: Banksy – ainda que como um conceito ideológico abstrato – veio sacudir a Miami. Muito grata aos Banksy’s que estão intervertendo essa cidade avessa.”

Banksy também é cearense.

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fotos graffiti: Divulgação/Narcélio Grud
fotos Tempelhof: Estefani Reis e Pedro Rosa