Ron Deibert, professor de ciência política na Universidade de Columbia e diretor do Canada Centre for Global Security Studies, deu uma aula sobre o principal tópico discutido na Re:publica: segurança na rede e os efeitos das revelações de Edward Snowden. Autor do recém-lançado “Black Code – Inside the Battle for the Cyberspace”, para ele, os documentos sobre espionagem e fornecimento de dados de usuários mostram o surgimento de um novo formato de colonização, liderado pelos Estados Unidos, e que tem o Facebook de um lado, a CIA de outro e as mídias sociais e celulares como armas de dominação.
black-code-cover1“Pensar em transformar nossa vida digital é pensar em uma revolução demográfica. Cerca de 49 milhões de usuários surgiram na Nigéria no último ano, pessoas que estão acessando a internet pela primeira vez através do celular, na Indonésia no último ano teve um boom de 800 mil novos usuários. O que podemos esperar dessa nova população digital?”, questiona.

Durante a conversa, Deibert mencionou exemplos de como cada governo está fazendo um espelho de sua democracia na rede. Entre os modelos estavam desde os mais enérgicos, em países como a China e o Paquistão, que usam informações para investigar jornalistas e controlar o conteúdo de mensagens de usuários, a Alemanha, que obriga empresas de telefonia a fornecer dados e contatos de clientes, até o modelo proposto pelo Brasil, longe do ideal, mas considerado um exemplo de como criar um meio termo e uma tentativa de adaptação favorável ao usuário.

Outro tópico mencionado para falar sobre a importância do assunto foi o efeito dos celulares na Primavera Árabe, a primeira revolução do Twitter, e como a internet, se bem usada pelos cidadãos, pode se tornar uma ferramenta poderosa de criação de comunidade, protestos e manifestações. Para finalizar, Deibert deixou uma lista de cinco pontos (um sexto adicionado por um participante da palestra), que pontuam os principais desafios da internet nas próximas décadas para fugir do controle estatal.

Republica/Gregor Fischer

O professor Ron Deibert (Re:publica/Gregor Fischer)

1. Restaurar a transparência, relembrar os princípios da democracia
2. Aplicar as mesmas regras ao setor privado, para que não paguemos para ter nossas informações divulgadas para uso do governo
3. Regulamentar os profissionais e atualizar cursos superiores com mais do que conteúdo técnico. Uma das sugestões do professor é que as profissões relacionadas a tecnologia, devam formar profissionais além da superfície, que não apenas aprendam a codificar, mas entender como ela funciona de uma forma mais profunda, filosófica e historicamente.
4. Distribuir a governança, a internet não pertence aos Estados Unidos só porque o Google é a maior empresa de internet da atualidade
5. Promover uma ética entre os ‘hacktivistas’
6. Convencer os usuários que eles precisam apoiar esses movimentos, enxergar que ainda há tempo de mudar

“Eu realmente não me vejo como um idealista, tudo isso pode acontecer, só vai levar tempo. Eu vejo isso como um grande mapa de como recuperar a internet e a democracia antes que seja tarde demais”, finaliza.

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