Não se sabe ao certo se foi a sorte, um alinhamento de planetas ou uma benção fora de hora de São Valentim, mas o sol, que resolveu dar as caras nesse domingo, dia 12, foi muito bem recebido pelas milhares de pessoas que compareceram ao Memorial da América Latina para ver, quase que exclusivamente, o tão aguardado show do Kaiser Chiefs no 20o Cultura Inglesa Festival.

A movimentação na entrada era grande e a procura por ingressos idem. Segundo informações (não confirmadas), dos 20 mil disponibilizados gratuitamente, apenas 2 mil foram destinados ao público em geral, sendo que os 18 mil restantes ficaram nas mãos dos alunos da Cultura Inglesa que, em caso de desistência, ainda podiam fazer a caridade de ceder o mesmo a algum fã desesperado.

Como esperado, um público composto por adolescentes se espremia na grade da pista VIP em frente ao palco, enquanto o povo mais velho (e mais agasalhado) curtia de longe e sem bebidas alcoólicas, já que a censura 14 anos não permitiu a comercialização. O Staff Only, banda formada por professores, entrou pontualmente as 15h tocando um repertório de covers que não empolgou muito o público. Mesmo assim, a qualidade de som estava acima da média, o que ajudou bastante o Finger Hooks logo a seguir. Vencedora de um concurso em 2015, a banda indie conseguiu se sair bem, superando um certo desconforto inicial com o tamanho do palco e terminando sem erros com uma versão acelerada de “Hate To Say I Told You So” do The Hives.

Com o Nação Zumbi, a coisa já foi diferente. Trazendo em sua bagagem não só uma vasta coleção de discos bem sucedidos e turnês internacionais, mas também uma certa aura que só o artista genuíno consegue ostentar, a banda capitaneada por Jorge Du Peixe fez tremer o chão de concreto do Memorial, deixando a promessa de um tributo aos clássicos da invasão britânica das décadas de 60 e 70 (que contou com versões de Beatles, Specials e The Zombies) bastante diluído no repertório original.

É interessante observar como o Maracatu-Rock da banda Pernambucana evoluiu ao longo dos anos para um formato pop quase universal e que funciona muito bem em cima do palco. E é ali o lugar onde a Nação mostra a verdadeira força do seu som, que cresce para cima do público como uma locomotiva que conduz os grandes hits da carreira, passando por cima da indiferença inicial da plateia e descarrilhando num final apoteótico com os hinos “Maracatu Atômico” e “Quando a Maré Encher” entoados por todos os presentes.

18:40h e a noite já jogava suas sombras num recinto completamente lotado e no público que se encapotava como podia com luvas e cachecóis para fugir do “clima londrino”, quando as luzes se apagaram e o grito da audiência já prenunciava o que vinha pela frente. Descarregando uma energia impressionante, os britânicos Ricky Wilson, Simon Rix, Andrew White, Nick Peanut e Vijay Mistry (o baterista com o pior corte de cabelo da história do rock) subiram ao palco incendiando o público blasé, que se apagou precocemente já na segunda música, a recente (e indiferente) “Ruffians on Parade” (cuja execução contou com a inusitada pagação de cofrinho do vocalista).

Daí pra frente, o clima congelou de forma impressionante o ânimo dos presentes, que não faziam questão nenhuma de esboçar qualquer reação que não fosse tremer de frio. Mesmo assim, Ricky Wilson — um cara tão simpático que você até convidaria para morar na sua casa — não se abateu e ainda conseguiu levantar parte da audiência, pulando, dançando, trepando em tudo que via pela frente e exigindo a participação de todos nos “Eôs” que invocou no decorrer do show, arrancando uma tímida participação do público durante “Little Shocks”, “Parachute” e “Modern Way”.

Apesar do som tecnicamente perfeito e a performance impecável, as novas músicas (que em alguns momentos chegam a flertar com um Europop meio brega) não convenceram e foi mesmo no clássico “Ruby” que a massa de 20 mil pessoas respondeu, tirando as mãos dos bolsos dos paletós para acompanhar a banda, gritando e cantando estrofes, pontes e refrão.

O final já se aproximava quando o cover de “Pimball Wizard”, do The Who, conseguiu irradiar um pouco de eletricidade na temperatura que marcava 8º e a belíssima “Home”, executada com emoção impar, fechou a noite para boys, girls e crushers que ainda ganharam de presente as progressivas “Misery Company” e “Oh My God”.

Um show para ficar na história. Pena ter encontrado os brasileiros bastante contidos, sinal talvez de um novo público mais acostumado com as atrações internacionais que passam sempre por aqui.

Setlist:

Everyday I Love You Less and Less
Ruffians on Parade
Everything Is Average Nowadays
Little Shocks
Parachute
Never Miss a Beat
Modern Way
Cannons
Hole in My Soul
Ruby
Take My Temperature
The Angry Mob
I Predict a Riot
Pinball Wizard (The Who cover) Play Video
Coming Home

Bis:
Misery Company
Oh My God (seguida de ‘Na Na Na Na Naa’)

Kaiser Chiefs

Kaiser Chiefs

Kaiser Chiefs

Kaiser Chiefs

Kaiser Chiefs

Fotos e vídeo: Luciano André
Foto da capa: Flávio Santiago