Em cena do documentário Art War, exibido nesta semana como parte da programação da Berlinale, o escritor anti-Islã Hamed veste uma camiseta com os dizeres “Deus está ocupado, posso ajudar?”. Antes que possa virar a esquina de casa, é cercado por fundamentalistas religiosos que o questionam e o ameaçam em frente às câmeras. 

Dirigido pelo alemão Marco Wilms, o filme documenta de forma cronólogica os protestos da Revolução Egípcia de 2011, da renuncia de Mubarak às eleições parlamentares no fim de 2013. Wilms acompanha o dia a dia de quatro artistas que representam diferentes facções e ideologias para mostrar como a arte se tornou uma forma de documentar os protestos nas ruas.

O longa de noventa minutos começa com Ammar, de Luxor, um grafiteiro. “O muro é a plataforma da revolução, nem as notícias, nem a mídia podem transmitir informações de forma tão transparente”, comenta no filme. O artista se tornou famoso por transformar o muro da rua Mohamed Mahmoud, próximo a Praça Tharir, onde mais de 1200 pessoas morreram durante os protestos, em um memorial dos mártires das manifestações. Entre seus graffitis mais famosos estão retratos de alguns dos 72 adolescentes mortos pela polícia em um estádio de futebol.

Além dele, Rahmi é um carismático músico de rua e Ganzeer um designer gráfico que espalha stencils pela cidade com rostos de militares e imagens que se tornam ícones com ajuda da internet. Do Cairo, Bosaina é uma jovem cantora de electro-pop que busca liberdade de expressão e sexualidade. Como personagem paralela está a história de Aliaa El Mahdy, adolescente que publicou uma foto nua na internet e se tornou um dos assuntos mais polêmicos do país. Sua imagem também virou tema de graffiti.

O documentarista acompanha ainda Ammar durante uma visita ao interior do país, onde mostra a tradição antiga dos egípcios em retratar acontecimentos com pinturas nas paredes. Na cidade, outro ponto interessante é o muro como veículo de comunicação com a comunidade e discussões políticas entre diferentes facções de grafiteiros.

Com trilha-sonora forte, depoimentos passionais e cenas pesadas dos protestos, o filme mostra como a vida dessas pessoas e suas opiniões mudam depois de passar pelas mudanças políticas. Mostra também a Praça Tahrir como um palanque contra o governo e é desanimador ver o quanto a situação parece não ter solução. Enquanto no Brasil a polarização se caracteriza pela direita e esquerda, o que já é extremamente problemático, o país ainda é dividido por defensores do exército e líderes religiosos que agem como caçadores de opiniões contrárias nas ruas.

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No ano passado, listei cinco documentários muito bacanas apresentados no festival de cinema alemão, um deles é o “10 Thousand Days On Earth”, do Nick Cave.