Um dos questionamentos da psicologia musical, que gera controvérsia entre teóricos da estética e expressão artística, está na relação entre o criador e o ouvinte. A música conseguiria por si só ser um canal de emoções que conecta autor e receptor? Ou a arte gera uma reação emocional que é indiferente ao que o próprio artista estava sentindo? Na vibe de entender essa relação ressonante, conheci o one-man-band Gabriel Luqui, do recém-lançado Andira.

A gente bateu um papo de horas sobre como é possível transformar o inconsciente coletivo em algo material. No caso do Gabriel, o impeachment foi o gatilho para colocar para fora muita coisa que ele estava sentindo. Com uma pegada soul refrescante, ele conta pra gente como em oito meses se trancou no quarto enfrentando os próprios medos para lançar o primeiro álbum, com referência à cultura indígena e o som das ondas magnéticas de Saturno.

“Quero que todo mundo abrace e se identifique através das próprias bagagens. Essas músicas são de todo mundo. Contam a história de todo mundo”

“Tudo o que eu falo tem muita bagagem envolvida, muita memória, muitos momentos. É tortuoso no sentido de colocar muita coisa pra fora. Se abrir. Se expor através de metáforas”, comenta. “E dar a oportunidade de interpretar com as próprias memórias. Não uso objetividade nas minhas músicas. Quero que todo mundo se identifique com as próprias bagagens.”

Conta um pouco do seu processo criativo.

Foi um processo bem bonito e bem difícil. Nunca tive contato com gravação e fiz tudo sozinho. Comprei um equipamento bem simples, só uma placa de áudio e um microfone. Gravei no meu quarto, em 8 meses, enquanto estudava produção musical. Convidei a Renata Alvino, que é uma amiga da faculdade, pra gravar o refrão de “Prólogo”, a segunda faixa do álbum, mas o resto eu toquei tudo sozinho. E agora eu estou pra começar a ensaiar com uma galera pra poder me apresentar. (Se alguém estiver procurando banda, fica a dica).

Qual é a sensação de em oito meses sair do zero para um EP?

A sensação é a de ver um filho saindo de casa, saca? Um medo dos primeiros passos dele, de onde ele vai parar, de com quem ele vai se relacionar. Mas, ao mesmo tempo, é um orgulho enorme ver ele caminhando. É muito louco. Foi um processo maravilhoso, bem introspectivo. Fiz tudo do meu quarto, então deu pra refletir sobre várias coisas. Não só sobre o que eu falava, mas musicalmente mesmo. Onde eu queria chegar, o que eu conseguia fazer. Ultrapassei vários limites nisso. Tinha um bloqueio enorme quanto a cantar, odiava minha voz e aprendi a respeitar ela. Foi um relacionamento muito forte entre meus poemas, eu e minhas músicas.

“Toda noite eu coloco meu fone de ouvido e ouço um álbum repetidamente, prestando atenção em cada detalhe, entendendo cada acorde, relacionando cada intenção”

Qual foi o gatilho disso tudo?

Em duas situações bem contemporâneas e que tem fomentado uma discussão enorme. A primeira foi o impeachment. No dia em que rolou o golpe, fiquei tão atordoado que lancei a página. O álbum ainda não estava pronto e lancei meio de impulso. Depois, pensei: “Agora, fodeu! Tenho que terminar”. E não tinha nem gravado as vozes ainda! Quando saiu o resultado das eleições, me senti bem motivado a lançar, pela bagagem das letras. Porque, na real, é o que muita gente quer falar. Nas minhas letras eu falo basicamente sobre o direito de ser, saca? Direito de fazer o que te faz feliz. Um fetiche de moral engolindo a felicidade.

Como o coletivo e o pessoal se relacionam nesse caso?

Acho que esse contexto político todo tem desestabilizado muita gente. Inclusive criado um certo questionamento sobre si, mas num contexto negativo, oposto a reflexão que te amadurece. É um lance de “Será que eu estou realmente errado sendo eu?”. E são coisas que eu basicamente enfrento na minha família, que grande parte é bem conservadora e se opõe totalmente a coisas do meu dia a dia, a pessoas que fazem parte do meu circulo social. Então, senti que essas pessoas, assim como eu colocando isso tudo pra fora, se sentiriam parte dessas letras.

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O que música te faz sentir?

Eu respiro música! Sério, música mexe comigo de uma forma que eu não me contento em consumir música, em fazer música! Eu preciso entender! Toda noite eu coloco meu fone de ouvido e ouço um álbum repetidamente, prestando atenção em cada detalhe, entendendo cada acorde, relacionando cada intenção! Enquanto não me sentir o melhor amigo do artista, não paro de ouvir.

Em “Prólogo”, você faz uma relação entre ácido (LSD) e chuva ácida.

Questiono o tabu que envolve o assunto drogas, que é uma coisa que a galera costuma não ter a menor noção do que fala. Foi vendido um discurso absurdamente superficial e generalizador de “droga mata”, colocando um monte de coisa num mesmo saco e ignorando absolutamente muitas outras. Aquele papo de “quando nos agrada a gente olha pro outro lado”. O álcool é a droga que mais mata no mundo, que mais causa danos, mais causa dependência enquanto as cadeias estão superlotadas com agricultores ou usuários de maconha. Prozac, Rivotril e mais uma lista imensa de remédios, café, açucar, tabaco.. Quanta droga a gente consome! Quantas mortes causadas pelo tráfico, pela ilegalidade, pela negligência no assunto.

De onde vem o nome Andira?

Andira vem do tupi guarani, significa morcego grande. Eu achei essa palavra sonoramente muito bonita e, pesquisando sobre ela, encontrei uma história incrível de uma escritora de Manaus, a Sayonara Melo. Ela conta sobre um morcego que vivia às margens do rio Andira (que é o nome do álbum) e vivia em busca do sol. Quando eu li esse conto eu me apaixonei e tive certeza de que era esse o nome do projeto. É a busca por algo que você é apaixonado, mesmo que muitos digam que é impossível, mesmo que seja muito difícil seu sonho, ele é maior que tudo! Não é uma escolha, é uma necessidade essa busca. É mais forte que tudo! E é a minha busca.